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sexta-feira, 29 de março de 2019

ARTIGO - Justiça Divina (HE)


JUSTIÇA DIVINA
Humberto Ellery*


A doutrina da Igreja Católica ensina que Deus é a Suprema Perfeição. Deus é onipotente, onisciente e onibenevolente. Não pretendo entrar detidamente na discussão do Paradoxo de Epicuro (ou Trilema), que contesta a prevalência dessas três virtudes ao mesmo tempo, e conclui que havendo duas a terceira é obrigatoriamente excluída.

Resumidamente, Epicuro afirmava que, se Deus tudo pode e tudo sabe, não deve condescender com a existência do Mal, que Ele conhece, tem poder para destruí-lo e não o faz, então não é onibenevolente; se Deus tudo pode e tudo perdoa, é porque desconhece a existência do Mal, portanto não é onisciente; e se Deus tudo sabe e tudo perdoa, porque Ele é bom, então deveria destruir o Mal, que Ele conhece, e mesmo assim não o faz, então não é onipotente.

Outra boa discussão da Teologia se dá acerca da Perfeição de Deus. Segundo as Sagradas Escrituras, se o maior dos pecadores se arrepender sinceramente de seus pecados, e pedir perdão em sua hora extrema, Deus, em sua infinita misericórdia, o perdoa.

Ora, que Justiça é essa que leva para Sua Glória o pior dos pecadores, em igualdade de condições com pessoas de uma vida inteira de santidade? Dimas, o bom ladrão, seguiu no mesmo dia com Ele para o paraíso. Que Justiça perfeita é essa? Nenhum castigo? Simplesmente o perdão? A quem responde que Seu Amor por nós é maior, está admitindo que Seu Amor é maior que Sua Justiça. Ora, se a Justiça é menor que o Amor, então não é perfeita, pois há algo maior que a anula.

Consequentemente, mesmo admitindo que o Inferno existe, e que os pecadores vão todos para lá, chorar e ranger os dentes, a Santa Madre Igreja Católica jamais nominou nenhum dos condenados, só o próprio Deus tem esse conhecimento.

Temos historicamente apenas uma exceção, que é uma anedota. Quando Michelangelo Buonarroti estava fazendo os afrescos da abóbada da Capela Sistina, o Mestre de Cerimônias do Vaticano, Biagio da Cesena, subiu nos andaimes que o genial florentino utilizava para fazer sua pintura. Perguntado pelo Papa o que achava daquela maravilha o infeliz desandou a criticar duramente a obra, “uma coisa desonesta, em um lugar tão respeitável pintar tanta gente nua; esse tipo de pintura ficaria melhor em prostíbulos”. 

Permitam um breve parêntese: a cena do Pecado Original parece dar razão ao Biagio. Adão é retratado em pé, com as pernas levemente afastadas, Eva sentada numa pedra em frente a ele, com o corpo todo voltado para Adão e bem próximos um do outro, ambos nus, e o rosto dela voltado para trás, com ar de espanto. Sei não: parece que ali houve um flagrante de fellatio, que seria o Pecado Original, nada de maçã. Honi soit qui mal y pense. Fecha o parêntese.

O gênio resolveu se vingar daquele sapateiro que ousou ir além das sandálias, e o retratou no inferno, com orelhas de burro, enlaçado por uma cobra que morde sua genitália, e com Minos “fungando no seu cangote”. (“O Juízo Final”, no grande painel, ocupa toda a parede por trás do altar, no canto inferior, à direita de quem olha).

O “condenado” resolveu se queixar ao Papa Paulo III, que, muito bem humorado, resolveu participar da galhofa/vingança de Michelangelo e respondeu: “Meu caro Biagio, se você estivesse no Purgatório eu poderia ajudá-lo, mas eu não tenho jurisdição no Inferno. Lá, só Deus”. E o desgraçado está até hoje no seu martírio eterno.

Mas eu vou encerrar com um fato mais recente, lá do Século XVI, voemos para o Século XXI. Recentemente, numa entrevista em Harvard, o então Juiz Sérgio Moro afirmou que o crime de Caixa-dois é mais grave que a corrupção para enriquecimento ilícito.

Eu não concordo, mas, enfim o homem é um jurista, deve saber o que está dizendo. Aconteceu que ele abandonou o trono de Robespierre de Curitiba e assumiu o Ministério da Justiça (trono já foi ocupado pelo Marombado de Nilópolis, com coroa, cetro e manto).

Confrontado com a confissão do ministro Chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que admitiu o pecado de Caixa-dois, se disse arrependido e pediu desculpas à Nação, o incorruptível (sem gozação) respondeu candidamente: “É verdade, ele praticou o crime hediondo de Caixa-dois. Mas afirmou que está arrependido e pediu desculpas”. Pronto! Está perdoado.

Tomara que ele consiga incluir este cânone da Igreja Católica no nosso arcabouço jurídico. O Sérgio Cabral, por exemplo, já começou a admitir seus pecados e a pedir perdão, o próximo deve ser o Lula.




COMENTÁRIO

Não sou teólogo como Ellery, nem filósofo, do tipo que se especializa em conhecer, cotejar e comentar o pensamento existencial e ontológico concebido e consagrado por terceiros.

Mas, como livre pensador, intuo que não há nenhuma contradição ou incongruência na ideia-força que se tem chamado Deus – a concepção de um Intuito Lógico exterior e superior à Natureza.

Esse Intuito também seria superior ao ser humano, mas não totalmente exterior a ele, desde que este dispõe de consciência, sendo capaz de se comunicar entre si, pela palavra, e consigo mesmo, por meio do pensamento.

Essa fagulha de Deus que os seres conscientes detêm em si não é suficiente para que possam fazer uma análise plena desse Fenômeno de caráter imperscrutável, determinando seus atributos, seus métodos e seus planos finalísticos.  

Tendemos então a cair no antropomorfismo ao imaginar e tentar configurar essa Entidade Suprema como se humano fosse, e a elaborar sobre Ela os mais pedestres raciocínios.

Para mim, pecado e castigo são conceitos humanos, que não se podem refletir no Absoluto. Pecado é fato atual, nascido do equívoco da pessoa, enquanto castigo tem efeito corretivo, preventivo de futuros erros. 

Mas, em Deus, esse mecanismo não é tão cartesiano. Dele, só o perdão se pode esperar, se a Ele se pedir. Talvez aqueles que a lei dos homens ainda mantenha em expiação, de dentro dos calabouços e masmorras já se tenham confessado a Deus, que os tenha perdoado, como aconteceu ao bom ladrão.

Então, segundo entendo, cabe a cada um aceitar a sua sorte, para bem identificar e aproveitar de forma lícita e digna as oportunidades que ela ofereça, em busca da felicidade, tolerando humildemente os percalços que o destino lhe imponha,  e elevando sempre o pensamento a Deus para Lhe dizer de seus justos anseios e lhe agradecer os seus sucessos, augurando por melhoras.

Já a política, que Ellery aborda na conclusão do seu artigo, deve se prestar a manter e ampliar as oportunidades do povo de empregar e desenvolver os potenciais de cada um dos seus elementos, no limite da sorte e do mérito de cada qual, sempre com fraternidade, igualdade e liberdade.  

Também cabe ao Poder Público segregar da sociedade e afastar da vida pública os escolhos morais que ainda não tenham entendido que o objetivo da vida é ser feliz, e que só se pode ser feliz de fato sendo pacífico, verdadeiro, gentil, e, principalmente, honesto e justo.

Reginaldo Vasconcelos.
             


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