DESTAQUES CEARENSES

DESTAQUES

CEARENSES

Edição

2020

Alexandre Sales

Troféu Empreendedores

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Igor Queiroz Barroso

Troféu Benemerência

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Cabeto Martins Rodrigues

Troféu Prasino Angelos

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PALAVRA DO ANO

EM 2020

“PANDEMIA”

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SENTIMENTO

MAIS DEMANDADO

EM 2020

“RESILIÊNCIA”

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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

NOTA CULTURAL - Relançamento do Livro "O Outro Nordeste"


O OUTRO NORDESTE

O APRESENTADOR
(Rui Martinho Rodrigues)


Rui Martinho Rodrigues 
Antônio Vicente Mendes Maciel, Antônio Conselheiro (1830 – 1897) teria dito algo como “a roda grande ainda vai rodar dentro da pequena”. Hoje se cumpre a profecia do líder do arraial de Canudos: sendo um modesto professor de província, tenho a honra de apresentar “O Outro Nordeste”, um clássico conhecido por todo brasileiro letrado, de um autor com estatura de Titan. Ouso fazê-lo, todavia, por ter a possibilidade, como disse Isaac Newton (1643 – 1727), de me colocar sobre os ombros de gigantes para contemplar o trabalho de Djacir Menezes (1907 – 1996).

A edição que agora está sendo lançada foi enriquecida pelas valiosas contribuições de Antônio Paim, Paulo Elpídio de Menezes, Filomeno Moraes e José Estevão Machado Arcanjo, merecedoras da atenção do leitor, por serem novidades desta edição. Registre-se, ainda, que esta edição contém escritos do próprio Djacir Menezes que não fazem parte do “O outro Nordeste”, relacionados com o debate suscitado pela obra. 


A ÉPOCA E O AUTOR

Quem escreve o faz em um lugar e uma época, com muitas marcas daí resultantes. A pessoa do autor, porém, não se limita a expressar a influência do contexto histórico. Exagerar a importância da influência do meio seria incorrer naquilo que Karl Raymond Popper (1902 – 1994) classificou como mito do contexto. A perspectiva pessoal é proporcional ao vulto do pensador, com as suas contribuições, sem que isso signifique subjetividade sôfrega. Tomo a liberdade de situar “O outro Nordeste” na época e no lugar em que foi pensado, acrescentando algumas considerações sobre a pessoa do autor, também situado no tempo e no espaço, antes de abordar a obra clássica.

Um arquiteto, ao projetar um prédio, não precisa fazer nenhum material a ser usado na construção. A elaboração e execução do projeto se vale dos elementos produzidos por terceiros. As considerações que se seguem resultam de um modo de reunir contribuições como um arquiteto reúne materiais de construção em seu projeto. Não apresento aqui nenhuma informação inédita. Tento apenas ressaltar e associar achegas de autores cujos créditos tenho o cuidado de registrar.

Djacir Menezes nasceu em 1907, ano que para Eric Hobsbawm (1917 – 2012) pertence ao século XIX, pois segundo o historiador britânico a vigésima centúria só teria começado em 1914, com a IGM, mas no Brasil talvez o séc. XIX só tenha acabado em 1930. Abolição e República eram novidades de menos de duas décadas quando Djacir nasceu.

Logo, porém, entraria no século XX. O XIX pertenceu, inquestionavelmente, no mundo das letras, a Charles Darwin (1809 – 1882). Djacir Menezes entraria em contato, precocemente, com o naturalismo materialista tão fortemente marcado no “espírito da época”, como é referido por Antônio Paim, nos comentários desta edição.

Nota encaixada no final da presente publicação, encontramos o registro de um incidente em que o jovem Djacir, desafiando o professor de Filosofia do curso colegial, citou um autor naturalista, que via na generalização do darwinismo uma chave para encontrarmos respostas de largo alcance para as inquietações filosóficas. A resposta do professor aludiu a Immanuel Kant (1724 – 1804), apontando para um caminho alternativo ao itinerário árido do materialismo. Foi o bastante para acicatar a vontade de saber de Djacir Menezes, que passaria a estudar com denodo o autor referido pelo professor.

Mais tarde Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda (1892 – 1979) cruzaria o caminho de Djacir Menezes. Preocupado com a cientificidade do Direito, o autor de “O Outro Nordeste” publicaria, em 1932, “O problema da realidade objetiva”, adotando algumas teses neokantianas, distinguindo-se do mestre e amigo. Filosofia, como Direito, História, Sociologia e Geografia são algumas das disciplinas integradas por Djacir Menezes em suas reflexões, agindo claramente como polígrafo.

A Escola Culturalista Brasileira foi uma poderosa referência teórica e metodológica do autor da obra aqui apresentada. Nenhuma influência, porém, o aprisionou intelectualmente. Contrariando a tese da incomunicabilidade dos paradigmas, de Thomas Kuhn (1922 – 1996), Menezes sempre abriu os alforjes em que se constituem os paradigmas teóricos e metodológicos, refazendo suas lógicas e construindo sínteses distintas do ecletismo frouxo.

Djacir foi contemporâneo da Revolução Bolchevique, da Semana de Arte Moderna de 1922, da crise de 1929, do tenentismo, da Aliança Integralista Brasileira, da chamada Revolução de 1930, da Escola Culturalista Brasileira, da intensa efervescência intelectual vivida após cada uma das guerras mundiais, da queda da URSS e de todas as profundas transformações históricas do século XX, centúria dominada, no mundo letrado, pelo debate em torno das figuras de Karl Heinrich Marx (1818 – 1883) e Sigmund Schlomo Freud (1856 – 1939). Djacir enfrentou a delicada discussão sobre Marx. Não se deixou dominar pelas viseiras do culto à personalidade, nem pela demonização do autor polêmico, como havia enfrentado o estudo e os debates travados em torno das obras Immanuel Kant (1724 – 1804) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831).

É preciso, em alguns momentos, dizer o óbvio: Menezes foi contemporâneo do tempo em que viveu. O que não é cediço e precisa ser dito é que ele não foi apenas isso: colocou-se também, sob certos aspectos, fora dos condicionamentos do seu tempo. Foi assim, nas circunstâncias históricas aludidas, que escreveu “O outro Nordeste”, agora publicado com valiosos acréscimos em forma de comentários produzidos por qualificados estudiosos da temática e da obra citada, além de outros escritos do próprio Menezes agora colacionados ao livro clássico.


O OUTRO NORDESTE

O outro Nordeste”, cujo subtítulo é “Formação social do Nordeste”, foi publicado pela primeira vez em 1937, pela Livraria José Olympio Editora, na Coleção Documentos Brasileiros. Gilberto de Mello Freyre (1900 – 1987) recomendou, em carta dirigida a José Olympio, a obra que se tornaria um clássico, apadrinhando-a, conforme assinala Filomeno Moraes nos comentários colacionados a esta edição. O mestre de Apipucos reconheceu a importância da obra que tem por objeto o Nordeste pastoril e seco, diferente daquele Nordeste úmido e agrário por ele estudado. Entusiasmado com o texto de Menezes, sugeriu o título “O outro Nordeste”.

Acatada a sugestão de Freyre, Formação social do Nordeste, que seria o título dado pelo autor, passou a subtítulo. A obra vinha preencher uma lacuna. O Nordeste da obra de Menezes, adjetivado pelo autor de Casa Grande & Senzala; Senzala como pastoril, fora objeto de estudos de Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 – 1909), em seu opus magnum “Os sertões”, até então praticamente a única grande obra sobre a região, na qual partes foram dedicadas especificamente a terra e ao homem, antes de abordar a luta. Mas o clássico, elaborado em razão da guerra de Canudos, envelhecera marcado pelo racismo do seu tempo, na parte nomeada como “O homem”.

O objeto e a metodologia são matéria e forma de um livro. Tendo o Nordeste pastoril como objeto, como anuncia o título sugerido por Gilberto Freyre, a obra de Menezes tem como objetivo o que o subtítulo da primeira edição esclarece: a formação social da região.

As personagens, com os seus atos, somados aos fatos do ambiente, compõem a trama que o autor procura elaborar. O enredo de O outro Nordeste integra a Mesologia, distinguindo cuidadosamente as diversas zonas do ecúmeno nos sucessivos capítulos sem cair no determinismo geográfico. O fator humano, que está presente na trama aqui apresentada, ganha destaque na relação com o meio, como fica evidente nos capítulos “Etnogênese das caatingas e formação histórica do cangaço”; e “O binômio: o violento e o místico”.

A organização familial e política, no capítulo “A oligarquia, o comércio, o político”; juntamente com a organização administrativa, o movimento abolicionista e a análise do Ceará dos anos da Primeira República, nos capítulos subsequentes, foram enriquecidas por um apenso com escritos sobre “O processo econômico no ecúmeno do semiárido”, “A seca, o cangaceirismo e a literatura” e “O debate sobre o Abolicionismo Cearense”. A análise multifatorial de Menezes lembra, de certo modo, a constelação de fatores da rica metodologia de Karl Emil Maximilian Weber (1864 – 1920).

Mais não digo porque já me alonguei muito e porque Antônio Paim, Paulo Elpídio de Menezes, Filomeno Moraes e José Estevam Machado Arcanjo já apresentaram comentários cuja leitura recomendo.

Meus agradecimentos ao professor Paulo Elpídio pela subida honra de apresentar esta edição do grande clássico de Djacir Menezes.

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