DESTAQUES CEARENSES

DESTAQUES

CEARENSES

Edição

2020

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“PANDEMIA”

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SENTIMENTO

MAIS DEMANDADO

EM 2020

“RESILIÊNCIA”

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terça-feira, 27 de outubro de 2020

CRÔNICA - Fiscal da Natureza (AASF)

 FISCAL DA NATUREZA
Antonio de Albuquerque Sousa Filho*

 

 

A nossa primeira viagem a Argentina, Uruguai e Paraguai, foi em janeiro de 1989, realizada  através da Soletur, empresa  pioneira no Brasil  em viagens nacionais e internacionais, utilizando ônibus especiais e confortáveis  e voos fretados à Varig, com acompanhamento de guias  conhecedores  da  História e Geografia  dos locais  e roteiros programados. A Soletur deu inicio às suas atividades em 24/02/1964, sendo extinta em 25/10/2001.



 

A excursão da qual participamos, de ônibus, era chamada “4 Bandeiras”  e começava na cidade do Rio de Janeiro, passando pela cidade de São Paulo, onde embarcamos, seguindo para o Paraná, onde visitamos o Parque Estadual de Vila Velha, situado no município de Ponta Grossa e depois  Curitiba, onde pernoitamos.

 


Na manhã seguinte, fomos a Santa Catarina, passando pelas cidades de Laguna (terra de Anita Garibaldi), Joinville e Blumenau e pernoitando em Porto Alegre.  No Rio Grande do Sul, excursionamos por Porto Alegre, Gramado, Canela e seguimos para Chuí, atravessando a fronteira do Uruguai e Montevidéu.  Fomos para Punta de las Balleinas e Punta del Este. Chegamos a Buenos Aires e seguimos para Tres Arroyos e Baia Blanca e depois para Bariloche, retornando por Baia Blanca e Buenos Aires.

 

Na ida para Assunção no Paraguai, pernoitamos no ônibus. Ficamos ali por dois dias. Retornamos ao Brasil, pelo Paraná, onde visitamos a Usina Hidrelétrica de Itaipu e as Cataratas, passando por Maringá e Londrina. A viagem terminou em São Paulo, onde  permanecemos por mais alguns dias.

 

Era procedimento normal, no início da viagem, que os passageiros se identificassem para os demais excursionistas. Dizia-se o nome completo, o nome de sua acompanhante, cidade de origem, atividade profissional, expectativa da excursão e como gostaria de ser chamado. A apresentação do casal Moisés e Lúcia, do Rio de Janeiro, chamou-nos a atenção de forma inusitada: “Minha mulher chama-se Lúcia, dona de casa.  Eu sou Moisés, fiscal da natureza”.

 

Algumas pessoas sorriram, mas ele explicou-se: “Trabalhei muito na vida. Duvido que alguém tenha trabalhado mais do que eu. Fui empregado da IBM, responsável pela elaboração de relatórios anuais de grandes empresas como a Mesbla, Sears e  Slopper, no tempo em que se usavam cartões perfurados nos computadores.  No período de fim de ano, ficava recluso por dias, dentro do prédio da IBM, para terminar os relatórios anuais das referidas firmas. Tinha um salário substancial, possuía elevado padrão de vida, tinha uma casa ampla e confortável, possuía carro, muitas roupas e  diferentes modelos de sapatos.

 

Ao participar, na casa de um dos meus filhos, da festa de aniversário de um neto, passei mal e fui levado ao hospital. Foi identificado que  tivera um infarto. Era  urgente uma cirurgia no coração. Coloquei três pontes de safena.   Na época, cirurgia do coração era coisa nova e insegura.  O médico recomendou-me que  pedisse minha aposentadoria. Eu não estava preparado para tomar tal decisão, mas fui obrigado a fazê-la”.

 

E continuou: “Pensei bastante e, aconselhado por minha mulher, resolvi pedir aposentadoria e modificar completamente minha vida. Chamei toda a família para uma reunião e anunciei minha decisão. Doei todos os bens materiais, meus e de minha mulher, incluindo casa, móveis, carro, joias, roupas e sapatos.  Comprei um pequeno apartamento em Niterói. Comuniquei que, dali para frente, não daria mais presentes para ninguém e iria viver sem preocupações materiais”.


 

Sua definição de “Fiscal da Natureza”: É sentar numa praça qualquer, olhar a passagem das nuvens, ouvir os cantos dos pássaros nas árvores, verificar as diferentes cores das folhagens das plantas, ver transeuntes que passam pelo local, respirar o ar, tudo sem pressa, sem ter horário fixo ou compromissos inadiáveis. Em resumo: fazer tudo que tinha deixado de fazer, em função do trabalho e da profissão. Tentar aproveitar o máximo da vida, como viajar, encontrar amigos, tomar um café num local agradável.

 

E assim, em cada local que visitávamos durante a excursão, enquanto outros iam às compras, o referido casal ficava a passear e sem comprar nada. Nos momentos mais sociáveis, em determinados jantares, estavam sempre com as mesmas roupas.  Moisés dizia ter apenas quatro anos de idade e nenhuma preocupação. Recomeçou a contar seu tempo de vida a partir do seu renascimento pós-operatório, como “Fiscal da Natureza”.



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