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domingo, 18 de outubro de 2020

CRÔNICA - Simetria (HE)

 SIMETRIA
Humberto Ellery* 

Eu não sei bem por que, mas nós somos levados a aceitar a simetria com mais facilidade que a assimetria. Não por acaso o maior símbolo da simetria, que nos transmite a noção de equilíbrio, igualdade e justiça, é a balança, cujo ponteiro que certifica a igualdade chama-se “fiel da balança”. Isto é: a nossa busca por simetria exige fidelidade. 

Assim é que nas nossas relações amorosas a sociedade quer os casais  formados entre brancos e brancas, negros e negras, ricos e ricas, bonitos e bonitas, rapazes jovens com moças jovens, e por aí vai. Quem ousar enfrentar o preconceito que surge desse “ordenamento” terá contra si olhares enviesados, maledicências e até agressões.  

Semana passada um jovem de vinte anos que namorava uma quarentona divorciada foi assassinado com fúria por um filho da balzaquiana. Pessoas que conviviam com o casal afirmam que o “garotão” amava sinceramente a “coroa”. Triste. 


Escritores, poetas e cantores têm se dedicado ao tema, inclusive várias lendas povoam o imaginário popular, como “A Bela Adormecida”, cuja versão mais conhecida, dos irmãos Grimm, mostra que a princesa casa com o príncipe, casamento de nobre com nobre.

Já na lenda da Cinderela, em sua versão de Charles Perrault, o príncipe casa com a plebeia dita “gata borralheira”, mas no caso o que se vê é a consagração da exuberante beleza da “gata”.

Ainda no campo das lendas, a que eu mais aprecio é “A Bela e a Fera”, um lindo romance de Gabrielle-Suzanne Barbot, tratado com desdém como uma lenda tola por alguns “intelectuais” exigentes, que não conseguem perceber as mensagens presentes em aparentes banalidades. Eu costumo dizer que “os homens se apaixonam pelo que veem, e as mulheres se apaixonam pelo que ouvem”. Enquanto a Fera (o homem feio) se apaixona pela Bela (a mulher linda), esta se apaixona pelo cavalheiro feio, mas gentil, sensível, inteligente, que a corteja de maneira tão elegante. 

Que linda imagem a Dama de Villeneuve criou! Notadamente quando a Bela diz à Fera que o ama e o homem feio, imediatamente, se transforma, sublinhando com muita emoção o ditado “quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Mas existe uma assimetria apreciada por todos, que eu adoro, e que o Rei Roberto Carlos (80 anos) cantou em “O Côncavo e o Convexo”. Aliás, por falar no Rei, ele está namorando a bela cantora capixaba Tamara Angel (27 anos). Mais de cinquenta anos os separam, mas o amor os uniu. 

“Por ser exato / o Amor não cabe em si. / Por ser encantado / o Amor revela-se. Por ser Amor / invade / e fim!”.

Mas aí é o Djavan quem diz.

 

 

 COMENTÁRIO

Muito interessante o tema dessa ótima crônica de Humberto Ellery. Sim, para o amor, em lato sensu, a idade dos amantes, em relação à dos amados, é irrelevante. Mas essa é a regra. A exceção ocorre quando o amor tem cunho erótico-romântico-conjugal.

A paixão dos casais tem inflexões existenciais, sociais e jurídicas mais profundas que o amor dos amigos, que o amor da família, que os amores cósmicos, abstratos, humanitários, difusos. 

O amor eros compele à relação marital, pressupõe exclusividade carnal, presume produção filial, com os seus desdobramentos patrimoniais e sucessórios – fatores que melhor se conciliam entre os casais mais coetâneos, que compartilhem expectativas de vida comuns, nível intelectual maduro, ideários parelhos, e que tenham horizontes profissionais assemelhados. 

No campo sexual, existe uma tese de que homens mais maduros satisfaçam melhor companheiras mais jovens, pela paciência, pelo romantismo e pela ternura que eles aplicam desde os atos “preliminares”, enquanto homens mais jovens estejam mais afeitos ao furor natural das mais veteranas, mais carentes de efetivos resultados. Não sei.  

Mas sei que casais assimétricos – na beleza física (o corcunda Quasímodo e a sua Esmeralda), na origem étnica, na concepção de mundo, na formação intelectual e, principalmente, na idade de cada qual – esses se submetem a perspectivas de grande angústia e de imenso desconforto futuro na relação amorosa que encetarem. 

O risco de que um dos dois se depare e se encante depois com o seu par ideal é bem maior, enquanto, no enfoque etário, a senilidade do parceiro mais velho e a viuvez precoce do mais jovem também são seríssimos receios a racionalizar e considerar. 

O grande professor e jurista cearense Olavo Oliveira (1893-1966) magoou-se com o amigo poeta, policial e jornalista João Alencar Monteiro (1917-1997), que produzira uma matéria de jornal sobre a sua desdita, por ter aquele se casado com uma mulher mais nova e bela, a qual se apaixonou e fugiu com o motorista do casal. 

Anos depois o próprio Alencar Monteiro, meu amigo pessoal e confidente, já aos 90 anos, matou a amante de 18, e cometeu suicídio em seguida, porque ela queria deixá-lo por um jovem pobre como ela.

Reginaldo Vasconcelos

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