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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

ARTIGO - O Homem Cordial (RMR)

 O HOMEM CORDIAL
Rui Martinho Rodrigues*

 

Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982) cunhou a expressão “homem cordial”, referindo-se aos brasileiros na obra “Raízes do Brasil”. Inspirado no ideal tipo de Maximilian Karl Emil Weber (1864 – 1920). Não é o desejável nem a perfeição platônica do mundo das ideias, mas uma representação que reúne traços de sujeitos diferentes de um grupo ou categoria. Destaca ou exagera de modo caricatural para identificar melhor que a fotografia. 

A cordialidade aludida é condicionada por muitos fatores e a hierarquia social é um deles. Uma roda socialmente heterogênea, incluindo um ex-ministro de Estado, que emita opinião baseado citando um autor de prestígio, não pode ser advertido por um estudioso de menor hierarquia social. Ponderar que o gênio citado é passível de críticas fere a cordialidade. Choca os integrantes da roda, que se dispõem a ensinar o modo cordial de proceder ante o superior.

Peter Burke (1937 – vivo), na obra “A arte da conversação”, diz que a troca de ideias pode servir ao propósito de manter a bola no ar. Acrescentemos: valorizando as declarações do interlocutor, conferindo a elas a importância das coisas que merecem análise e achegas.


Este é o verdadeiro diálogo, considerando que a conversação, para ser agradável, deve ter resposta, mantendo a bola no ar e valorizando o tema introduzido por uma das partes. Deve haver interesse em conhecer as ideias do interlocutor e apresentar as próprias. Não há, no verdadeiro diálogo, a ideia de competição que resulte em vencido e vencedor. Este é o caso do segundo tipo de conversação na classificação de Peter Burke. 

O historiador retrocitado tolera a vontade de brilhar buscada com elegância, que exige conteúdo. Invocar a autoridade em nome das relações sociais não é “excludente de ilicitude”. Amigo de Einstein, que partilhou de sua intimidade, não é autoridade nem pode falar em nome do amigo. Citá-lo significaria dizer “sou das altas rodas”. Rebater a crítica a um autor invocando a estatura do gênio criticado é argumento pífio. Confunde a crítica a um ponto específico da obra do gênio com negação dos seus méritos. 

Aristóteles (385/384 a. C. – 322 a. C.), um dos maiores pensadores de todos os tempos, errou feio ao dizer que os corpos maiores caem mais rápido que os menores. Adoradores do estagirita condenaram Galileu Galilei (1564 – 1642) por contrariá-lo. Originariamente não foi um debate teológico, mas uma divergência acadêmica entre professores da Universidade de Florença. Um deles, crítico de Galileu, invocava Aristóteles entre os seus argumentos, antes de tornar-se Papa e perseguir o colega de quem divergia. 

A autoridade pode ser invocada significando “não sei, sigo fulano”; invocando a comunidade científica a quem cabe validar teorias, sem ser argumento incontestável (ver Thomas Samuel Kuhn “A estrutura das revoluções científicas”); indicando: não sou o único; não estou só; veja explicações em tal obra; e para não usurpar os créditos. Não supre a falta de argumentos e da análise do mérito. Instituições tem as mesmas limitações da citação de autores. 

Pascal Bernardine (1960 – vivo), na obra “Maquiavel Pedagogo”, mostra aspectos muito polêmicos em documentos da ONU, UNESCO e Ministério da Educação da França. Thomas Sowell (1930 – vivo), na obra “Os intelectuais e a sociedade” e Roger Scruton (1944 – 2020), na obra “Os intelectuais da nova esquerda” apontam erros dos pensadores mais prestigiados do mundo. Citá-los serve de indicação de fonte a ser avaliada, não para validar tese. 

Não é assim nas redes sociais. Só nelas?


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