domingo, 14 de outubro de 2018

ENSAIO - A Chave Dezessete (RV)


A CHAVE DEZESSETE
Reginaldo Vasconcelos*



UMA HISTORINHA VERÍDICA NADA-A-VER

O amigo ia se casar em Estado vizinho e nós fomos de camioneta assistir à solenidade. Fomos, testemunhamos, apadrinhamos, lançamos arroz sobre o casal, e no final da tarde partimos de volta pela estrada.

Veículo novo, asfalto bom, boa conversa, até que ao cair da noite, enquanto ameaçava chover, o motor a diesel da camioneta rateou. No mesmo momento o celular chama de casa, e de lá a mãe indaga se a viagem corre bem.

Mentimos, mas apelamos: “Está tudo bem. Mas, por via das dúvidas, acenda uma vela e peça proteção ao santo de sua confiança”. Logo em seguida o carro engasgou de vez e fomos para o acostamento.

Noite escura, chuvinha fina. Mulher e criança acenando na margem da estrada, pedindo socorro aos que passavam, em nome da família – os homens no escuro, arma de fogo ensarilhada, para o caso de atrairmos algum assaltante oportunista.

Até que um raro carro parou, e na cidade mais próxima contratamos um mecânico. Havia ar no sistema, ele “sangrou” o motor e nós saímos do prego, agora conhecendo o problema, mas sem saber a sua causa.

O carro pifava a cada lombada, na entrada de cada cidade, e em cada uma delas tínhamos que acordar um mecânico para fazer a tal sangria. Após vários episódios, aprendemos a fazê-lo, mas não tínhamos a chave de boca adequada aos ditos “bicos de injeção”.

Após uma longa negociação com o vigia de um posto de combustíveis, compramos, a peso de ouro, uma velha chave de boca de 17 milímetros, e viemos nós mesmos fazendo a operação para o motor ressuscitar, a cada quebra-molas, a cada passagem de nível, a  cada catabil. Ao todo, paramos 17 vezes – a última delas já na madrugada, na chegada ao nosso destino.   

No outro dia soubemos a causa daquele defeito mecânico intermitente: o hábito de admitir combustível no tanque além do volume recomendado forçou e fraturou a peça que suga o diesel, conhecida como “pescador”. Por isso, a cada vez que uma lombada agitava o líquido, expunha a fratura e o motor “pegava ar”.

A HISTÓRIA VERÍDICA TUDO-A-VER

Pois bem. Assim como no caso narrado com a chave 17, uma velha ferramenta adquirida no escuro, para nos dar uma chance de conduzir a família a um porto seguro – a saída para um País que está em pane é recorrer à fé cristã, à autotutela, apostando na esperança como a única saída.  

Não é questão de opinião pessoal: é insensato quem tenha certeza de que o Governo Bolsonaro será bom, porque, logicamente, sobre isso realmente pairam dúvidas. Ponto.

Porém, é absolutamente lúcido quem tenha certeza de que a continuação da era petista será ruim, pois a experiência mostra que, quanto a isso, sensatamente, não pode restar dúvida nenhuma.

De Lula a Temer, com a Dilma de permeio, o Brasil afundou em corrupção. As grandes empresas estatais quase quebraram, a violência cresceu e a economia naufragou, diante da crise fiscal e do descrédito dos mercados – e até o candidato da esquerda já fez de público essa autocrítica.    

Não. Não estou expressando posição política nem convicção ideológica – nem medo, nem ódio – estou falando de evidência lógica, pela mais objetiva experiência jornalística, falando de uma constatação fática já registrada pela História.

O problema é que a lógica cartesiana não é componente da paixão política, nem da cegueira ideológica. Aliás, a paixão e a razão são naturalmente antagônicas. Os que insistem em confrontar os fatos óbvios e pragmáticos o fazem por pulsões deletérias aos interesses nacionais.

É claro que entre a certeza do fracasso e a dúvida de sucesso, esta última deve prevalecer em nome da esperança e do otimismo  como possibilidade, como aposta, como alternativa – aquilo que em Direito se denomina “risco permitido” e em economia se chama “risco calculado”.

Defender uma bandeira rota porque à sua sombra se obteve algum proveito pessoal, e execrar uma legenda nova com base em ranços políticos do passado – ou para defender eldorados quiméricos intelectualmente concebidos, embora inviáveis na prática – é desprezar a cidadania de forma nada patriótica, destituído de genuíno espírito público.



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