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terça-feira, 16 de outubro de 2018

ARTIGO - A Incomunicabilidade dos Paradigmas (RMR)



A INCOMUNICABILIDADE
DOS PARADIGMAS
Rui Martinho Rodrigues* 


Inovações científicas profundas não são compreendidas pela comunidade científica. Incomunicabilidade dos paradigmas é como Thomas Kuhn (1922 – 1996) designou este fenômeno. Não só Galileu (1564 – 1642) enfrentou resistência ao divergir do pensamento dominante entre eruditos. Giordano Bruno (1548 – 1600) foi sacrificado. 

A modernidade deixou de queimar na fogueira, mas continuou “queimando” em sentido figurado. Freud (1856 – 1939) foi expulso do Conselho de Medicina; Pasteur (1822 – 1895) só não foi internado em algum manicômio por ter amizades que o trataram com tolerância.
  

Max Planck (1858 – 1947) disse que a Física só cresce quando morre uma geração de físicos. Isso apesar das leis da Física não dizerem como o universo deveria ser, mas como ele é, sem aludir a nenhum sentido valorativo ao que é descrito ou explicado, permanecendo fora das discussões desse jaez.

As ciências da cultura não guardam tão escrupulosamente a separação entre o ser e o dever ser. Nelas temos o sentido da ação do sujeito, pois estudam fenômenos movidos por sujeitos. Começa um conflito: existe ação voluntária? Ou somos o reflexo de infraestruturas e superestruturas sociais, culturais, políticas, econômicas, combinadas com fatores genéticos? Não havendo ação voluntária somos todos inimputáveis. Tal determinismo convida à inação. Quem esgrime o argumento determinista, porém, enaltece a prática do ativismo, contrária aos determinismos. A coerência pode ser dolorosa.

A irracionalidade erudita, descrita por Kuhn como a incomunicabilidade dos paradigmas, com a concordância de Gastou Bachelard (1884 – 1962), que aludia aos obstáculos epistemológicos, guarda relação com a crença arraigada nas próprias referências teóricas, havidas como científicas. Karl Popper (1902 – 1994), porém, ressaltava que a ciência cresce corrigindo seus desacertos, deixando de registrar que isso só acontece após a troca de gerações. Tivemos, nas ciências da natureza, quatro modelos de átomos em apenas duzentos anos, atestando a abundância de erros e suas correções.

O sentido subjetivo da ação voluntaria, ressaltado por Weber (1864 – 1920), enseja aparência de virtude, conforme conselho de Maquiavel (1469 – 1527). A percepção distorcida pelos obstáculos epistemológicos, pela incomunicabilidade dos paradigmas e pelo prazer de sentir-se virtuoso (dizendo: espelho meu, espelho meu, quem é mais virtuoso do que eu?), leva as ciências da cultura ao ópio dos intelectuais, de que falava Raymond Aron (1905 – 1983).

A mistura de juízo de valor e juízo de realidade leva ao falso laicismo das religiões políticas. O desprezo pela reserva do possível, sempre presente no voluntarismo político, autêntico concurso de virtude aparente, é sinal de recaída confessional ou de demagogia.

A elasticidade semântica de quem confunde social democracia com comunismo escandaliza certos “virtuosos”. Mas confundir fascismo com liberalismo passa despercebido – embora liberais queiram limitar o poder do Estado, prezem as liberdades individuais, repudiem a tese do conflito como motor da história se oponham às éticas teleológicas e não formem partidos de convicção, mas de interesse.

A agressão que transforma categorias teóricas em insultos guarda relação com os obstáculos epistemológicos, com a incomunicabilidade dos paradigmas, com a inocência instrumentalizada, com as táticas inescrupulosas de campanha e com a hipocrisia de quem deseja parecer virtuoso ou ser admitido na comunidade intelectual, aderindo à irracionalidade dos prisioneiros de paradigmas, até para ser aprovado em concursos.


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