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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

ARTIGO - Tempos Estranhos (RMR)


TEMPOS ESTRANHOS
Rui Martinho Rodrigues*



Vivemos tempos estranhos: suicídio, depressão, dependência química e criminalidade em alta. Temos os Centros de Atenção Psicossocial; assistência do SUS, que com todos os defeitos foi um avanço; férias, que eram privilégio de poucos, agora universais; seguro desemprego, bolsas; pensão da Lei Orgânica de Assistência Social.

Temos órgãos de segurança dotados de helicópteros, máquinas que permitem interceptar grande número de telefones simultaneamente; serviços de escuta das transmissões de rádio dos criminosos; armas modernas; laboratórios de polícia técnica; novas leis encarceradoras; registros indeléveis de transações bancárias; Direito premial estimulando colaboração de réus; controle de armas; recrutamento, seleção e treinamento de policiais melhores que no passado. Invocamos desigualdade, ausência do Estado, má qualidade dos serviços públicos, que são alegações verdadeiras. Mas, passamos ao largo da comparação com o passado. Incomodaria o discurso virtuoso. Fatores objetivos são considerados.

A subjetividade, porém, é difícil de ser alcançada por políticas públicas. Restringimos objetivamente o acesso às armas, oferecemos alguma assistência social e os meios aludidos de combate ao crime. Tudo em vão. Civilizações morrem ou se deixam dominar quando desacreditam dos seus mitos e valores, perdendo suas referências. Quando os bárbaros invadiram Roma o Império já estava derrotado. Ele mesmo se destruiu. Judeus, porém, não perderam a identidade, nem passando dois milênios sem território nacional, porque preservaram os seus valores, mitos, referências.

O Ocidente é uma mistura da tradição grega, hebraica e Romana. A grega permitiu o crescimento da Filosofia e da ciência. Os romanos nos transmitiram a tradição jurídica e o pragmatismo. Os hebreus nos deram valores, humanizaram o nosso mundo. O habeas corpus, governo autorizado pelos governados, organizações políticas cujos comandos partem dos cidadãos e dirijam-se ao Estado, impondo obrigações ao destinatário, são exemplos do legado da mistura destas tradições. O povo o desfrutou de bens e serviços. A mortalidade infantil e o analfabetismo caíram. Aumentou a escolaridade. Protegeram-se as minorias.

O grego contribui criando e desfazendo conhecimentos e valores, impulsionando pela crítica a inovação. A maldição de Sísifo que desfaz é desestabilizadora. A velocidade atual da difusão da crítica não deixa tempo para a consolidação de formas e conteúdos formadores do sínolo, essência do ser, segundo a metafísica de Aristóteles (384a.c. – 322a.c). Rompe o equilíbrio entre diacronia e sincronia, destrói a estabilidade identitária.

Metamorfose contínua, sem identidade, não reconhece a si mesma. É crise psicológica, social e política. É anomia. É caos. Leis encarceradoras, treinamento e equipamento de policiais, desarmamento civil, registros e controles são inúteis diante do niilismo, do relativismo laxista e hedonismo de uma civilização sem referências, sem mitos e sem identidade.


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