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quinta-feira, 21 de junho de 2018

CRÔNICA - Machismo ou Estupidez (HE)

MACHISMO
OU ESTUPIDEZ?
Humberto Ellery*




A cena de alguns brasileiros idiotas e embriagados, aproveitando a simpatia e até uma certa ingenuidade de jovens russas, e as “ensinando” a dizer palavras de baixíssimo calão em português me deixou indignado, como de resto a todo o Brasil. 

Lembrei-me de uma cena semelhante, mas completamente involuntária, que presenciei em Londres, e até de que participei. Estávamos eu e um grande amigo, médico do navio em que viajávamos, o Dr. Lamartine de Andrade Lima, homem culto, inteligentíssimo, membro do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, sua terra natal. Um dos “papos” mais agradáveis que conheci, por seu brilho intelectual e humor, sempre pronto a fazer um comentário jocoso e oportuno sobre qualquer fato do dia a dia.

Estávamos em visita ao Museu Madame Tussaud, admirando os belíssimos trabalhos em cera, quando a efervescente e galhofeira verve do Lalá (como nós o chamávamos) resolveu fazer uma brincadeira com os visitantes do Museu. O Lalá é um homem corpulento, alto, um pouco obeso e muito parecido com o cineasta Alfred Hitchcock.

Então, na curva de um dos corredores do museu ele parou, e quase encostado na parede assumiu uma pose dramática e se pôs estático, quase sem respirar, como uma das figuras expostas. A minha parte na brincadeira foi ficar olhando para ele e examinando de perto sua figura. Fazíamos ambos um enorme esforço para não sorrir. Como era de se esperar, começou a juntar gente, procurando na parede uma plaquinha que o identificasse, e admirando a perfeição da estátua, que elogiavam (“parece até que está vivo”), e perguntavam entre si quem seria aquele personagem.

De repente alguém falou, em inglês, “Eu suponho que é  Mister Hitchcock”. Foi o quanto bastou para que explodíssemos numa gargalhada que assustou os admiradores da estátua que parecia viva. As pessoas, passado o susto, reagiram com simpatia, sorrindo e fazendo comentários amáveis ao trote que passáramos neles.

A seguir vimos uma estátua de Marilyn Monroe que nos decepcionou. Como fãs da grande atriz, esperávamos uma estátua que mostrasse toda sua exuberância e sensualidade, como no filme “O Pecado Mora ao Lado” (The Seven Year Itch). No entanto, representaram-na como no filme “Os Desajustados” (The Misfits), seu último filme, quando a estrela, já próximo à sua morte, dependente de calmantes, era apenas uma sombra esmaecida daquela deusa cheia de sex appeal que esperávamos encontrar.

Em volta da estátua estavam algumas famílias, com diversas crianças,  que percebi serem franceses, mas o Lalá, distraído, não percebeu. Então, com aquele descuido com palavras deseducadas quando estamos no exterior, e como estávamos na Inglaterra, o Lalá me olhou e comentou: “Que merda”, as crianças francesas imediatamente se voltaram para ele com ar de desaprovação e espanto, pois as palavras são quase iguais, em francês é “merde’. Eu apenas disse: “Lalá, são franceses”. O Lalá, então, morto de vergonha, e fluente em francês, se desmanchou em desculpas.

Foi um custo, depois, tirá-lo do estado de tristeza que o fazia repetir: “Que vergonha, Ellery, como é que eu dou uma dessas”.

Quanta diferença de um homem digno para um bando de imbecis!




COMENTÁRIO

O cronista lança uma indagação no título, que ele mesmo não resolve ao longo do seu primoroso texto, repleto de graça e saudosismo. Então, a questão do título fica em aberto, cabendo ao leitor – ou a este comentarista  responder.

Estupidez, sim. Machismo, não. O conceito de “machismo” importa no vezo de uma supremacia autoritária sobre a fêmea, de uma desvalia acintosa sobre as prerrogativas sociais femininas. A celebração infantil de um grupo de idiotas sobre hipotéticos predicados genitais da moça não correspondem a esse “ismo”.

Por exemplo, troquemos as bolas (com perdão do trocadilho), e imaginemos a situação oposta em que brasileiras ébrias fizessem a mesma coisa com um russo, induzindo-o a cantar obscenidades semelhantes – quem sabe sobre as presuntivas vantagens de seus próprios dotes fálicos. Elas poderiam ser tachadas de devassas, nunca de “feministas”.

Também não tem cabimento a conotação penal que a imprensa brasileira deu ao caso, porque, para que se verifique um crime de ação privada, é necessário que haja uma vítima – que reclame pela lesão sofrida, ou que, em sendo incapaz, um representante legal o faça por ela.

Não consta que a moça em questão seja menor, ou deficiente mental, para se caracterizar como vulnerável moral, ao ponto de cantar espontaneamente em língua estrangeira sem saber o significado. Ela provavelmente imaginava que dizia sandices, em idioma estranho, e embarcou na brincadeira.

Entretanto, ao que parece, há uma Convenção Internacional que coíbe deboches cometidos contra pessoas estrangeiras, e aquele vídeo – a critério das autoridades russas – pode ser tido como meio de prova de que aquela nação foi afrontada – menos pela brincadeira do grupo, que a ninguém lesou, mais pela sua divulgação na rede social, com potencial para atingir a suscetibilidade nacional.    

Outro absurdo que se ouviu na grande imprensa brasileira a respeito do caso, da boca de conceituados repórteres, foi a decretação de que “ninguém ache graça!”, pois que aquele vídeo não tem graça nenhuma!. Ora bolas! A que ponto chega o fascismo do “politicamente correto”. Cada um que decida do que achar graça ou deixar de achar.

Enfim, note o insigne Humberto Ellery, atente o seu leitorado, que a chamada “ideologia de gênero” é o reino da incoerência e do paradoxo. Uma repórter russa recebeu um beijo de um turista, durante a sua elocução, na cobertura desta Copa de Futebol – e o mundo modernoso considerou que houvera assédio grave. 

Mas, quando um jornalista brasileiro, cobrindo evento desportivo no Brasil, foi cercado por mulheres estrangeiras, que também lhe pespegaram beijos, conforme circula na Internet e abaixo repercutimos – neste caso se acha não houve ofensa alguma. Espere! E a ideia que prepondera não é de que os sexos são iguais?

Reginaldo Vasconcelos
  







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