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quinta-feira, 14 de junho de 2018

CRÔNICA - A Cidade e o Campo (RV)


A CIDADE E O CAMPO
Reginaldo Vasconcelos*



O bucolismo que embala a minha alma não faz de mim um mentiroso; a cidade tem seus encantos, suas benesses. Por que negar? Muito tempo longe dela, e as formas de mato começam a assumir saudosamente as silhuetas das moças bonitas que desfilam pela Praça do Ferreira. As linhas arenosas dos caminhos ao sol fazem vertigens, copiando de nossa lembrança os corpos mornos na praia. Todo sertanista sabe disso.


A cidade embriaga e vicia com toda a bulha que oferece. Prende o homem aos seus confortos comodistas e fá-lo voltar, como o canário que, uma vez solto, após muito tempo preso, volta à gaiola, onde lhe pagam o canto e amarelo com alpiste e convivência. A saudade das coisas nos embosca no ermo, enquanto na cidade nos escondemos dela, porque pouco temos tempo de senti-la.

Mas a mim me atinge vez por outra a sede das aves, das arribações que voltam sempre ao sertão, alçam voo sobre o oceano e vêm beber suas doces águas barrentas. Em ciclo, acomete-me um estro matuto de derramar a vista nos campos e nas abas de serra, nos céus bojudos e no espelho das lagoas.


Na cidade, existem manhãs ventiladas, de sol morno e de sombras leves, que parecem antigas. Uma face de um edifício ainda dorme, outra metade entreabre pestanas, já banhada de luz. E os transeuntes passam incógnitos uns pelos outros, como figurantes, com ânimo novo e olhar adiante, como bonecos de uma maquete que tomassem alento.

Vão sem nome e sem humor próprio o carteiro e a moça bela, a mulher com a criança e homem com a pasta que se repetem no tempo. Todo automóvel vai lento, e o tráfego é ainda rarefeito. Passam o carrinho do lixeiro e a bicicleta da lavanderia, com uma grande caixa e um ciclista feliz. Os contínuos e os bem-sucedidos se cruzam em cada calçada, estes que se copiam em décadas de gravata e jeito grisalho.

Os mastros nus que fustigam o azul do alto, dominam a visão do mar azul fugindo a verde. O mar não esta longe, está ali, do alto se vê o mar lambendo os pés da cidade com lascívia. A crônica de Caio Cid percorre sua cidade em manhãs assim, embora ele não acorde mais, já que cochila eternamente sob o chão da Pacatuba, sua província, como quis, defronte à Serra da Aratanha, como desejava.

Tribuna do Ceará - Outubro de 1981



Um comentário:

  1. Bebo-os, em goles parcimoniosos para conservar seu sabor, os escólios do Dr. Reginaldo Vasconcelos a respeito da cidade, que também aprecio por demais, a despeito de proceder do mato.
    Admiro e aplaudo seu veio literário insuperável e inconfundível, qual Maksim Gorki beiradeiro, aportando, porém, os umbrais literários de Guilherme Shakespeare, quando alça seu texto às delícias da prosa versificada em pés sem rima - o verdadeiro poeta, que não logro ser. Não o sou porque, diversamente do cronista Reginaldo Vasconcelos, que tem, como poucos, estro de berço, apenas preencho grades métricas pré-fabricadas e não passíveis de desobediência a fim de conceder estesia mecânica, estrofes bonitinhas, ao poema consoado, submisso a normas rígidas. Louvo a Deus e às pessoas maiores, conforme sói ser ele, pela ensancha de ler, ainda hoje, quando quase tudo - quase, apenas - é embaciado pelas maravilhas da Informática, expressões tão simples e elevadas que fazem o leitor se aproximar da parusia nos moldes sãopaulinos.
    Abraço enorme, Reginaldo Vasconcelos. "Carpe diem", leitores deste jornal eletrônico.

    Vianney Mesquita

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