quinta-feira, 11 de maio de 2017

ARTIGO - Arnaldo Santos (AS)


MACUNAÍMA REDIVIVO,
OS POLÍTICOS E AS SAÚVAS
Arnaldo Santos *


Um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. A poética descrição do tropicalísta Jorge Ben Jor, sintetiza as belezas naturais e o clima tropical dessa extensão geográfica, “do lado de cá do equador”.

Sua conformação geológica assegura estabilidade às suas placas tectônicas, livrando-o de terremotos, tsunamis, tornados e outras catástrofes naturais. 

Por essas bandas dos trópicos, o sol é mais dourado, brilhando todos os dias, o ano inteiro, tornando o seu céu ainda mais azul.  
 
Nem tudo, entretanto, é só beleza e encantamento. Temos uma catástrofe de outra natureza, esta provocada pelo homem!

Aqui nos referimos à ação delituosa de grande parte dos seus homens públicos, que fazem da política um meio para ganhar dinheiro e enriquecer, mediante conchavos com o setor privado, utilizando-se dos mais inventivos meios e práticas de corrupção, na grande feira de negócios escusos, chamado Congresso Nacional.  

Para atingir seus objetivos, alguns desses peraltas trapaceiam e mantêm, traem e descumprem acordos firmados, inclusive, entre os comparsas.

Nesse balcão de negócios vende-se e compra-se de tudo: medidas provisórias, para beneficiar o setor automotivo, bancos e as grandes empresas da construção civil, até a aprovação de leis isentando de impostos os donos da República.

Quando o escritor Mário de Andrade, um dos precursores do Movimento Modernista no Brasil (1922), lançou o livro Macunaíma, (1928), um dos mais importantes romances na sua época, o fez em uma bem-sucedida elaboração e valorização da cultura nacional. 
O que nunca imaginou, passado quase um século da sua publicação, foi que a personagem Macunaíma viesse no Século XXI consubstanciar de maneira tão própria, de estilo, igualmente original, sobre o que são, como agem, pensam e fazem os políticos brasileiros, em uma versão atualizada dos vários macunaímas que povoam o universo macrocósmico da política e da economia.

“Macunaíma, herói de nossa gente, nasceu no fundo da floresta virgem”. Nossos políticos, banqueiros, diretores de estatais e de grandes empreiteiras, vieram ao mundo no recôndito das matas da região Amazônica, na caatinga do Nordeste, no serrado do Brasil central, no baixo, médio e alto do Jequitinhonha mineiro, nos pampas gaúchos e Planaltos Atlântico e Meridional da região Sudeste, dentre outros.
A “índia Tapanhumas” pariu Macunaíma, em meio ao “murmurejo” do “Uraricoera”; o Brasil, essa grande aldeia, descoberta por Cabral, pariu um bando de políticos de espírito e índole “macunaímicos”, que mais parecem formigas do tipo saúvas vermelhas, aquelas cujas cabeças eram decepadas por Macunaíma, o que era seu entretenimento, preferido na meninice. 

As formigas têm grande habilidade para trabalhar em equipe e realizar operações, pois, agindo sozinhas, tal seria impossível. Nessa tarefa, os políticos também são imbatíveis (em má comparação relativamente às formigas).

Quando cuidam de defender os próprios interesses, formam pequenos ou grandes grupos, a depender da ação que pretendem executar. Nunca em favor do País, claro! Tudo isto seja para votar, e aprovar, alterações na legislação que a eles beneficiem diretamente, como projetos de leis, medidas provisórias, instalação de CPMIs, que muita vez funcionam apenas como instrumento de chantagem, ou quando o que está em jogo é negociar com o setor privado o tamanho do pixuleco

Segundo ensinam os entomólogos, as formigas são escravas dos seus instintos e estímulos externos. 

Assim como as formigas (cotejando-as mal), é factível afirmar, e isso já está comprovado pelo Ministério Público, Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro, que muitos políticos são escravos do seu instinto corrupto e da falta de caráter.

Os bilhões de dólares são o estímulo externo de que precisam para operar suas práticas nada republicanas.  

Quase quinhentos políticos, e uma centena de empresários, em conluio com alguns diretores e servidores de empresas estatais, agindo como se fossem “saúvas”  as aspas em louvor a elas - quase devoraram a Petrobrás, o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e até a Receita Federal, como ficou demostrado na operação “Zelotes”.

As formigas, trabalhando em rede, rapidamente atacam, devoram e transportam com eficiência vastas áreas de folhagem, para alimentar a numerosa família no formigueiro. Os políticos e alguns empresários alimentaram suas ambições e ganância sem limites, conduzindo bilhões de dólares por todos os meios, inclusive motoboys – “delivery da propina”.

“As formigas são animais pertencentes à família formicidae, o grupo mais numeroso dos insetos”. Assim também pode ser considerada a família dos corruptus, do latim, quebrado em pedaços”. 

“O verbo corromper significa tornar pútrido”. No Brasil, a família dos que se tornaram “pútridos” parece ser tão numerosa quanto à das formigas e, ao contrário do restante da população  trabalhadora, e honesta  que está envelhecendo, os corruptos estão se multiplicando rapidamente e são cada vez mais jovens. 

Os bancos suíços e de outros “paraísos fiscais” são os grandes formigueiros desses corruptos que compõem a trama. Foi para esses que, impunemente, eles drenaram os bilhões de dólares da corrupção que praticaram desse lado de cá do equador. 

Monitorados pela Justiça, “esses paraísos fiscais” já não mais aceitam depósitos ou investimentos, oriundos dos integrantes da família dos pútridos. 
Macunaíma, à noite, quando ia dormir, subia ao jirau e, quando urinava, molhava a cabeça de sua mãe, que dormia em baixo da sua rede. 

Parte da classe politica e dos empresários, que formaram essa rede internacional de corrupção, também evacuaram na cabeça do povo brasileiro, nos últimos 30 anos. Felizmente a operação “lava jato” está fazendo a faxina nos dejetos que esses representam. 
Macunaíma, ainda na meninice, gostava de tibungar no rio para tomar banho. Hoje, uma parcela da elite política, e do empresariado brasileiro, envolvidos na trama, tibungam em banheiras de espuma e fragrâncias europeias, tudo regado a champanha e vinhos caros, em companhia de belas jovens em luxuosos hotéis da Europa, dos Estados Unidos e dos Emirados Árabes. 

Enquanto isso, o povo é que fica nu, e seus jovens atletas, muita vez, não têm sequer um par de tênis para treinar, em meio aos canaviais e estradas de chão batido, transformadas em pistas de atletismo. 
Mesmo identificando essas semelhanças, desde logo, advertimos o distinto público leitor e pedimos permissão ao genial Mário de Andrade para fazer essa que talvez possa ser considerada uma infame comparação, sem, no entanto, pretender, sob qualquer hipótese, empanar a figura mítica e de múltiplas representações da personagem Macunaíma, tampouco das nossas formigas.
Com essa maneira de agir e de ser do “mandarinato” brasileiro, seria até previsível imaginar que as personagens que compõem a representação da política e da economia brasileira, nessa trama, tivessem um perfil de "heróis", cuja característica de maior relevo fosse a ausência total de caráter (em Macunaíma o caráter era apenas vacilante).

Racionalmente, recorremos a Mário de Andrade, dele tomando por empréstimo a figura de Macunaíma, porque, como preguiçoso, mentiroso, trapaceiro, sem palavra e traidor, sintetiza, como nenhum outro, as centenas de políticos embusteiros e empresários oportunistas que operam pelo País afora.


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