A IDEIA DA PALAVRA BISSEXTO
Vianney
Mesquita*
Primum vivere deinde philosophare.
Amigos
e pessoas modestas a mim chegadas, nomeadamente não muito afeitos ao trato
literário, me perguntam, com recorrência, acerca dessa dicção, empregada a
miúdo com relação aos poetas e escritores pouco produtivos ou de produção
singular.
Em
2012, derradeiro ano bissexto decorrido, as indagações mais afluíram, de modo
que passo a narrar o assunto, louvado no Lello Universal, um dos meus volumes
de travesseiro, tantas vezes aqui mencionado, porquanto obra de referência da
melhor crase.


Curioso
é notar o fato de que todos os anos cuja expressão numérica é divisível por
quatro são bissextos, com 366 dias,
como nos casos de 1.600, 1.200, 800 e 2.000.
Os
anos seculares, salvante esses do exemplo e outros cujos dois algarismos
iniciais não se expressam como exatamente divisíveis por quatro, não resultam bissextos, razão por que o ano secular
de 1.900 não o foi.
Em
alusão a essa periodicidade do tricentésimo sexagésimo sexto dia, inventou-se,
no Brasil, uma locução neológica, desusada noutras nações lusófonas – poeta bissexto/escritor bissexto.
Esse
neologismo, então, tenciona conotar o estado daquele, particularmente do poeta,
dedicado excepcionalmente à literatura, fazendo poucos versos, o que sugere se
evocar, em razão dessa escassez de produção, o dia bissexto de fevereiro (29) e os anos bissextos.

Euclides
da Cunha (*Cantagalo-RJ, 20.01.1866 ; + Rio de Janeiro, 15.08.1909) achou de
escrever, em meio às produções do seu gênero, o Soneto sequente, que extraí de Os mais Belos Sonetos Brasileiros, livro
de Edgard Resende (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1945):
Se acaso uma alma se fotografasse,
De sorte que nos mesmos negativos
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face ...
E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos ... se a emoção que
nasce
Em nós também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos ...
Amigo! Tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando - deste grupo bem no meio
Que o mais belo, o mais forte e o mais
ardente
Destes sujeitos é precisamente
O mais triste, o mais pálido e o mais
feio.
Muitos
dos literatos nacionais fizeram versos assim, bissextamente.

A
produtiva industriosidade neológica brasileira – cearense, nomeadamente – já se
serve de estender mais ainda o alcance de bissexto,
de maneira que se diz, progressivamente, economista bissexto, administrador bissexto,
articulista bissexto advogado,
orador, comentarista e até bebedor bissexto;
tudo isto sem remissão a fevereiro como o mês em que, por motivo óbvio, a
mulher fala menos...
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