ANTÔNIO DE
ARAÚJO – DOS ESCANINHOS DA ALMA
Vianney Mesquita*

Decerto não assiste razão a quem cogita na ideia de uma humanidade
dispensada de toda a doença, na fruição de saúde ideal.
Este ponto é objeto de acuradas reflexões por parte de preclaras
autoridades da Ciência Médica e seus esgalhos disciplinares e afins, merecendo
ressalto o psiquiatra e pioneiro da Neurologia, facultativo estadunidense
Walter Riese[*Berlin, 30.06.1890; Richmond(Virgínia), 1976].
Em estudo de 1950- Princípios de
Neurologia – à Luz da História e seu Uso Atual, consoante assinala aquele
expoente, uma perfeita higidez física e mental faria menos rica a raça de hoje,
porquanto um imenso campo de atividade lhe seria poupado e recusado.
Para Riese, uma pessoa idealmente sã jamais nos ensinaria tudo de sua
capacidade, até seu ponto maior de resistência, quando as moléstias acham de
acometê-la.

Esta foi uma fecunda escritora dos EEUU, a quem um ataque de escarlatina
tolheu a visão e subtraiu a audição, aos 19 meses e, no entanto, sob os
cuidados de Anne Sulivan (1866-1936), aprendeu muitas línguas e História
Latina, havendo escrito vários livros da mais distinta verve criadora, pintando
paisagens e descrevendo sons. Com sua força de fé, revelada na autobiografia A História da minha Vida, disse haver
criado seu mundo com visão, ter feito para si os dias e as noites, divisando nas
nuvens o arco-íris e, para ela, a própria noite se povoou de estrelas (LELLO,
1983-verb. Keller).
Transpondo, com efeito, todo esse balanço negativo, Helen Keller
demonstrou na doença, imposta como um fado, a possível vertente perpétua de
enriquecimento da Natureza. Daí a opinião de Walter Riese, para quem a noção do
homem, do qual moléstia e padecimento estejam ausentes, será sempre imperfeita.

Nem por isso, todavia, deixou de se crer propício à vida, dignitário de
sua condição humana, admiravelmente revelada nos exemplos da peleja, resignação
e vitória, como é expresso no esforço de ajuntar seus alfarrábios e reuni-los
em um volume, denotativo do seu preparo intelectual, na constância da
autodidaxia, sem ocorrer sub tegmini fagi
da escola formal.
Autodidata e na solidão de suas faltas corporais, porém, alcançou mais
este galardão, o qual, distante de ser um triunfo de Pirro II, aflui à opinião
de Walter Riese, cuja ideia de homem, sem neste haver doença nem sofrimento,
será perpetuamente inexata.
Antônio de Araújo, nesta seleção de muito bem trabalhados escritos,
demonstra, à farta, a aptidão humana do sobrepujamento, malgrado os
desprovimentos orgânicos, na conquista de um de seus anelos desde há muito
acalentado, fazendo-o – e isto é o mais relevante – de modo inteligente, tanto
no conteúdo como na forma, legando-nos uma peça literária e artística de
indiscutível valor, produzida no recôndito de sua boa alma, nos escaninhos de
um coração referto de amor.
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