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quinta-feira, 23 de julho de 2020

CRÔNICA - A Inveja (HE)


A INVEJA
Humberto Ellery*


O fato de eu não fazer parte do time dos “Bolsonáticos”, isto é, não sou seu eleitor de primeiro turno (votei nele no 2º turno para evitar o que julguei ser um mal maior), esse simples fato não faz de mim alguém que o odeia ou, o que é pior, sinta inveja dele.

Sou crítico de suas atitudes, as que julgo estúpidas, mas jamais critico o homem (que respeito). Apenas atos, atitudes e pronunciamentos que, a meu juízo, estejam errados. Sou muito rigoroso na apuração dos fatos a criticar, e nunca me aproximo de calúnias, injúrias ou difamações, a par de utilizar sempre um linguajar respeitoso, civilizado e bem educado.

Considero-me um cidadão bem informado e participante da vida política do meu País, daí ter feito diversas críticas ao Presidente Bolsonaro, “O Mito”. Nas réplicas que tenho recebido sempre vem o comentário de que assim o faço porque o odeio, e tenho inveja do seu “sucesso”.

Não pretendo com minhas críticas “fazer a cabeça” de ninguém, muito menos tentar “abrir os olhos” dos “Bolsonáticos”, mesmo porque “não adianta ter olhos abertos se a mente é cega” (Oscar Wilde).

Quanto à inveja, não pretendo aqui produzir um ensaio sobre o assunto (embora pudesse fazê-lo, mas o espaço é pequeno). No entanto gostaria de   elencar algumas considerações para demonstrar o quanto é absurda a suspeita de que sinto inveja. Logo de quem!

A primeira coisa a ser dita sobre a inveja é que esse estado mental não é um sentimento, nem uma patologia, é um desvio de caráter. E quem me conhece sabe do meu caráter, reto e inatacável.

Para que a inveja se aposse do caráter frágil e maleável de uma pessoa, e possa então dominá-la, é mister em primeiro lugar que essa pessoa não tenha amor próprio, não se respeite, reconheça-se inferior e desprovido de virtudes e qualidades que ele enxerga no objeto de sua inveja. Seguramente foi pensando nisso que François de La Rochefoucauld afirmou que “a hipocrisia é o tributo que o vício presta à virtude”. Posso assegurar que não é o meu caso.

Resisti o quanto pude a escrever sobre este assunto, tendo em vista que o invejoso vê no invejado qualidades e virtudes que lhe faltam, portanto terei que falar sobre minhas qualidades e virtudes, com o máximo cuidado para não ser cabotino, e não maltratar minha humildade, que considero a mãe de todas as virtudes.

Por falar em humildade, como posso eu, que sou “manso e humilde de coração”, admirar, respeitar e invejar alguém que com tanta arrogância e soberba diz: “A Constituição sou eu, pôrra”, “quem manda aqui sou eu, pôrra” e “cala a boca, pôrra”. Apenas en passant, que fixação estranha o “Mito” tem pelo sêmen, pois de seu linguajar rasteiro e vazado em palavras de baixo calão vaza pôrra prá todo lado.

Como posso eu, cultor da “última flor do Lácio”, admirar e invejar uma pessoa que quando fala temos que fazer um tremendo esforço para entender frases cheias de anacolutos, desrespeito às mais simples regras gramaticais de concordâncias, regências verbal e nominal, fora o resto?

Sobre inteligência e cultura eu me recuso a tecer comentários, fazer comparações, pois fatalmente pareceria cabotinismo de minha parte. Apenas pergunto aos seus seguidores quantos e quais livros o “Mito” já leu? O que ele já demonstrou saber sobre a literatura russa, a francesa, a literatura universal? Conhece ao menos os grandes brasileiros? O que ele sabe de Música Erudita, de Ópera, de Teatro, de Escultura, de Pintura, de qualquer manifestação artística? 

Com seus parcos conhecimentos de História, falando sobre a Escravidão, afirmou que “os Portugueses nunca puseram os pés na África”. É o caso de perguntar sobre a origem dos PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe (alguém avisa pra ele que, apesar do nome, é um só país) e, por último a Guiné Equatorial que recentemente adotou o Português como língua oficial. 

Foram vários dias pensando em como abordar uma comparação entre minhas qualidades e virtudes vis-a-vis as qualidades e virtudes do “Mito”, sem resvalar para uma inaceitável fatuidade, uma jactância que não guarda nenhuma relação com a modéstia que tem me acompanhado por toda a vida. Recuso-me a esse papel.

Prefiro responder como fiz certa vez a um amigo apaixonado pelo Lula (como são politicamente parecidos o Bolsonaro e o Lula! um é a imagem especular do outro). Aquele amigo me disse, cheio de empáfia: “Ellery, você tem é inveja do Lula, porque você com toda sua inteligência e cultura é apenas um servidor público,  e o Lula, mesmo sendo um analfabeto, é Presidente da República!”.

Respondi que, se fosse para sentir inveja de alguém o escolhido não seria o Lula, mas um cidadão que por três vezes se candidatou a Presidente e não foi eleito, perdeu duas eleições e desistiu da terceira, quando percebeu que seria derrotado novamente. 

Era um político baiano que foi Ministro da Fazenda, Senador, Deputado, e eu critico sua atitude de ter participado do primeiro e mais pernicioso “Golpe de Estado” de nossa História, quando ajudou a derrubar do trono o nosso maior estadista, que nos legou 49 anos de Democracia (1840-1889), golpe que a História batizou de forma grandiloquente de Proclamação da República. 

Pois bem, este homem, alguns anos depois da perpetrada a estupidez, numa demonstração de grandeza e humildade, fez questão de visitar o Imperador em seu exílio em Paris, e, contrito, reverentemente beijou as mãos do Monarca e disse: “Perdão, majestade, eu não sabia que República era isso!”. Desse homem José do Patrocínio disse que “Deus colocou um vulcão dentro de sua cabeça”.

Se um dia eu resolver ceder à inveja, pela grande admiração e respeito que lhe devoto, seria desse gigante de pouco mais de metro e meio, feio e cabeçudo, que eu teria inveja. Seu nome é Rui Barbosa.




COMENTÁRIO

Como escreve bem Humberto Ellery! É de um talento escritário invejável. E que bem nutrida cerebração, instruída por muita literatura, e de erudição intelectual refinadíssima.

Ler seus textos causa as vertiginosas e agradáveis sensações de quem assistia aos espetáculos circenses do passado: o malabarista habilidoso, o dúctil contorcionista, o lábil equilibrista, o ágil trapezista... Ah! O capcioso ilusionista!

Nesta sua crônica o título refulge, e o texto evidencia o que ele signifique exatamente. A peça é um tratado de contradição, de antítese, de ironia, quando parece querer negar o que afinal ela confirma.

Ellery diz, já nos exórdios, que não julga o homem, mas os seus atos, e sai de texto afora fazendo comparações pessoais entre si mesmo e a sua vítima.

Ellery sabe, e os psicanalistas mais ainda, que quando alguém diz de si o que presume ser, no que ele afirma e no que nega, trai o que realmente ele é e o que sente.

Veja-se nesta frase o ato falho, talvez proposital: “...é absurda a suspeita de que sinto inveja” – ele afirma. E, bem em seguida, se desmente: Logo de quem!” – desqualificando impiedosamente o seu antípoda.

De fato Bolsonoro é, como Ellery, um ex-militar, ambos capitães, mas, no caso deste, um imaculado lacticolor e bem engomado oficial Cisne Branco de Marinha, e o outro um reles infante do Exército. 

Como se sabe, a Marinha é a rainha das Forças Armadas, muito mais prestigiosa em todo mundo que os enlameados “pés-de-urubu” da infantaria do Exército a que Bolsonaro pertenceu. Bolsonaro, filho de um agricultor, neto de imigrante; Ellery, de tradicional família, filho de um General  e vice-governador do nosso Estado.   

Ademais, Ellery, engenheiro químico, é doutor formado, como alegou aquela desvairada carioca que destratou e humilhou um agente de saúde do Rio de Janeiro – enquanto Bolsonaro seria apenas um inculto “cidadão”.  

Na sequência, a bordo de sua alegada modéstia – Ellery faz comparação atroz entre a estante de livros que cada qual andou devorando, e com o linguajar que cada um emprega   ele, muito polido, o Presidente, desbocado.

Mas ele sabe que a maneira rude de falar de Bolsonaro é característica do jargão militar – e nós sabemos que designar de “bolsonáticos” os bolsonaristas não é exatamente elegante e delicado,  nem dizer que o outro vaza líquido seminal pra todo lado.  

Os quarteis incorporaram no discurso, inclusive, a palavra “porra”, como figura de ênfase, meramente retórica, sem qualquer literalidade, despida de sua conotação fisiológica e pornofônica, sem relação alguma com a sua acepção original.

Pois se não é  inveja, nem despeito, nem aquilo que os alemães chamam schadenfreude – nem revolta odiosa por ter Bolsonaro batido nas urnas os seus ídolos da velha política, de direita e de esquerda – pois que Ellery releve os consabidos cacoetes pessoais do Mito, que não prejudicam a Nação, e lance as suas lentes analíticas sobre a Equipe de Governo.

Que prenote, note e anote os avanços que, apesar da pandemia, e inclusive em relação a ela, a Equipe de Governo vem fazendo, com o auxílio luxuoso das Forças Federais e do Exército Brasileiro, e que a mídia mal-intencionada não divulga.

Considerando que os bons resultados são o que desejam os patriotas, repito aqui o brocardo que eu lancei outro dia a outro confrade recalcitrante neste Blog: “Não importa a cor do gato; o que interessa é que o gato mate o rato”. E sob este Governo os ratos, de todos os matizes, quando já não estão mortos estão realmente em polvorosa.

Reginaldo Vasconcelos     


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