sexta-feira, 24 de julho de 2020

ARTIGO - O Debate Científico (RMR)

O DEBATE
CIENTÍFICO
Rui Martinho Rodrigues*


A história da ciência é marcada por embates, não raro apaixonados e pouco científicos. Max Karl Ernest Ludwig Planck (1858 – 1947) teria dito que a ciência avança funeral a funeral. Exéquias de teorias e modelos ou de cientistas? Não explicitou, mas deve ser de ambos.

A escola do racionalismo crítico descreve a resistência de velhos paradigmas em face dos novos, como cegueira dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996).

Gaston Bachelard (1884 – 1962) também disse que o conhecimento pode ser obstáculo ao conhecimento inovador. As revoluções científicas nunca foram compreendidas pelos cientistas do seu tempo, por mais que fossem explicadas. Seguidores da Teoria dos Miasmas (odores fétidos que dariam origem às enfermidades) eram sábios, estudiosos, inteligentes e dedicados à ciência e ao bem comum.

Mas não aceitaram a teoria dos micróbios (Louis Pasteur, 1822 – 1895) apoiada por evidências. Max Planck, Gaston Bachelard e Thomas Kuhn analizaram muitos exemplos desse tipo de fenômeno ao longo da história da ciência.

A ciência não é unívoca. Cientistas têm paixões, interesses, vaidades, rivalidades e viseiras das tradições e referências teóricas de autores renomados, que usam tribunas prestigiosas como Universidades famosas, publicam em periódicos respeitados e têm apoio de movimentos culturais ou políticos influentes. Títulos e publicações são usados como argumentos de autoridade. Até existe o comentário segundo o qual quem não tem lattes (plataforma de exibição de currículos) não morde.

O adjetivo “científico” é peça de convencimento. Os incapazes de examinar o mérito do que é dito acatam a autoridade “científica”. Um dos primeiros professores a escrever sob a assinatura “professor doutor”, cumulando títulos, deu lugar ao comentário que explicava uso dos títulos como necessários, porque o mérito não era visível.

O debate entre médicos-doutores-professores-pesquisadores e de instituições como a Organização Mundial de Saúde foi politizado. Apesar da cegueira dos paradigmas e dos descaminhos da comunidade científica, é a ciência que devemos ouvir sobre a Covid-19. Efeitos colaterais, comuns à maioria dos remédios, são objeto de restrições rigorosas no caso dos antivirais usados contra o coronavírus.

O mesmo rigor se aplica aos demais medicamentos? Remédios tão perigosos foram vendidos durante décadas sem nenhum controle? Usados continuamente, por longos anos, no tratamento de quadros reumatoides, do lupos, e no uso profilático contínuo contra a malária, não podem ser usados por poucos dias na atual pandemia?

O índice de efeitos colaterais graves deveria ser divulgado. Alguns tipos de penicilina provocam uma reação a cada dez mil pacientes, se a memória não me engana. Qual é a estatística da  Hidroxicloroquina (HCQ)? Usados em outros tratamentos sem maiores problemas, os efeitos colaterais diferem conforme a patologia ou são inerentes às propriedades da droga? Quais fatores levaram a resultados contraditórios nas pesquisas e no uso clínico dos antivirais debatidos? Quais as diferenças e as explicações dadas pelas partes?

A cientificidade não é uma exigência rigorosa em clínica. Homeopatia e acupuntura são reconhecidas pelo Concelho Federal de Medicina, e não são rigorosamente científicas. 

A situação de uma emergência, como uma pandemia, deve aumentar o rigor da cobrança de cientificidade, ou suavizá-la? 

Uma droga usada por longo tempo sem o temor de efeitos colaterais, vendida sem receita médica, deve ser objeto de restrição no momento da emergência? 

O uso da HCQ será abandonado, por temor de efeitos colaterais, nos tratamentos de artrite reumatoide, malária e Lupus?

Clareza e completude devem ser observados por quem fala em nome da ciência.


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