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domingo, 12 de julho de 2020

ARTIGO - O Presidente, a Máscara e a Covid (AS)


O PRESIDENTE,
A MÁSCARA E A COVID
Arnaldo Santos*



Na semana que passou o vírus transmissor da “gripezinha” fez uma visita inesperada ao Palácio do Planalto: pegou seu ocupante desprevenido, sem estar usando máscara, como de hábito, e o contaminou!

Para a comunidade médico-científica em todo o mundo, até que se descubra uma vacina, o uso de máscaras ainda é, e continuará sendo, o mais eficaz meio para se prevenir e evitar a transmissão da Covid-19, de uma pessoa para outra, e salvar milhões de vidas, pois impede a passagem das gotículas infectadas pelo coronavírus, que saem da boca.

A Organização Mundial da Saúde – OMS divulgou, há pouco, uma carta assinada por cerca de 200 cientistas em todo o mundo, confirmando a contaminação pela Covid-19 através do ar, o que torna o uso de máscara ainda mais necessário, respeitando o princípio da precaução que todos, sem exceção, devemos obedecer.

Como é cediço, a obrigatoriedade do uso de máscaras em locais públicos e privados, abertos e/ou fechados, consta de todos os protocolos sanitários da OMS, dos governos de todas as nações – inclusive pelas autoridades sanitárias do Brasil, menos pelo Governo Federal, que há mais de sessenta dias, sequer nomeou, ainda, o Ministro da Saúde.

Perante tais evidências, cabe perguntar: Por que o Presidente Jair Bolsonaro é contra o uso de máscaras, se está provado que pode salvar milhões de vidas? Ele mesmo poderia ter evitado se infectar, não fora o mau exemplo de não respeitar os protocolos sanitários recomendados. Será superstição, medo ou narcisismo?

Como se sabe, “[…] os narcisistas são arrogantes e prepotentes, mas não por acaso. Acreditam-se únicos, especiais, donos e senhores de uma existência maravilhosa que está muito longe da que os demais poderiam sequer imaginar”. Eles possuem a mesma capacidade de ouvir que têm as pedras – assim como alcança José Elias Fernández, membro do Colégio de Psicólogos de Madrid.


Para tentar entender por que há essa rejeição, e/ou medo que o Presidente demonstra quanto ao uso da máscara, fomos buscar na história a origem e o seu significado, para ver se existe alguma explicação.

“[…] A máscara tem origem no Antigo Egito, cerca de (664-535 a.C”). Enquanto “[…] na China as máscaras eram usadas para afastar os maus espíritos, no Egito Antigo e na Grécia, elas eram colocadas sobre o rosto dos falecidos na crença da passagem para a vida eterna”.

Pela origem e seu significado, aqui pode estar uma das explicações: o Presidente, um ex-capitão do Exército, com passado de atleta (não resistiu à ‘gripezinha’), de estilo tosco, machão e machista, parece ter medo de alma.

Numa perspectiva político-cidadã, o não uso da máscara é a reafirmação da desobediência ao princípio da precaução para com a saúde coletiva; e essa constitui a posição de centenas de milhares de pessoas, nesse início de reabertura de alguns setores da economia, notadamente naquelas atividades de convivência e maior interação social, como bares e restaurantes, que movimentam a vida noturna, nas grandes cidades. Identifica-se nessa atitude, a nefasta influência do comportamento adotado pelo Presidente, ignorando os protocolos sanitários de prevenção à pandemia, em flagrante incentivo à desobediência civil.

As pessoas precisam entender que o vírus está, e vai permanecer entre nós por longo período, o que vai nos impor uma cultura de convivência com a doença, para se evitar uma segunda onda, com números de infectados e mortos superiores aos que se tem hoje, provocando um retrocesso no processo de reabertura econômica, especialmente durante a quarta fase, em que os riscos de contaminação, serão ainda maiores. O momento exige bom-senso para se encontrar o equilíbrio entre a retomada da economia e a proteção da vida.

Analisando, sociologicamente, a movimentação e o comportamento coletivo nessa fase, a regra é a inobservância dos protocolos sanitários, por parte de alguns estratos, com ênfase para aquelas pessoas de maior poder econômico – e nível de “educação” – em adição a um elevado grau de incivilidade para com os agentes públicos, que, no nobre cumprimento do dever de proteger a saúde coletiva, ao tentarem fazer observar o que é exigido pelo poder público, estabelecido nos decretos que normatizam a reabertura da economia, estes são humilhados, quando não agredidos fisicamente. 

Está gravado na memória de todos o flagrante atentado à honra e dignidade da pessoa, além da ausência de qualquer fragmento de um padrão civilizatório, sofrido por um desses agentes, da parte de uma “cidadã”, com aquela famosa frase – “[…] cidadão não, engenheiro civil formado”; “nós é que pagamos você”, seu..” – mostrado pela televisão (até então não se  sabia que engenheiro não era cidadão). A frase pronunciada consubstancia o sentido de uma outra não menos conhecida, desprezível e arrogante que é – “[…] você sabe com quem está falando”?

O recorrente não uso de máscaras, por significativa parcela da população em geral, com relevo para os séquitos pertencentes “ao andar de cima”, e a inconsequente atitude de centenas de milhares de pessoas, que teimam em se aglomerar nas calçadas, praças e praias, contrariando as recomendações sanitárias, como vem ocorrendo em todo o País.

Tudo isso é emblemáticos do comportamento de uma sociedade adoecida, culturalmente analfabeta e politicamente ignorante, revelando, a um só tempo, incivilidade, narcisismo e menosprezo pela própria vida e pela vida do outro. São comportamentos não toleráveis em uma coletividade pretensamente moderna.

Em face dessa insensatez e vergonha, os governos devem adotar um padrão de análises com base nas ciências sociais, para observar e criar meios de ação que possam corrigir esse comportamento errático de expressivas parcelas da população, com foco nas movimentações que se dão no interior dos vários grupos, das distintas camadas sociais, objetivando fomentar o desenvolvimento de uma nova cultura comportamental ante a pandemia, que vai muito além dos atos coercitivos impostos pelos decretos que balizam a nova realidade em elaboração.

Para conformar essa pretendida realidade impõe-se a adoção de padrões de abordagens analíticas, consoante às novas configurações exigidas para os diversos setores de atividades, tanto profissionais, quanto político-sociais, dado que já se percebe uma tendência de influências ainda mais gravosas, tanto na saúde quanto no aspecto econômico-financeiro, de teor individual e coletivo, com danosos rebatimentos no aumento da pobreza e das desigualdades, se não houver um amplo e urgente reposicionamento comportamental no interior das várias redes, que incorpore uma rígida e efetiva observância das normas sanitárias, impondo novos hábitos, inclusive  relacionais, para evitar outra emergência.


“[…] Embora as redes sejam uma antiga forma de organização na experiência humana”, na contemporaneidade Manuel Castells nos apresenta um novo tipo de organização, que chamou de “[…] sociedade em rede”. O que difere a experiência antiga do formato atual são as suas estruturas, fundadas na comunicação interativa e em tempo real (o que não é pouco), trazidas pelas novas tecnologias digitais, que, para o bem e para o mal, promoveram uma revolução, na forma, nos conteúdos e na velocidade multiplicadora da informação, inimagináveis até para esses tempos.

É de aceitação geral o fato de que as novas tecnologias da informação constituem meios imprescindíveis para conectar pessoas e nações, primordialmente para a comunidade medico-científica comunicar os avanços da ciência, por meio dos ensaios e testes clínicos, a fim de desenvolver uma vacina e/ou medicamentos para o tratamento da Covid-19. No momento são as grandes aspirações da humanidade.

No universo pandêmico fluente, apenas por meio das novas tecnologias da informação uma descoberta científica, comunicada pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, ou pela Universidade de Pequim, é passível de chegar em tempo real à comunidade científica de todo o mundo, permitindo agilizar ainda mais os avanços científicos que serão levados ao conhecimento da humanidade.

Nessa perspectiva, tão importante quanto as novas descobertas científicas é a informação on-line, disponibilizada para toda a Terra, mobilizando global e simultaneamente a comunidade de ciência, em favor dos avanços dos saberes ordenados e da sociedade em escala mundial. Nesse contexto, confirma-se a essencialidade do bom uso que se deve fazer das novas tecnologias comunicacionais para o bem da ciência e do ser humano.

Mutatis Mutandis, assim também deveria ser o uso individual das redes sociais pelos cidadãos, mormente nessa fase de reabertura da economia, na produção de informação para a conscientização das pessoas, no sentido de assumirem uma atitude proativa na promoção de ações de prevenção e combate ao coronavírus, e respeito ao cumprimento dos protocolos sanitários, a que todos estamos submetidos na qualidade de cidadãos.

Deveria ocorrer assim, mas, quando examinamos o uso que é feito das novas tecnologias, o que se constata é apavorante, e contraria tudo o que se espera e se necessita na realidade em decurso. Criminosamente, o que vemos é a produção e distribuição massiva das fakes news, mais do que com o objetivo de desinformar e tentar confundir o cidadão consciente, buscando induzi-lo ao descumprimento do que está preconizado nos decretos de isolamento social.

Atos criminosos perpetrados com o uso das redes sociais são as mobilizações para encontros de grupos, formando aglomerações nos vários locais em funcionamento, e até incentivando a desobediência civil; e, não raro, até para  provocação de tumultos e  desafio às autoridades, com o objetivo de produzirem vídeos exibicionistas para alimentar vaidades narcísicas e outras alienações.

Umberto Eco, em seu estilo mordaz, criador de frases sarcásticas, disse que “[…] as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, só falavam no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade”.

A julgar pelo que observamos hoje, ele tinha razão!




COMENTÁRIO

Tem toda a pertinência o ilustre articulista ao lamentar que a cultura libertária  brasileira dificulte que o povo compreenda a seriedade do momento, e impeça que ele se autodiscipline para o uso da máscara, única defesa de que dispõe a humanidade no momento contra o flagelo do coronavírus.

Eu mesmo comentei meses atrás sobre uma matéria em que um europeu residente em país oriental registrou no celular uma zona urbana em que todos, todos, sem exceção, do mendigo à criancinha, do empresário ao vendedor, adotaram espontaneamente a máscara nos primeiros dias da pandemia, e por isso haviam ocorrido apenas quatro mortes na cidade até ali, quando os cadáveres já faziam pilhas mundo afora.

Na ocasião eu comentei que, se o único transmissor do vírus era o aerossol de humores corporais expelido pelo nariz e pela boca, mesmas vias por onde se podia receber aquele patógeno, ninguém infectaria ninguém, e ninguém se infectaria. Tampouco restariam contaminadas as superfícies em geral, já que as pessoas não estariam depositando perdigotos sobre elas.

E lamentei à época que isso seria então inviável no Brasil por dois motivos: a um, porque não haveria mascaras para toda a população brasileira de repente; a dois, porque o nosso povo não teria a disciplina de adotar a máscara com o rigorismo necessário. Hoje já temos mascaras para todos... mas o povo como um todo não compreende a importância do seu uso.

Engana-se Arnaldo Santos em seu artigo, entretanto, ao dar a entender que somente a classe média sudestina, os manifestantes de rua a favor do Governo, os que frequentam a noite nas cidades grandes e as suas praias elegantes sejam os maiores insubmissos, porque nas cidades pequenas e nas periferias do País as máscaras se transformam em adereços de pescoço.

Sim, é estranhável que o Presidente Bolsonaro tenha resistido a essa necessidade e se tenha exposto ao vírus até ser infectado, o que apenas o insere nesse caldo de cultura nacional que faz o povo transgredir o que lhe impõe qualquer norma de obediência civil.

Mas esse fato nada tem a ver com “machismo” ou outro cacoete qualquer que Arnaldo atribui ao Presidente da República, dando a falsa impressão de que faz contra ele o tal do “discurso de ódio”. Bolsonaro é igual ao povo que o aplaude, e à massa que o elegeu. Paciência.

Também ouso dissentir do nosso ilustradíssimo sociólogo quando ele deixa vazar nas entrelinhas do seu texto um certo chorume autoritário, no sentido de que o Presidente da República deveria “obedecer” isso e aquilo.

Pior ainda quando diz que, apud fulano, o “povo” pode ser classificado como uma “legião de imbecis”, porque organiza manifestações pelas redes sociais, “até para provocar tumultos e desafiar as autoridades”. Enfim, seguindo o articulista na linha da frase do Pelé, execrada pelas esquerdas, segundo o qual, “o povo não sabe votar”.

Para mim, nas democracias, o povo é a autoridade suprema, e quem o povo elege para a Presidência, para o bem e para o mal, tem que ser fiel a ele até as eleições subsequentes.

Reginaldo Vasconcelos
                                 




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