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terça-feira, 26 de maio de 2020

ARTIGO - Uma Perda Essencial (RMR)


UMA PERDA ESSENCIAL
Rui Martinho Rodrigues*


A gênese da democracia guarda relação com a substituição da força pelo diálogo. O reconhecimento da existência de impasses insuperáveis pela razão exige algo mais. A incomunicabilidade dos paradigmas (Thomas S. Kuhn, 1922 – 1996) decorre dos diferentes pressupostos e valores subjacentes ao discurso, divergência de significados e de conhecimentos prévios. Gaston Bachelard (1884 – 1962) viu o conhecimento como obstáculo ao conhecimento novo.

Leon Festinger (1919 – 1989) viu a contradição entre o que pensamos e o que fazemos, designando-a como dissonância cognitiva. Diferentes fatores conscientes ou inconscientes estariam envolvidas em tais situações. Os gregos adotaram o voto da maioria como solução para os impasses gerados pela incomunicabilidade aludida. Os sábios de Mileto contribuíram para o desenvolvimento do pensamento racional com a dessacralização do conhecimento que embasou tudo isso, mas não foi suficiente.

Por volta do século VI a. C. Dracon (? – 621 a.C.) e Solon (640 a.C – 560 a.C.) enunciaram princípios ordenadores das relações sociais para atenuar os conflitos. As leis escritas buscam esse fim. A validade do conhecimento, sem o privilégio da sacralidade, sem satanizar o pensamento divergente, acatando a decisão da maioria no que concerne ao campo valorativo, respeitando a reserva do possível, sem confundir juízo de valor com juízo de realidade, estão na gênese da democracia.


A Idade Média ressacralizou a política, afastando o livre debate e a decisão pelo voto, depois dos desvios de caminho democrático havidos já na Antiguidade. A convicção sacralizada sataniza o outro. As cartas do livro "Cartas Sobre a Tolerância", de John Locke (1632 – 1704), discorrem sobre os conflitos decorrentes da convicção. Transigir com o que considera erro é grave omissão para o convicto. Confundimos tolerância com silêncio da crítica.

O falibilismo recomenda a coexistência pacífica, não a perda do direito de expressão do pensamento, inclusive da crítica. Estamos confundindo respeito a pessoa com intocabilidade das ideias e condutas. Respeite-se a pessoa de todos, até dos criminosos. Não temos, porém, a obrigação de respeitar ideias nem condutas criminosas. Razão e referências para contornar os obstáculos epistemológicos, paixões e interesses são essenciais à democracia.

A pós-modernidade tende para o que Karl Raymond Popper (1902 – 1994) qualifica como relativismo laxista, tanto no plano cognitivo como no axiológico. A redução de tudo ao uso da linguagem se assemelha ao pensamento dos sofistas como Protágoras de Abdera (490 a. C – 421 a. C) ou de Górgias de Leontinos (487 a. C. – 380 a. C.) na Grécia decadente.

Perdemos o fundamento maior da democracia. Confundimos tolerância com censura; coexistência pacífica com respeito; sacralizamos convicções no tradicional modelo eclesiástico ou das religiões políticas pseudo laicas. Um fato que horroriza uma parcela da sociedade é motivo de euforia de outra parte dos brasileiros.

A satanização do outro, a ética teleológica justificando os meios pelos fins, a cegueira para as razões do outro, com lado invocando em vão o “santo” nome da ciência, como se as ciências fossem dogmáticas e unívocas, exagerando efeitos de ideias e atitudes havidas como erradas, vaticinando genocídios ou estabelecendo comparações ou qualificativos com o que há de mais horrendo na história, tudo é um trágico sinal de que perdemos o essencial da democracia: o falibilismo que admite a possibilidade do outro ter razão e a tolerância que não renuncia ao exercício da crítica.


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