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quinta-feira, 7 de maio de 2020

ARTIGO - Passado e Presente (RMR)


PASSADO E PRESENTE
Rui Martinho Rodrigues*


Por vezes somos tentados a entender o presente pelo passado. March Leopold Benjamim Bloch (1866 – 1844) alerta para o perigo da idolatria das origens dos fatos, atos e enredos da marcha da humanidade.

Epidemiologistas estudam casos de surtos e de endemias tirando lições. Comparar e passado e presente é um duro desafio. Envolve as dificuldades da História Comparada e as do presente. Diferenças contextuais e de significados encobrem os precedentes. Decifrar o presente tropeça na ausência de desdobramentos e consequências que ainda não se concretizaram.

As consequências da atual pandemia ainda estão no porvir. O passado nos mostra episódios de pestes que mataram em proporção muito maior do que a de hoje. A população, porém, vivia no campo. As fazendas, em grande parte, eram autárquicas, só adquiriam querosene, sal e munição. Isso no Século XX, nos dias da “gripe espanhola”.

A agricultura e a pecuária pouco usavam insumos industriais – se é que o faziam. Não contraiam tantas dívidas juntos aos Bancos, salvo naquelas lavras que ainda seguiam o modelo da “plantation” colonial, como a monocultura do café. Recomeçar, depois da falta de mão de obra causada pela gripe espanhola, varíola ou cólera, não era tão complicado.

O mundo não era a aldeia global de Marshall McLuhan (1911 – 1980). Agentes etiológicos das doenças se propagavam lentamente. O mundo não se abatia ao mesmo tempo. Indústrias necessitadas de componentes importados, organizadas de modo complexo, dependendo de grandes investimentos, faziam parte de poucos países, ou nem existiam.

Empresas de aviação, que agora estão paradas, não existiam. A indústria aeronáutica e toda a miríade de fornecedores que gravitam em torno dela não eram importantes na maior parte do mundo. O setor automotivo era restrito, inclusive nos países desenvolvidos nos anos de 1919 e 1920, ao tempo da maior pandemia imediatamente anterior à atual. Hotéis e demais atividades turísticas não eram parte tão grande da economia.

A vida era simples. As cidades eram pequenas, não ofereciam tanto emprego no setor de transporte. A mão de obra necessária a importantes setores da economia, hoje, exige qualificação complexa, demorada, demanda um longo tempo de preparação e muito mais investimento do que no passado.

O impacto econômico das grandes pestes medievais devastou a economia de países europeus. Mas as diferenças aludidas e a expansão colonial favoreceram a recuperação. A atual dependência do mundo relativamente à China poderá levar a um esforço de reindustrialização dos países desenvolvidos, ou realocação de indústrias no México, Leste Europeu ou América Latina.

Os chineses certamente não facilitarão a saída de máquinas e equipamentos do seu território. Novas máquina precisarão ser fabricadas. Infraestruturas terão de ser providenciadas para a reindustrialização; preparação de mão de obra; investimentos. Recursos de outras áreas serão realocados. A retirada de indústrias da China poderá abalar a economia do gigante da Ásia. Uma recessão chinesa abalaria o mundo. As relações econômicas prejudicadas poderão afetar as relações diplomáticas. Nova corrida militar poderá ganhar força.

Compreender o passado é difícil. O futuro é indecifrável. Precisamos, todavia, olhar para o caminho que temos pela frente. Conjecturas permitem a elaboração de cenários necessários ao planejamento. Antevemos agora dificuldades maiores que as das pandemias pretéritas. Temos, porém, vantagem sobre os nossos avós: mais tecnologia e soluções mais rápidas.


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