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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

CRÔNICA - A Gazza e a Ragazza (HE) - 02.02.20


A GAZZA E A RAGAZZA
Humberto Ellery*


A Ópera La Gazza Ladra, de Gioachino Rossini, uma das minhas preferidas, mesmo sendo classificada como uma ópera semisséria (melodrama), traz alguns detalhes que me encantam.

Em primeiro lugar sua Overture, uma das músicas ditas “clássicas” de que mais gosto. Rossini era tão brilhante e rápido na arte de compor, quanto irresponsável.

Prova disso, quando o Produtor da Ópera, já com o teatro contratado, ingressos vendidos, tudo pronto para a estreia no dia seguinte, viu que o gênio não havia ainda concluído a peça de abertura.

O Produtor, então, trancou-o em um quarto, com apenas um piano e partituras em branco, sem água ou comida, e só o deixou sair quando ele passou as partituras por debaixo da porta, o que ele fez em poucas horas. Inacreditável (Recomendo buscarem no youtube e entender como uma obra tão maravilhosa pôde ser composta em poucas horas)

Outra coisa interessante é o trocadilho da palavra Gazza, como é conhecido na Itália o pássaro pega (corvídeo da família do pica-pau), e a palavra Ragazza, que significa “menina”. Pois afinal o tema da ópera gira em torno da garota Ninetta, seu amor por Gianetto e o roubo de um anel por uma pega.

O autor do libreto, Giovanni Gherardini, inspirou-se na obra La Pie Voleuse (A Pega Ladra), de Badonin d’Aubigny e Louis-Charles Caignez, que por sua vez se inspiraram em um trágico fato real acontecido alguns anos antes, que os artistas trataram de abrandar, invertendo a ordem cronológica dos eventos, dando-lhe um happy end.

A história verdadeira é que, lá pelos meados do Século XVIII, una ragazza bellissima empregou-se em uma mansão aristocrática para cumprir serviços domésticos. Os donos da casa tinham um filho, un bel ragazzo que logo se apaixonou pela empregada. A mãe do rapaz não aprovou aquela paixão, mas o rapaz, apoiado pelo pai e cheio de autoridade, impôs sua vontade e iniciou um lindo romance com a jovenzinha, que também se apaixonara pelo filho do patrão.

A Senhora, embora reticente, acabou por aceitar a situação, uma vez que a ragazza, além de ser linda, era uma criatura adorável, simpática, prestativa e trabalhadora. E viveriam felizes para sempre se não tivesse ocorrido um fato terrível, que destruiu toda aquela atmosfera de amor e beleza.

Um dia a senhora esqueceu sobre a mesa da cozinha um enorme anel de brilhantes, que tirara por um instante enquanto lavava as mãos. Ao voltar à cozinha para pegar a joia não mais a encontrou. A empregada rapidamente passou de suspeita a culpada, afinal ninguém mais entrara na cozinha naquele breve espaço de tempo, apenas a senhora e a empregada.

Para piorar-lhe a situação, ela não tinha explicação para o sumiço da joia, apenas repetia que também vira a joia e não entendia como teria sumido. A coitada ficou atônita, só repetia, com um fio de voz chorosa: “Não fui eu, não fui eu, não fui eu”.

Mas o pior estava por vir. Seu namorado, seu belo e amado noivo, segurou ternamente suas mãos e fez a pergunta fatídica: “Por que você não me pediu, eu lhe teria dado um anel maior, mais bonito e mais caro”. Ela já não disse mais nada, apenas olhou fixamente em seus olhos e pensou: “Meu Deus, meu Deus, até você, amor da minha vida, está me julgando uma ladra?” Entrou então numa depressão catatônica, numa apatia, um mutismo impenetrável. Pessoas que tentavam falar com ela diziam que, mesmo olhando fixamente para o interlocutor, ela parecia não os ver.

Sem se defender, sem tomar conhecimento da oferta do Burgomestre (que era apaixonado por ela), de usar todo o seu prestígio para conseguir o perdão, ela foi rapidamente condenada e encaminhada ao patíbulo, ao encontro do qual caminhou serenamente, mansamente. Em suas belas feições não era possível perceber qualquer emoção, nem tristeza, nem amargura, nem sequer medo, pois, afinal, o patíbulo só infunde medo aos vivos, e ela já se julgava morta, seu coração  já morrera desde aquela pergunta de seu amado.

No libreto os autores antecipam o final da história para conseguirem um happy end, que infelizmente não contemplou a bella ragazza. Depois de executada a sentença, no dia seguinte, a senhora mandou podar uma árvore que estava atrapalhando o acesso da cozinha ao quintal.

O lenhador que subiu na árvore para cortar os galhos, de repente deu um grito e desceu afobada exibindo nas mãos um ninho de Pega. Dentro do ninho pedaços de metal, cacos de vidro e o maldito anel de brilhantes. As pegas são conhecidos por recolher e levar para os  seus ninhos coisas que brilhem.

PS.   Sugiro consultar tragédia semelhante acontecida com o poeta Augusto dos Anjos e sua paixão pela filha do vaqueiro de sua fazenda, da qual resultou o emocionante soneto “A Árvore Da Serra”.


A ÁRVORE DA SERRA
Augusto dos Anjos


– As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho…
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

– Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros… no junquilho…
Esta árvore, meu pai, possui minha alma…

– Disse – ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra.


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