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terça-feira, 2 de julho de 2019

ARTIGO - Infelicidade Induzida (RMR)


INFELICIDADE INDUZIDA
Rui Martinho Rodrigues*


Percepção, significado, valoração, ângulo de visão, ênfase e idiossincrasias se sobrepõem aos fatos, na formação da resultante do “sistema de forças”, na constelação de fatores que compõem a felicidade.

Condições materiais de vida melhoraram enormemente desde o advento da Revolução Industrial:

Escolaridade, acesso aos bens e serviços, liberdades e garantias individuais, proteção de minorias pelo Estado e instituições, controle de epidemias, cura de doenças letais;

Tratamentos menos dolorosos, declínio da mortalidade infantil, maior esperança de vida, Direito Penal humanizado com penas alternativas;

Entretenimento disponibilizado pela popularização do rádio, da TV e da internet, atividade física facilitada pelo acesso às academias;

Pedagogias suaves, integração de pessoas especiais, abandono das práticas de amedrontar crianças com Bicho Papão, possibilidade de escolher o momento de engravidar, superação da infertilidade e o grande aumento da mobilidade geográfica... todos esses são aspectos que objetivamente indicam melhores condições de vida.

Mais felizes, porém, não nos tornamos. O índice de suicídios cresce. Dependência química é pandemia. Depressão, síndrome do pânico, ansiedade, as varias formas de insatisfação, o sentimento de revolta e indignação s multiplicam, levando a uma era de manifestações de protesto. A seletividade da memória – autêntico mecanismo de defesa – é lembrada para afastar a visão de um passado mais feliz.

Dizem que houve apenas aumento do registro e da percepção da infelicidade, não fatos que traduzem esta condição. Objetivamente, porém, o crescimento dos fatos que expressam insatisfações e infelicidade é real. Não é só aumento de registro. 

Formadores de opinião, como professores, comunicadores, escritores e celebridades tendem a olhar o mundo pelo ângulo da inconformidade. Alegam que o conformismo paralisa a vida. Poetas dizem: “todo grande amor só é bem grande se for triste” (Vinicius de Moraes, 1913 – 1980). Comunicadores declaram: “Notícia é o homem morder o cachorro, não o cachorro morder o homem”. Destacam o inusitado, ao invés de assinalar a tendência majoritária dos fatos e atos sociais.
Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) percebeu a tendência das fórmulas políticas para a degradação, comparável à segunda lei da termodinâmica, na Física. A democracia tende, segundo aquele célebre estagirita, a degenerar em demagogia. Políticos e ideólogos exploram os ângulos desfavoráveis, omitindo a enorme melhoria de todos os indicadores de qualidade de vida.

Destaque e valoração dos fatos e atos é feito até nas ciências da cultura, ao modo dos poetas e comunicadores, ressaltando a infelicidade, deformando a percepção. Poetas mentem. Intelectuais fazem tratados como que se valendo de licença poética. Comunicadores buscam audiência oferecendo emoções. Políticos procuram votos mostrando indignação com o que interpretam como injustiça. Mobilizar pessoas é mais fácil com raiva e indignação.
O mundo foi orientado, desde o advento do jornal impresso e do enciclopedismo (que contribuíram para a Revolução Francesa), até as novas tecnologias de informação, para ser infeliz e revoltado por “direitos que lhes são negados”, magoando-se e tornando-se infelizes. Anthony Daniels disse, por isso, que o mundo está desorientado.



2 comentários:

  1. Poetas mentem????? Poetas deliram!!!
    Amei o texto... toca em detalhes importantes, fundamentais. Adorei a citação do Vinícius de Moraes (mesmo não concordando com ele). Também adorei a aproximação de Aristóteles, apesar de delirar heidegger.

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