sexta-feira, 19 de agosto de 2016

CRÔNICA - O Fogo e a Fortuna (RV)


O FOGO E A FORTUNA
Reginaldo Vasconcelos*


Li com delicia, ao longo de duas noites de vigília literária, as 320 páginas de “Momentos”, o livro de memórias que Dona Yolanda Queiroz, a Primeira Dama do Empresariado Cearense, escreveu e lançou em meados do ano passado, na undécima hora de sua existência luminosa, já que faleceria em junho deste ano.

Em prosa agradável, vazada em escorreito português, aplicando linguagem clara e feminina, a Benemérita da ACLJ (entidade que ela cita por duas vezes) relata pari passu a sua trajetória de vida, desde a infância até a sua provectude, referindo gentes e fatos da vida cearense que ocorreram em seu entorno, grande parte deles superficialmente conhecidos dos fortalezenses mais antigos, por ela tratados no livro de maneira arguta e delicada.

Mas, a par do prazer intelectual de mergulhar na aliciante narrativa, duas tristezas me acompanhavam o tempo todo, durante a longa aventura livresca. Primeiro, a angústia de não poder levar à autora as minhas impressões e os meus comentários sobre os assuntos amanhados, privilégio que o Dr. Lúcio Alcântara ainda teve, enviando-lhe uma carta primorosa.

A segunda agonia que me torturava era a impossibilidade absoluta de ler aquele livro para oitiva do meu pai, falecido em janeiro último, ele que foi contemporâneo de todos os personagens referidos, vizinho de Dona Yolanda e Edson Queiroz no passado, amigo dele na juventude, sócios em uma empresa transportadora, nos anos cinquenta.

O livro conta a experiência de uma menina estudiosa, aluna de colégio de freiras dos anos trinta em Fortaleza, convertida na inocente moça casadoira dos anos quarenta, que temeu ter engravidado do namorado que apenas lhe dera um beijinho no braço; que se tornou uma mulher de prendas do lar dos anos cinquenta, muito católica, esposa obediente e mãe proposital de seis filhos – tudo muito semelhante ao que viveram as mães de todos nós, os chamados baby boomers.

Destaque para o início das dores do parto da primeira gravidez, no confessionário, reveladas de repente ao padre confessor, que a mandou ir para casa incontinenti, e a angustiosa demora da dentição do primeiro filho, contornada socialmente com a utilização de uma mimosa e pequenina dentadura, até que o primeiro dente de leite despontasse.

A vinda dos pais e dos sogros dos sertões cearenses para a Capital, lá pelo início do século XX, ambos se projetando com sucesso no comércio em Fortaleza, corresponde à história de grande número de famílias da cidade, pois foi esse o nosso processo de crescimento urbano, em torno do velho forte, encravado sobre dunas.  

Mas a grande força da obra está principalmente na narração minuciosa da escalada entre a classe média e a fortuna financeira, empreendida pela família da autora, revelando a descomunal disposição para o trabalho e a imensa aptidão para os negócios que caracterizavam Edson Queiroz.

Edson, a princípio, não parava de comprar e vender, de farejar dinheiro, de perseguir lucros, de reunir capital, de procurar talentos para a ele se associarem nos melhores ramos de negócios, abandonando os que fracassavam e imediatamente tentando outras empresas.

Depois, já estabilizado pelo comércio de gás de cozinha, Edson passou a fazer projetos empresariais que, independentemente de sua lucratividade, engrandecessem a sociedade que o acolhera e em que prosperara, como o Sistema Verdes Mares de Comunicação e a Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz. Ao morrer, em tenebroso acidente aviatório, estava em viagem de trabalho, e, segundo Dona Yolanda, já tinha na mente um projeto novo, que não chegou a lhe revelar como seria.

Faço uma analogia perfeita com o homem primordial que, para sobreviver na natureza, dando um salto evolutivo, friccionava pedras em busca de fagulhas, reunia gravetos e soprava brasas para acender uma fogueira, sem descanso e sem trégua, até obter as labaredas da fortuna.

Em seguida, ao calor das chamas, à luz das tochas, em redor da pira que fez arder penosamente, mimosear o mundo, como fez o mitológico Prometeu – o titã grego que tomou o fogo dos deuses para com ele presentear a humanidade.

Edson queria vencer e fazer fortuna, mas entendia que ao empreender estimulava a economia, produzia riqueza econômica difusa, com benefício científico e cultural, o que aproveitava à sociedade, à cidade, à região. Prosperar era para ele uma compulsão irrefreável, num afã de ser uma pessoa jurídica gigantesca, e cada vez maior, para servir à cidadania.

Dona Yolanda faz muitas revelações dramáticas nessa obra, como as doenças na família, incluindo as suas próprias crises de depressão – o que era comum às jovens donas de casa da época, pelos partos seguidos, os deveres domésticos, a cobrança social, o jugo dos maridos  bem como as mortes de dois filhos adultos, da nora querida e de vários amigos muito próximos.

Mas nada se equipara à perda súbita e trágica do companheiro idolatrado, que ela acreditava ser invencível e imortal. Por fim, a confissão de que, aos 87 anos, pretendia viver por mais uns dez, o que evidentemente não estava nos planos de Deus, que lhe concederia mais uns doze meses, tão-somente.

Pessoalmente notei que Dona Yolanda era feliz, apesar das agruras da sorte, apesar dos desenganos da fortuna financeira, das tenções dos negócios, da dificuldade de educar os filhos entre barras de ouro, para um mundo de latão, repleto de concupiscência e de cobiça. 

Era feliz Dona Yolanda em suas viagens regulares ao Rio de Janeiro, a Paris, a Nova Iorque, a países exóticos, entre velhas amigas e bolhas de champanhe, sua bebida preferida. Era feliz em sua casa, com a efervescência das crianças da família  os filhos e, em seguida, os netos e os bisnetos.

A propósito, pensando nos seus sucessores remotos, volto agora à metáfora do fogo, que, como o capital e o patrimônio, é preciso alimentar e soprar em conjunto, sob a melhor liderança, e cuidar que não definhe ou se extinga de repente. A mesma fogueira de poder e de vaidades que, se não for bem controlada, pode crestar os corações e incendiar um império inteiro.





COMENTÁRIO:

O livro de D. Yolanda, de que li apenas parcialmente, minha sogra está adorando, porque fala da Fortaleza da juventude dela.

O estilo é leve, direto, de fácil compreensão. Onde é possível substituir uma vírgula por um ponto, D. Yolanda não perdoa. Isso cria períodos curtos, vale repetir, leves e de fácil compreensão.

A narrativa linear, e na primeira pessoa, dá um tom intimista e convida a um passeio pela estrada do tempo, (re)vendo uma cidade que já não existe, encontrando pessoas que já se foram, contemplando valores aposentados pelas novas gerações, admirando costumes postos no ostracismo.

Rui Martinho Rodrigues

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