sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

APRECIAÇÃO LITEROECLESIÁSTICA - JC e a Igreja Atual (VM)


JESUS CRISTO E
A IGREJA ATUAL*
Vianney Mesquita**


Tu es petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam. 


Há poucos dias, à procura de conferir um indicativo em fonte jornalística a fim de ilustrar um escrito para publicação, dei com o registo surpreendente dos dois anos de mudança, para a Grandeza Edênea, do sacerdote católico, Diocese de Sobral (natural de Tapuio, Distrito de Cariré), Padre Martins de MedeirosY30.04.1945 - V04.02.2014), com quem há tempos, mantive contato, sem conhecimento pessoa a pessoa, conforme passo a narrar.

No já distante 1998 - há 18 anos, pois – coadjuvava, em Fortaleza, o trabalho das Edições UVA, da Universidade Estadual Vale do Acaraú, ao tempo do reitor e hoje deputado estadual, Professor José Teodoro Soares, na tarefa de preparação de originais, constante de revistas de língua portuguesa, acomodação de conteúdos, apropriações bibliográficas no que concerne às normas da A.B.N.T. e tantos outros procedimentos peculiares aos misteres de uma casa publicadora acadêmica.


Eis que, a instâncias da saudosa Professora Norma Soares, a qual dirigia a Editora da IES Sobralense, procedi ao prazenteiro encargo de aparelhar para uma edição possível o conjunto postulante a infólio, versão moderna, subordinado ao título Jesus Cristo e a Igreja, produzido pelo dito Padre Martins de Medeiros, há já dois anos, decerto, sob experimentação das delícias celestes.

A princípio, não atinei para o fato de que a obra representasse vigor autoral de maior profundidade. Dantemão, pensei que o Autor cuidava de ajuntar os tópicos de suas preleções no Instituto Teológico e Pastoral e em aulas ministradas na UVA, apenas para efeito didático-pedagógico, sem pretensões mais afoutas. Por certo, essa ousadia era inocente, sem o propósito estudado de que o trabalho corresse mundo. A julgar, todavia, pelo agradabilíssimo espanto de que fui tomado, acreditei, então, que o fado da obra seria o sucesso – conforme veio mais tarde a se confirmar – máxime pela tenção investigativa que o Padre Martins de Medeiros ali imprime, particularmente, na parte de Eclesiologia.  

De tal modo, sob o prisma do romaneio bíblico e da verdade também de outras vertentes, confirmo agora, novamente, depois de quase duas dezenas de anos, o fato de que os estudos de Cristologia partem da comparação do Jesus Cristo histórico com o Cristo da fé, enroupando, com habílimo poder sinóptico, todo o roteiro da Salvação, tendo por centro a estampa binatural da Segunda Personagem da Trindade – divina e humana. De tal maneira, o autor prosseguiu, de foz em fora, até a atualidade, com reflexões de remate acerca da perenidade do Cristianismo.

No módulo sequente, absolutamente altivo em relação à literatura jungida ao argumento relatado – pois conhecia procedência e língua em que foram vazados os documentos – grego, aramaico, latim e hebraico – o Padre Martins de Medeiros não se prevaleceu daquele teologismo exacerbado, do apego enfermiço aos princípios dogmáticos, para conceder visão pública às ideações de estudioso respeitável.


Mensageiro de uma reflexão independente, mediante a qual exprimiu erudição frugal, não apenas deitou judicativas conceituações, como também retirou ilações de passagens obscuras  e até polêmicas  da doutrina, aclarando entendimentos cuja má interpretação conduz a cismas, heresias e reformas, conforme aconteceu com Ário (256-336), Jansênio (1635-1738) e Henrique VIII (1491-1547), só para mencionar alguns dos mais afamados heresiarcas/reformadores.

Têm destaque na obra de Padre Medeiros, pelo que de responsavelmente atiladas, suas menções analíticas à epistolografia são-paulina, ao recorrer, não apenas, às Cartas, mas também a uma multiplicidade de fragmentos da Escritura Santa e da literatura coadjuvante, a fim de explicitar os textos do Apóstolo Sírio e seus vínculos com a fé professada pelos cristãos de contorno católico e de outros perfis confessionais.

Marcações de relevo, também, de Jesus Cristo e a Igreja radicam no papel exercido pelas assembleias episcopais – concílios, consistórios, sínodos etc – nomeadamente os Concílios de Trento, Niceia, Constantinopla e Vaticano II, por exemplo, quando restaram tomadas importantes decisões relativas a mudanças estruturais internas, à adoção de modelos litúrgicos – como a missa vernacular, por exemplo – além de deliberações que modificaram profundamente o modus operandi temporal-adjetivo e imprimiram revisões de relevo nos conceitos cristoeclesiológicos, espirituais-substantivos, então exercitados pela Igreja.

Temas como o Corpo Místico, a Igreja Povo de Deus e Corpo de Cristo, Estrutura e Jerarquia Eclesiásticas, os Carismas, Primado Pontifical e Colegiabilidade Bispal, a exemplo dos demais assuntos abordados no livro do Padre Martins de Medeiros, são dissecados com vigor, conhecimento e coragem. O Autor, também, sine grano salis,  com o máximo de responsabilidade, também se referiu à Igreja do futuro, àquela hoje desenvolvida. Ao parafrasear o hoje Pontífice resignatário, Bento XVI – então Cardeal e teólogo Joseph Ratzinger, ele expressou:

[...] como essa Igreja consta de  homens fracos e pecadores, que podem falhar em sua responsabilidade para com a missão recebida de Cristo, o seu futuro também  depende dos homens [...].

Conquanto haja falhas, entretanto, o empenho, a decisão – agora sob o pastoreio do Papa Francisco – é de não fracassar, a fim de que, compostos e resolvidos os erros, a Instituição possa cada vez mais se achegar à ideia maior de Chiesa Aggiornata.

Lembrança marcante, por conseguinte, deste sacerdote-escritor-teólogo, Jesus Cristo e a Igreja é livro que, por seu alcance teológico, continua a ser apreciado e estudado por todos os estratos da nossa Santa Madre Igreja no Ceará, nomeadamente nos seminários, conventos e assemelhados, bem como, principalmente, nas academias católicas.



*Jesus Cristo e a Igreja tem guarnições escritas por mim, cujo texto foi publicado no meu livro Fermento na Massa do Texto. Sobral: Edições UVA, 2001, pp.127-8. 190 p.




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