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segunda-feira, 27 de abril de 2020

CRÔNICA (A QUATRO MÃOS) - Lembranças Gentis de Excêntricas Senhoras (RV-AA)


LEMBRANÇAS GENTIS
DE
EXCÊNTRICAS
SENHORAS
Reginaldo Vasconcelos*
Alana Alencar**


Minha avó Jurema era prima e grande amiga da Maria Juracy, mãe de uma prole ilustre de médicos, intelectuais, um militar de alto coturno, o mais conhecido dos filhos o jornalista Armando Vasconcelos, hoje falecido.

Uma das filhas dessa prole, a Salésia, foi quem me alfabetizou, e, consequentemente, uma das minhas primeiras paixões. Eu me arrepiava todo quando ela pegava na minha mão para desenhar as letras do alfabeto com um “pincel atômico” sobre uma cartolina – método de ensino trazido do Estrangeiro, que substituía o “bê-á-bá”.

Em 2017 a Salésia, já octogenária, a meu convite, compareceu a evento da ACLJ no Iate Clube de Fortaleza. Abraçamo-nos, e nunca mais nos vimos.

Gerardo, um dos médicos daquela irmandade, musicófilo, na juventude trocava figurinhas com meu tio Luciano, advogado, também grande apreciador de livros e de músicas.



E ambos os primos tinham a canção italiana “Volare”, de Domenico Modugno, sucesso no início dos 60, como o hino daquela época, tema sentimental de seus namoros juvenis. Então, a música tocava diuturnamente nas radiolas das casas de Dona Jurema e de Dona Juracy.

Um dia uma telefonou para a outra, e esta última, que era muito espirituosa, confessou: "Jurema, eu não aguento mais um 'pinto de blusa' que se instalou aqui em casa".

Ela fazia uma paródia com um trecho refrão da letra da música de Modugno, cantada em italiano: Nel Blu, Dipinto Di Blu – “no azul, pintado de azul”.

Maria Juracy gostava de dizer obscenidades, entre as amigas e as mulheres da família, naquele tempo em que as mulheres tinham que ser muito recatadas.

Dona Jurema, por seu turno, não articulava qualquer palavra feia, fazia de contas que sexo não existia, e repreendia severamente qualquer referência a atos libidinosos que se fizesse perto dela.

Mas, a prima Juracy tinha salvo-conduto para dizer o que quisesse. Quando ela vinha de lá com um bem-humorado disparate, Dona Jurema sorria, e justificava: “Maria Juracy parece que é doida!”. E continuaram muito amigas, pela vida toda.


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Que linda... a Dona Jurema!

Eu conheci alguém como a “Maria Juracy”. Inclusive, dediquei a ela o meu primeiro livro de poemas – “Trago do Verbo”. Didi (apelido), ou Eliz Deire (pseudônimo), ou Zuíla (seu nome mesmo) era uma velhinha delicada... mas sem qualquer pudor.

Era linda. Ficou solteira a vida toda e morava com o irmão, Milton, e a esposa dele, Maria. Ele criava pombos, e me ensinava a fazer bichos de sombra com as mãos. Ensinou-me também a jogar purrinha.

Eles eram amigos do meu pai... tinham sido vizinhos. E eram primos da minha avó Cléa, que na verdade, em linha sucessória, era minha tia-bisavó.

Assim como a Dona Jurema, minha avó também tinha lá suas reservas quanto às palavras e ao sexo em geral. Costumava repetir em voz alta "não casei porque não quis, pois tive muitos pretendentes". 

Retrucava da Didi algo muito próximo do que a Dona Jurema dizia da Maria Juracy. "Zuíla é muito irreverente". 

Didi achava que todo mundo deveria andar nu, pois os corpos eram obras de arte! Eu adorava ir passar a tarde lá. Com Eliz Deire eu podia conversar sobre muitas coisas! Terminava de lanchar e dizia: “Estou cheia!”. Ela me olhava e repreendia: “Não! Você está satisfeita!”.



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