quinta-feira, 24 de agosto de 2017

CRÔNICA - Cinismo - (HE)


CINISMO
Humberto Ellery*


Quando o filósofo grego Antístenes (Atenas, 444-365 aC) desenvolveu sua doutrina filosófica, baseada na busca da felicidade através de uma vida simples e natural, desprezando riquezas e comodidades, conquistou com tão insólita pregação Diógenes, o qual, exilado de sua Sinope, havia se mudado para Atenas.

Esse seu mais famoso discípulo levou tão a sério essas premissas que passou a se alimentar de esmolas e a viver dentro de um tonel, cujo “teto” compartilhava com os cachorros vadios. Passou a ser conhecido como Diógenes, o Cínico (do grego kinikos, adjetivo derivado de kyon, cão).

O que os filósofos cínicos não podiam prever era o fenômeno semântico que transmudaria o uso de “cínico” para significar pessoas descaradas, destituídas de caráter, sem apego aos valores éticos e morais.

Por exemplo, comportamento absurdamente cínico, na moderna acepção da palavra, estamos observando agora com a proposta de retirar R$ 3,6 bilhões do Orçamento Público para financiar as eleições de 2018.

Mas, o cinismo maior não é dos parlamentares que estão trabalhando por isso, mas daqueles que nos levaram a essa situação, e partem agora para os mais duros ataques ao financiamento público de campanhas.

Em 2015, a Ordem dos Advogados do Brasil propôs uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, sem conseguir mostrar uma linha sequer da Constituição Federal que vedasse tal atividade.

A vitória da referida ADI proposta se deu por oito a três. Dos atuais Ministros do STF, apenas Gilmar Mendes e Celso de Mello votaram contra (Teori Zavaski, que foi o terceiro voto contra, faleceu, e seu substituto, Alexandre Morais, ainda não compunha os quadros do Tribunal).

Ora, qualquer pessoa com meia dúzia de neurônios ativos perceberia que fatalmente chegaríamos ao financiamento público. As alternativas são o financiamento com dinheiro do crime, do caixa 2, ou restringir a política apenas aos muito ricos, aumentando a elitização de uma atividade já insuportavelmente afastada do povo.

O autor da proposta de ADI, patrocinada pela OAB,  foi ninguém menos que Luis Roberto Barroso, à época advogado. Aquele mesmo que autorizou abortos até o terceiro mês de gravidez, que atropelou o Regimento Interno da Câmara dos Deputados, numa mentira descarada à frente de todo o País, para tentar salvar o mandato da Dilma.

O Relator foi o Luis Fux, aquele mesmo que, monocratica e soberanamente, autorizou o pagamento de quase R$ 5 mil mensais de auxílio moradia a todos os juízes do Brasil (R$ 1,04 bilhões por ano), país onde ainda se morre de fome.

Pois o Ministro Barroso, com aquele seu ar blasé, afetado, fingindo  indignação, como se culpa não lhe coubesse, vem dizer que o financiamento público é um desaforo. 

Convenhamos – que Diógenes (e os cães) nos perdoem pelo mau uso da palavra  é muito cinismo!

  

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