segunda-feira, 13 de março de 2017

CRÔNICA - A Vida e o Tempo (AS)


 A VIDA E O TEMPO
Arnaldo Santos*


Quando nascemos, ainda de olhos fechados, e antes mesmo do primeiro choro, como que anunciando nossa existência, um horizonte de amplas perspectivas e múltiplas variáveis que não sabemos nem podemos imaginar, se abre ante nós, consubstanciado no que a Natureza universalizou por meio da VIDA.

Desde aquele sublime instante, não importa se numa sala de cirurgia de um hospital ou em qualquer outro lugar, onde pessoas de várias gerações se emocionam e celebram a vinda de um novo rebento, inicia-se uma saga que conceituamos como A VIDA E O TEMPO.

Os primeiros dias, meses e anos sequentes são de expectativas, preocupações, planos e sonhos de todos os que nos cercam, até chegar o dia em que passamos a reflexionar nos próprios sonhos, guardando a consciência do devir a ser por nós constituído.

Na tenra idade, mesmo quando não somos muito favorecidos pelo meio de onde viemos à Terra, os sonhos são sempre alegres e coloridos, o céu constantemente azul e muito estrelado, e o Sol parece ser ainda mais dourado, nos fazendo introjetar uma percepção do mundo, segundo a qual o espaço vislumbrado se mostra tão tropical quanto o é do lado de baixo do equador. E pode ser. Por que não?

Assim, a vida sequencia até nos conscientizarmos do tamanho do desafio de constituir a perspectiva de possibilidades a nós indicada, a depender, quase unicamente, das escolhas e atitudes de cada qual perante a vida, no decurso da trajetória existencial. O relógio, entrementes, não se peja de marcar o quanto, e com qual intensidade, estamos consumindo do estoque a nós reservado pela Mãe-Terra, na expressão de Arnold Toynbee.

Nessa caminhada vital, no curso de significativo intervalo, sequer percebemos a inexorável finitude. Movidos, então, por uma combinação de sentimentos, misturando ignorância e prepotência, comportamento peculiar aos jovens, invariavelmente, desafiamos o próprio existir, quando, muita vez, sob a mais absoluta inconsequência, nos expomos a graves riscos, submetendo-nos a erros francamente evitáveis.

Nesse período, as sábias e bem-intencionadas lições de nossos pais, na maioria dos casos, são por nós descartadas, pela ideia de as considerarmos ultrapassadas, quadradas, caretas, extemporâneas, sem o menor sentido. Nossa arrogância é de tal ordem, ao ponto de nos fazer convictos de que não precisamos de nada, tampouco de ninguém, muito menos de proteção, seja daqui de baixo ou mesmo do Alto. Ainda bem que os pais são assim! Eles nos devotam um amor que nem capazes somos de sentir na sua real dimensão. Mesmo nos amando sem o estabelecimento de qualquer condição, ordinariamente não os valorizamos.

De tal modo, prosseguimos, no tentame de escrever uma história, única, irrestritamente singular, de sorte que a não podemos delegar a qualquer outro autor. Então, trilhamos os próprios caminhos, abrindo sendas no meio da densidade de incertezas, demarcando cada capítulo com as tintas do pouco ou muito aprendizado que a vida teima em nos ensinar, ainda que não sejamos alunos dos mais aplicados.

Eis, entretanto, que, um dia, aliás, simbólico e belo – representativo da aparição de Nossa Senhora de Fátima – aos 13 de março de 2017, como de costume, nos levantamos cedo e, perante o espelho, nos demos conta de que já havíamos vivido os mais rápidos 62 anos de uma existência. Meio atarantado, então, indagamos: Oh, tempo! Para que tanta correria? Precisa de tudo isso? É, todavia, quer queiramos ou não, a inexorabilidade temporal. Não há de se externar revolta!

Pela atual expectativa existencial divisada cientificamente pelo IBGE, 74 anos, nessa conjuntura estranha e turbulenta, se tivermos experimentado a sorte de descender de uma boa cepa genética, e se houvermos vivido saudavelmente até aqui, já consumimos mais de dois terços de tudo o que a Natureza nos deixou como reserva para existir.

Ainda perante o célebre “Espelho Meu”, como que demandando a decifração dos enigmas da saga (A VIDA E O TEMPO), percebemos que as pálpebras estão em queda livre, contornadas pelos sulcos do tempo decorrido. A pele já não amostra o mesmo viço do espaço transato, tampouco o rosto expressa brilho igual àquele divisado outrora. Com efeito, sob o influxo da consciência de que já despendemos quase toda nossa reserva temporal, por alguns segundos, cerramos os olhos, tendo sido a cabeça envolvida por um turbilhão de pensamentos, nos remetendo às mais diversificadas emoções.

Os primeiros pensamentos aportados à mente tendem a nos conduzir pelas apertadas trilhas do coração, onde se escondem, espremidamente, as sensações de melancolia, pontuadas por algumas reações de revolta e arrependimento, pelo que fizemos ou que deixamos de fazer. Afinal, nos apercebemos mais de perto da corrida final. Porque a Natureza é sábia, cuida logo de eliminar do nosso meio interior tais impressões negativas, para, em seguida, despertar uma vontade inexplicável de estabelecer novo futuro, mais edificante. 

Desde então, fomos invadido por agradabilíssimas emoções, dando-nos conta de quantos amores vividos, em maior ou menor intensidade, dos belos sorrisos das mulheres amadas, adornos dos caminhos até aqui percorridos, transformando, com seus ósculos ardentes e apaixonados, o calor físico de suas pessoas, os dias e noitadas experimentados em pura felicidade, pois, além de aquecerem o leito e nos envolverem em delícias indecifráveis, são parte inseparável da nossa história!

Agradecido e cheio de ternura, lembramo-nos da bela família que Deus nos permitiu constituir, dos filhos saudáveis, cidadãos e cidadãs que esses amores nos legaram, dos poucos ou muitos amigos que fizemos e trouxemos para nossa pequena igreja, das alegrias vivenciadas no decurso de toda essa trajetória, graças à maior riqueza de que um homem é merecedor, configurada no dom da vida com saúde. Daí, por conseguinte, nos plenificarmos de energia, para iniciar outra caminhada, na perspectiva de desbravar esse novo ofício, após a colheita dos frutos de tudo o que foi semeado até aqui.

Ao termo desse súbito momento de introspecção à frente do espelho, contemplando a beleza e a aspereza, refletidas na imagem do que é ter vivido 62 anos, graças a Deus, com muita saúde, somos assaltado por uma pausa de profundo silêncio e solidão sem deixar de refletir, no entanto, na tortura maior que pode estar ou não a caminho, espelhada no esquecimento e abandono pela perda da utilidade... Certamente, a Deus querer, não será assim ...

Viva, porém, a vida!

Assim queremos continuar vivendo os dias, os meses, os anos ou as décadas que o Criador nos reservou.



COMENTÁRIOS:

Distintíssimo o texto de Arnaldo Santos, um experto em Comunicação, Ciência Política, Sociologia e, agora, demonstra mais uma vez que também trata bem a literatura, haja vista esta crônica de alevantado apreço, no concernente à linguagem literária e às tiradas estilísticas de alçado grau.

Abraço-o efusivamente nesta sua data genetlíaca, achando-se já anoso com somente 62 anos. Imagine-se.

Agora, um favor lhe vou pedir: nunca mais faça aniversário num dia de segunda-feira! Faça o favor!

Amplexo acochado, Arnaldíssimo!

Vianney Mesquita



Parabéns! Sempre um Grande Homem!


Ellaine Motta

3 comentários:

  1. Distintíssimo o texto de Arnaldo Santos, um experto em Comunicação, Ciência Política, Sociologia e, agora, demonstra mais uma vez que também trata bem a literatura, haja vista esta crônica de alevantado apreço, no concernente à linguagem literária e às tiradas estilísticas de alçado grau.

    Abraço-o efusivamente nesta sua data genetlíaca, achando-se já anoso com somente 62 anos. Imagine-se.

    Agora, um favor lhe vou pedir: nunca mais faça aniversário num dia de segunda-feira! Faça o favor!

    Amplexo acochado, Arnaldíssimo!

    Vianney Mesquita

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