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terça-feira, 22 de setembro de 2020

ARTIGO - A Resiliência do Óbvio Enganoso (RMR)

 A RESILIÊNCIA DO
ÓBVIO ENGANOSO
Rui Martinho Rodrigues*


A polêmica entre empirismo e racionalismo é multimilenar e inconclusa. Ambas as tradições têm alguns argumentos bons e fragilidades. Toda teoria tem alguma aporia. Karl Raymond Popper (1902 – 1994) propôs como solução o racionalismo crítico para superar o dogmatismo formalista do neopositivismo, empirismo lógico ou princípio da verificação. Este tentava estabelecer conhecimentos definitivos somando as falibilidades da razão e da observação.

A solução tentada por Popper substituiu o conceito de prova pela validade transitória, enquanto uma nova verificação não chega para infirmá-la. É a concepção do saber científico processual, sem escorregar para a logomaquia do relativismo, da perspectividade e do contextualismo epistemológicos. Popper exige que as proposições ofereçam algum ponto de apoio que possa ser submetido ao exame crítico, designando tal exigência como falsificabilidade ou falseabilidade. 

O senso comum é mais estável que a ciência. A Teoria Atômica adotou quatro versões entre modelo de John Dalton (1766 – 1844), apresentado em 1808; substituído em 1898 pela concepção de Joseph John Thomson (1846 – 1940); sucedido em 1911 pela teoria apresentada por Ernest Rutherford (1871 – 1837); reformada em 1913 por Niels Henrik David Bohr (1885 – 1962). Isto é, em apenas cento e cinco anos a ciência mudou quatro vezes a teoria atômica. 

O senso comum, porém, demonstra grande estabilidade, sem que isso signifique consistência. Ainda que as palavras e expressões não signifiquem adesão ao empirismo ingênuo, o hábito triunfa sinalizando a facilidade de comunicação dada pelo uso consagrado e amparado pela tradição.

Aristarco (310/320 a. C. – 250/230 a. C.) demonstrou que o sol era o centro do nosso sistema planetário. Cláudio Ptolomeu, (70/100 – 168) assumiu a autoria do heliocentrismo, não sabemos se conhecia bem o estudo da Aristarco, do qual só restaram algumas referências em obras de outros pensadores. Mas decorridos vinte e quatro séculos continuamos dizendo que o sol se levanta e se põe, óbvio enganoso, principal crítica do racionalismo ao empirismo. 

Ciências da natureza, embora não tratem de finalidades, motivações, paixões e interesses, têm dificuldade de compreender o mundo. Suas formulações são instáveis, embora concebidas por autores geniais. Política, Direito e ciências que têm por objeto a cultura enfrentam dificuldades muito maiores. Os conhecimentos por elas formulados são ainda mais precários. Mas suas formulações são mais resilientes. Têm a força do erro amparado na convicção. 

O viés de confirmação, a incomunicabilidade dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996) e o obstáculo epistemológico do conhecimento anterior (Gaston Bachelard 1884 – 1962) são mais fortes quando o objeto cognoscível e o sujeito cognoscente se deparam com interesses e paixões. 

As ciências sociais tendem a prescrever algum tipo de dever, ao invés de descrever e explicar o que a realidade é. Dever ser não se subordina a falseabilidade, ao princípio da validade transitória e nem sequer ao verificacionismo. O dever ser convida à exibição de virtudes, sem a reserva do possível ou a demonstração da viabilidade ou do sacrifício necessário a sua realização.

Os resíduos e derivações (Vilfredo Pareto, 1848 – 1923) do pensamento medieval estimulam ideias supostamente virtuosas, favoráveis ao farisaísmo. Demagogia é a arte de conduzir o povo, manipular e agradar. É como Aristóteles (385 a.C – 323 a.C) via a decadência da democracia.


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