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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

ARTIGO - O Ódio do Bem (RMR)


O ÓDIO DO BEM
Rui Martinho Rodrigues*



Um assassinato nos EUA, que não foi praticado por policial nem contra pessoa negra, não gerou protestos. O motivo foi a posição política da vítima. O assassino era pessoa “do bem”, “antifascista”. Bastou alguém gritar: tem aqui um fascista e seguiram-se os tiros fatais. A indignação seletiva discrimina vítimas e motivações políticas dos agressores. Defende boas causas, tolerância racial e o respeito (que é uma homenagem ao mérito) por diferentes comportamentos.

Scott Raymond Adams diz que o animal racional não é tão racional, mas guiado por emoções e filtros como o viés de confirmação, arrostando dissonâncias cognitivas. Sigmund Schlomo Freud (1856 – 1939) atribuía as nossas ações aos designíos insondáveis do inconsciente. Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996) denunciava a impermeabilidade dos paradigmas aos argumentos da razão. Ser “do bem”, pregar tolerância e matar quem pensa diferente é uma dissonância cognitiva.

O viés de confirmação leva o virtuoso guardião da tolerância e das liberdades a matar quem comete pensar diferente, satanizando o outro. Fascista é um dos adjetivos usados para criar monstros contra quem o ódio é “do bem”. Quem defende liberdade de expressão, luta por um estado mínimo e pretende descentralizar e desconcentrar a federação vira fascista pelo viés de confirmação, embora fascismo seja o avesso de tudo isso.

A semântica das palavras é modificada livremente, com as novas epistemologias invocando infraestruturas e superestruturas econômicas, sociais, políticas e culturais impostas por dominadores. Filosofia analítica, sociolinguística e algumas teorias de análise de discurso convalidam o contorcionismo lógico e epistemológico do viés de confirmação, “saneando” a dissonância cognitiva. Lucio Colletti (1924 – 2001) aludiu à dialética como uma senhora de costumes cognoscitivos fáceis.

Fariseus conquistaram prestígio e exerceram influência defendendo o que era tido como correto, defendendo as boas obras às expensas dos outros. Expressar virtudes é tentador, principalmente para quem sente desconforto consigo mesmo. Bandidos matam ou maltratam condenados por estupro. São paixões inferiores travestidas de virtudes. Ladrões e homicidas sentem-se reconfortados mostrando-se intolerantes e severos com os condenados por certos crimes.

Distribuir a renda, propor tributos mais pesados e expropriar propriedades, desde que sejam dos outros, fazem parte do discurso virtuoso do viés de confirmação da autoimagem favorável. As dissonâncias cognitivas ou contradições são contornadas por piruetas epistemológicas e pela ética teleológica que em nome dos fins justifica meios torpes.

O “esclarecimento” dos intelectuais ungidos, assim nomeados por Thomas Sowell (1930 – vivo), miram-se na República, onde os filósofos governavam. A retratação de Platão (428/427 A.C. – 348/347 A.C.), na obra “As leis”, dizendo que a República só seria adequada para anjos, propondo algo mais realista, não é divulgada pelos ungidos. O iluminismo retomou a ideia dos esclarecidos orientando governos. A Revolução Francesa foi feita para instituir um Estado forte, ao gosto dos iluminados, que corrigisse os erros da sociedade, pela “fraternidade da guilhotina”. José Guilherme Merquior (1941 – 1991) denunciou as centenas de milhares de mortos “fraternalmente” pelos corretíssimos jacobinos.

Karl Raymond Popper (1902 – 1994) denunciou os inimigos da sociedade aberta e a logomaquia erudita e inteligente dos que se apresentam como arautos do bem que justificam o ódio, a intolerância e o dedo em riste, sempre acusando o outro e colocando-se como vítima.


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