O QUE É DEMOCRACIA
Rui Martinho Rodrigues*
A democracia tem sido descrita das mais diversas maneiras. Governo do
povo, adjetivada como direta; consentida pelo povo ou representativa; até o
Estado provedor é apresentado como a expressão material da democracia. Olivier
Nay (1968 – vivo), na obra “História das Ideias Políticas”, considera que as
origens atávicas da democracia estão situadas no momento em que os gregos substituíram
o uso da força pelo debate racional, adotando a maioria como árbitro das
decisões. Passaram a fazer reuniões, debater e votar para decidir.
Houve percalços. Tornou-se preciso, em certa época, multar os
faltosos. Até que os sofistas introduziram o relativismo escancarado. Então a
ideia da razão como fiadora das decisões feneceu. Aristóteles advertiu dizendo
que a forma decadente da democracia é a demagogia. O governo do povo, ou
democracia direta, falhou em todas as suas experiências históricas.

A voracidade do tempo é implacável. A modernidade enfatizava a
busca da verdade objetiva, da impessoalidade, da isonomia e das
universalidades, chegando até a levar a Assembleia Constituinte francesa a
declarar, não o direito dos franceses, mas os direitos do homem. Esta
modernidade está claudicando. O que se aproxima ainda não tem nome. É nomeada
como pós-modernidade, o que vem depois da modernidade. Nega universalidades,
substitui a isonomia pelas especificidades dos grupos identitários e a verdade
objetiva pelo relativismo e, apesar disso tudo, se diz etapa mais avançada da
modernidade. Não confessa o relativismo que pratica. Diz defender a
perspectividade, como se fosse algo diverso do relativismo.
A complexidade dos problemas contemporâneos os torna
incompreensíveis até para os intelectuais. Poucos eleitores compreendem os
desafios de uma reforma tributária, administrativa, problemas ambientais,
sanitários e muitos outros. A participação e a concessão de outorga aos
representantes se faz às cegas, inclusive pelos “esclarecidos”. Os partidos já
não são capazes de cumprir a que se destinam. Outros riscos despontam no
horizonte. Criminalidade, terrorismo, corrupção e a degradação ambiental são
maximizados como pretexto para um neocolonialismo camuflado na pele de
governança mundial ou globalismo. Novas formas de controle e vigilância são
criadas e propostas. A violação de garantias individuais foi banalizada até
pelos mais altos tribunais.
Novas tecnologias permitem um grau de controle que supera a ficção
de George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950) “1984”. Diante de tantas
ameaças as preocupações democráticas devem se voltar para a preservação das
garantias individuais, tais como a inviolabilidade do domicílio, das
comunicações postais, telefônicas e telemáticas, para as formalidades
essenciais do devido processo legal, o direito à informação e a liberdade de
expressão. A iminência de catástrofes, em parte, é herança dos sofistas.
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