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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

RESENHA - Três Crônica, Mil Carnavais (AR)


TRÊS CRÔNICAS,
MIL CARNAVAIS
Alison Ramos*



O carnaval é o mote dos três textos: “Muitos Carnavais”, “Simbora Amar” e “O Inverno e o Carnaval”, de Reginaldo Vasconcelos. No entanto, o assunto, ainda que localizado no centro dos escritos, não ultrapassa a sua função de pretexto. Há, muito além desse elemento temático, necessário a todo princípio, uma poesia que nos permitiria atribuir, antes de tudo, valor lírico às crônicas. Esse lirismo, pelo menos no sentido básico do termo, está atravessado pela nostalgia. Nota-se, assim, a emergência de uma subjetividade que volta ao passado, fazendo desse tempo parte de sua expressão presente.

Nessa mistura, em que o ontem e o hoje se tornam quase indiscerníveis, o asfalto funciona como o misterioso fio que se desenrola e sustenta essa viagem lírica sob as rodas do tempo.  Quem não deseja ir rumo ao interior – geográfico – espelho de um interior maior e tão distante que a vista não alcança? A resposta poderia ser óbvia, mas é necessário que se diga: só aqueles que são capazes de ir “simbora” num ato de amor.

Não se trata de um amor ideal. Antes, é aquele amor que todos conhecem, mesmo sem saber. É o amor de quem escreve, como diria Proust, n’ A Busca do Tempo Perdido. É, no caso das crônicas, o amor de um folião que reconhece os retalhos mais coloridos de carnavais passados para compor a sua colcha. 

É o amor que não transcende, mas, permanecendo na imanência de todas as coisas – da Natureza – desdobra-se nas sensações. São os “trovões”, que rasgam “abismos celestes, abrindo-se em relâmpagos colossais”, que anunciam o inverno: “carnaval da natureza, que se fantasia de verde a festejá-lo, numa alegoria gigantesca.” No viço de tais fenômenos maravilhosos, brotam amores que, efêmeros, deixam o traço de um amor absoluto, sobre o qual aqueles que creem diriam tratar-se do amor de Deus.


Passada a folia de mil carnavais, em que dois tempos se cruzam – o presente e o passado – fecundando a vida dionisíaca e a criação poética, fica a quarta-feira. Não há mais cinzas, mas apenas a catarse de quem sobrevive e um asfalto lavado de saudade. 


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