VIDA DE ANGÚSTIAS
Vianney Mesquita*
A rima é o coração que sai cantando em verso. (JOSÉ OITICICA – linguista, ramaturgo e poeta
parnasiano brasileiro. Oliveira-MG, 22.07.1882; Rio de Janeiro, 08.07.1957).


Clássico
exemplo desta casta de conciliação de sons está na letra de Flores D’Alma, do lusitano Thomás
Ribeiro (1831-1901), inserido em Dom
Jaime, no qual se aviva a beleza composicional. Apreciemos.
As flores d’alma que se alteiam BELAS,
puras, SINGELAS, orvalhadas, vivas,
têm mais aroma e são mais FORMOSAS
que as pobres ROSAS de um jardim cativas.
Sol benfazejo lhes aquece a RAMA,
lúcida CHAMA, sem o ardor que mata;
banham-se as hastes, retratando as FRONTES,
límpidas FONTES em ramais de prata. [...].
Sobra, ainda, mais apreciável se o
compositor impuser mais encadeadas nas estrofes, como neste exercício, em que
todos os versos do soneto Vida de
Angústias – tanto nas quadras como nos trísticos – preenchem esse gradeado.
Sobejam,
porém, um interesse e quiçá uma desvantagem, declarada na sequência, e que, no
fim, no entanto, significa algo positivo, configurado no enriquecimento do
vocabulário do leitor, caso ele desconheça as unidades de ideias empregadas,
pois a necessidade o transporta ao dicionário.
Mencionado
proveito está no encanto das estrofes, rimadas no fim do vocábulo anterior, no
meio e no final do termo sequente, dotando o poema de uma magia inusitada,
porquanto em todas as catorze estâncias do mencionado soneto decassilábico
português ocorre essa triplicidade de correspondências sônicas.
Sucede,
todavia – e aí reside a aparente inconveniência - o fato de a profusão de
palavras consoadas impelir o autor à recorrência de expressões pouco
conhecidas, porém de registo e bom curso no código camoniano, quase obrigando o
consulente a visitar as obras lexicográficas, fato positivo, pois, conforme
expresso há pouco, aumenta o aparelhamento vocabular do consultante, fato a
amortecer a suposta desvantagem.
Decerto,
antes de reproduzir Vida de Angústias,
sem qualquer intento de desconsiderar as habilidades decodificadoras dos
visitantes deste escrito, bem assim do conjunto poético propriamente dito, impende
demonstrar o teor da dita peça em língua-prosa, oferecendo as significações de
assertos e dicções menos empregados nas manifestações da linguagem comum.
A
sugestão é de que leiam cada texto em prosa e o comparem com as estâncias
totalmente encadeadas.
O personagem inventado pelo autor, em viagem
paciente e solitária, como um tolo, vai a um local escondido. Então, ao chegar
a esse ambiente, se prende a esse destino (fadário) sob os variados (multifários)
sofrimentos de um doente.
Na
sequência, expressa que diminui (mermo; mermar é verbo = reduzo) sua mortalha (sudário)
representativa de sofrimento, a consequência primeira do empecilho, do
atrapalho (estafermo); ele é dispermo, isto é, com líquidos genitais masculinos
alterados, motivo por que não toma partido nem do sexo, conservando o corpo
modificado em volume e pressão nas condições de temperatura constante.
Ele é uma estrela-do-mar, um equinodermo
sofrendo (entra aqui uma como licença
poética para aplicar a palavra “equinodermo”). Por um instante, ao rir, se vai
sua dor.
No fecho, diz que o riso é um unguento, uma
pomada para a dor da alma cansada (lassa, lassada), bem como funciona como uma
saída (portada) do lamentável caso; é um medicamento lenitivo (lenimento) para
lutar, numa lida tão amargurada.
Vida de Angústias
Em mister paciente e solitário,
Feito um otário, sigo a lugar ermo;
E, neste termo, prendo-me ao fadário
Do multifário sofrer de um enfermo.
Eu mermo (diminuo) o meu sudário,
O corolário primaz do estafermo,
Pois sou dispermo, em sexo apartidário,
Recipiendário de corpo isotermo.
Equinodermo sob sofrimento;
Por um momento, ao rir, se esvai, passada,
Pois transitada a dor de tal tormento.
Esse unguento para a alma lassada
É uma portada ao lamentoso evento,
Um lenimento à lida amargurada.
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