sábado, 14 de maio de 2011

Crônica do Acadêmico Reginaldo Vasconcelos


DIGNIDADE

O primeiro borzoi que apareceu em Fortaleza foi o Asper, que caiu na mão de um corretor de cães de raça, o qual, sabendo que eu seria potencial interessado, convocou-me. Fui ver, era lindo, embora maltratado. Combalido, mas mantendo o olhar altivo de quem por muitos séculos guarneceu a curul dos czares. Comprei-o barato.
Importado da Europa por algum excêntrico, o enorme galgo russo tinha grande qualidade genética, quase um metro na cernelha, pêlo longo e sedoso, na coloração mais desejável: branco e champanhe.
Passara pelos jardins da Aldeota, por tapetes de mansões, pertencera a um elenco de colunáveis, que, enfim, cada um por vez, transferira-o a outro, como batata quente, não o sabendo criar de maneira adequada. Aquela raça exótica requer cuidados especiais, principalmente ginástica diária, alimentação própria, companhia humana em tempo integral, sem o que os animais ficam artríticos e estressados. Em minha casa o Asper fazia os exercícios necessários, tinha a alimentação adequada, melhorou das juntas, recuperou a pelagem, recobrou o seu ar imperial.
Era autista e folgado. Demorava-se no sofá, mas gostava de estirar-se sobre a cama que encontrasse, de preferência com lençóis frescos e colcha bem passada. Habilidoso com as patas dianteiras, ao primeiro descuido abria o forno ou a geladeira, em busca de algum rega-bofe, como fosse o dono da casa. Indiferente a outros cães, ao nosso gato persa, ao povo em geral, tinha alguma discreta preferência por mulheres, mormente as mais belas, às quais se dignava recostar às vezes, requerendo carinho na cabeçorra acarneirada, focinho de quase dois palmos.
E tinha lá as suas intolerâncias sociais: não suportava maltrapilhos, latia para entregadores, não confiava em serviçais, estranhava fardados. Viveu conosco vários anos, enfeitou os passeios das moças, posou para muitas fotos em família – grande modelo que era – até que um dia foi finado.
Passados mais de vinte anos, no foyer de um teatro, noite de lançamento de uma peça, encontro Tarcísio Tavares, o decano dos publicitários cearenses, hoje mais ausente da mídia, porém nunca superado. Foi-me oportuno agradecer-lhe, mesmo a destempo, a deferência que tivera comigo, quando me iniciava na imprensa ainda menino e fui instá-lo por um pequeno patrocínio, das muitas verbas publicitárias que ele comandava. Lembrei o carinho com que então fui acatado – ele não lembrava mais, mas riu-se feliz da minha lembrança.
E estando ele entre os que me disseram constar da lista de ex-proprietários daquele mesmo borzoi, consultei-o a respeito. Era verdade: o cão lhe pertenceu, tendo ele adquirido o animal de uma linda mulher alemã cujo marido desertara da família e caíra no mundo. Também não conseguiu criá-lo, até porque não se entendia com o cachorro, que só atendia em inglês ou alemão. Entregou-o, por seu turno, àquele corretor que me o vendeu.
Ficou comovido com mais esse resgate do passado. Fiquei de lhe mostrar fotos do Asper. Brindamos com uísque, olhos marejados. Momento de enlevo. Percebemos ali, nós dois é que havíamos pertencido ao mesmo cão. Como a vida é bela às vezes!

Reginaldo Vasconcelos, in O Passado Não Passa – Venus Gráfica e Editora – 2005

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