quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

ARTIGO - Um Poeta aos 80 (IG)

 UM POETA AOS 80
Ítalo Gurgel*

 

Quem não for simpático aos vinte, nem forte aos trinta, tampouco rico aos quarenta e sábio aos cinquenta, jamais vai ser simpático nem forte nem rico nem sábio. 

(GEORGE HERBERT, sacerdote da Igreja da Inglaterra, poeta e orador. Montgomery – Gales - 3 de abril de 1543: Bemerton – Salisbúria-UK., 1º de março de 1633).

 


A epígrafe cumpre seu papel. Ao pinçar o pensamento de George Herbert, Vianney Mesquita confere à sua A Lira dos Oitent’Anos um tom moral e reflexivo. A sentença do Religioso inglês estabelece uma visão cumulativa da vida humana, na qual cada idade tem uma virtude própria a se concretizar no seu devido tempo. Se elas não aflorarem, quando se esperava que despontassem naturalmente, nada as fará surgirem mais tarde. O tempo é seletivo, e sua passagem irreversível. 

Vianney Mesquita

O soneto do meu colega de tratos bem antigos, na UFC e na Academia Cearense da Língua Portuguesa, exprime uma reflexão existencial sobre a velhice, contrapondo duas visões fundamentais: de um lado, Fulano surge como representação da sabedoria; do outro, vêm os “sicranos” e “beltranos” como embaixadores da ilusão e da vaidade. Aos oitent’anos, o susodito personagem não se apresenta como alguém em declínio, mas aponta quem alcançou um modelo superior de equilíbrio. 


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Assim, me atrevo a destilar do soneto a lição de que a idade avançada não tem laços obrigatórios com a nostalgia, a ansiedade ou a perturbadora insanidade. Ela deixa uma porta aberta para que a pessoa permaneça ativa, concretizando planos e realizando desejos, mesmo que não haja espaço para uma ilusória eternidade. Aí habita e viceja a verdadeira maturidade. 

O desfecho do mencionado produto decassílabo lusitano – dois quartetos e dois tercetos - perfaz uma concepção realista: é preciso “unir-se ao certo”, isto é, reconciliar-se com a verdade ineludível da morte. Essa aceitação não é niilista nem desesperada; ao contrário, desponta como condição para uma vida autêntica, consciente e digna.


Um comentário:

  1. O Poeta Vianney, pelas leituras e vivências ao longo de sua trajetória como Educador, Escritor e Pai, tem a Sabedoria de poucos e a Humildade dos Sábios!!!

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