quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

ARTIGO - A Domesticação da Velhice (VCPJ)

 A DOMESTICAÇÃO
DA VELHICE
Valdester Cavalcante Pinto Júnior*

 

SENECTUDE
(Vianney Mesquita)
 
Puído, anoso, vetusto ou pristino
(Adjetivos da senilidade),
No instante zenital, do auge, pino,
Perfaz essências da ancianidade.
 
Quem desenvolve um conviver supino
Vai habitar, provecto, a antiguidade,
Decerto, há de o fazer porque, ladino,
Sabe arrostar a atualidade.
 
Há, porém, velhos brancos no cabelo
Cujas fases viveram a contrapelo
Da existência, sem método nem siso.
 
Afoitos, pois, defenestraram o zelo,
E expõem, agora, as neves do pelo,
Em conjunção com o verde do juízo...


Os velhos – essas personagens que sempre enxergamos à distância, como se pertencessem a outra espécie – nos impõem uma verdade insuportável: avançamos em direção a eles a cada segundo, neste instante irrecuperável. O escândalo, porém, não é a velhice em si, pois ela já se encontra devidamente regulamentada pelas convenções modernas. O que realmente incomoda – e humilha – é a dependência –absoluta do essencial: do copo d’água, do passo alheio, da autorização para continuar existindo... 

E aqui faço uma confissão que me alarma. É o caso dos idosos como se fossem somente um corpo cansado. Sonolentos, sedados, afastados da vida — não meramente pela velhice, mas inclusiva a química piedosa que os amansa e os domestica. O velho é empurrado para o canto da sala, onde não incomoda, não deseja, não opina. Está vivo, mas em estado de desculpa. 

Nós os observamos assim, com tristeza e uma perplexidade perturbadora. Isto porque não faz tanto tempo — não é um passado remoto nem mitológico — pois convivíamos com essas mesmas pessoas em sua plenitude brutal: donas de si, cheias de vontade, capazes de intervir no mundo comum e transformá-lo. Eram presença. Configuravam excesso. Hoje, o entorno lhes reserva o canto, esse espaço discreto onde a vida não atrapalha. Já não há como lhes dar ouvidos, porque lhes faltam forças. Não existem mais gestos, porque o corpo desistiu antes da alma. Quase não há vida — somente aquela concessão mínima que impede a decomposição imediata. É uma existência técnica, mantida por obrigação, como se a morte tivesse sido adiada, sem que a vida fosse consultada. 

E, então, ao contemplarmos essa vida indigna, o olhar retorna para dentro. Sem esforço algum, nos vemos um pouco adiante, ocupando a mesma moldura. O futuro não exige imaginação; ele só aguarda. A vida, entretanto, sempre tão eficiente em sua crueldade, talvez ainda nos reserve algo pior.

Hoje, o velho ao menos convive com o que lhe resta: a família. Observa filhos, netos, bisnetos — testemunha o mundo ir adiante sem ele. Há ainda um palco doméstico, mesmo que silencioso, conquanto humilhado. E nós, essa geração ainda não idosa, o que nos aguarda depois da vida? Não a casa cheia, não o rumor familiar, mas o confinamento técnico: a convivência exclusiva com outros velhos, todos portadores de limitações diversas, alinhados pela mesma falência. 

Talvez seja apenas isso que nos espere no final da existência: dividir o fim com semelhantes mutilados, sustentando uns aos outros numa sala de espera sem relógio, onde a vida já partiu — e o corpo, teimoso, insiste em ficar.



 

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