De primeiro
A Vila Barão de Camocim
e seus habitantes
De primeiro – como diria meu amigo Totonho Laprovitera, e digo aqui em sua homenagem – a cidade tinha outro ritmo, outro silêncio e outras fronteiras. Algumas não eram feitas de muros, mas de memória. A Vila Barão de Camocim era uma delas.
Eu era criança e morava na Rua 24 de Maio, no centro de Fortaleza, num perímetro muito claro para mim: a própria 24 de Maio, a Rua Meton de Alencar, a Rua General Sampaio e a Rua Clarindo de Queiroz. Mais ou menos no meio da 24 de Maio, paralela à General Sampaio, havia uma vila, que parecia um mundo à parte – discreta, quase escondida: a Vila Barão de Camocim.
A entrada que eu conhecia ficava pela Rua 24 de Maio, funcionando como um portão dos fundos. Ao cruzá-la, olhando logo à direita, destacava-se uma casa grande, imponente, luxuosa, pertencente ao então deputado Audízio Pinheiro. Ali, a sensação era de que morava alguém importante, e de fato morava. Tenho outras histórias envolvendo os Pinheiro, inclusive o senhor Sebastião Reis, nosso vizinho, e um famoso baile black tie, mas isso é assunto para outra lembrança.
Seguindo ainda pelo lado direito da via interna da vila, mais ou menos no meio, ficava a casa de Nestor, conhecido entre nós como o nerd da época. Comentava-se, anos depois, que ele teria falecido numa viagem ao interior da Bahia. E, no fundo da vila, com a fachada voltada para a Rua General Sampaio, erguia-se a casa que dava nome a tudo aquilo: a casa do próprio Barão de Camocim.
Voltando à entrada pela Rua 24 de Maio e agora observando o lado esquerdo da via divisória, a primeira casa era a do senhor Zelito Pamplona, de sua esposa Olga (que, na minha cabeça de menino, eu confundia com Dona Olga Barroso, esposa do ex-governador Parsifal Barroso) e do filho do casal, Paulo, sempre muito gentil com a meninada da vizinhança.
Mais adiante, quase no meio da vila, havia uma quadra de esportes, espaço democrático onde se jogava bola, se comemoravam aniversários e se armavam festas de São João. E, já no extremo esquerdo, também voltada para a Rua General Sampaio, ficava a casa de um coronel, cujo nome minha memória oscila entre Ézio ou Ellery.
Foi nessa casa que residiu uma figura pequena, mas decisiva na minha infância: um fox paulistinha.
Nunca soube o nome do cachorro, nem fiz esforço para saber. Para mim, ele era apenas “o fox”. Pequeno, ágil, nervoso e absolutamente convicto de sua missão: defender a vila – ou, pelo menos, morder meus calcanhares.
Toda vez que eu entrava na Vila Barão de Camocim, quase sempre de bermuda ou calção, com os tornozelos expostos, o ritual se repetia. O fox surgia sem aviso, certeiro, atacava. Não latia. Não ameaçava. Mordia. E se retirava com a serenidade de quem cumpriu um dever.
Com o tempo, aprendi a temê-lo, como se teme aquilo que não se consegue evitar. Ele passou a fazer parte da geografia emocional da vila, tão presente quanto as casas, a quadra ou os moradores.
Anos depois, voltando da Praça Clóvis Beviláqua, que de primeiro ( ainda segundo Totonho Laprovitera), era a Praça da Bandeira, resolvi passar novamente pela vila. Naquele tempo, a praça tinha espelho d’água, morcegos pescando peixes ao entardecer e futebol improvisado sob os oitizeiros, perto do antigo Instituto José Frota. Lembro, inclusive, de ver ali meu colega Samuel, do Ginásio Sete de Setembro, marcar um belo gol de bicicleta.
Ao atravessar a Rua General Sampaio, onde o movimento de ônibus sempre exigia cautela, notei algo diferente na casa do coronel. No jardim voltado para a rua, havia pessoas reunidas, algumas chorando. A curiosidade me puxou.
Estiquei-me na ponta dos pés – os mesmos pés tantas vezes atacados – e vi, através da grade, uma caixa de sapatos no chão. Dentro dela, imóvel, estava o fox paulistinha.
Sorri. Um sorriso silencioso, rápido, quase automático. Não por maldade consciente, mas por alívio infantil. A ameaça tinha terminado.
Hoje, olhando para trás, entendo melhor. O cachorro nunca soube quem eu era, nem o medo que causava. Apenas cumpria seu instinto, defendendo um território que também era seu.
De primeiro, talvez a gente não soubesse dar nome a essas coisas. Hoje sei: memória também morde. Mas, como o tempo, aprende a soltar.
E espero, sinceramente, que o pequeno guardião
da Vila Barão de Camocim tenha encontrado descanso – talvez até o mesmo que eu
encontrei ao escrever estas linhas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário