IRÃ, VENEZUELA E NEPAL
Rui Martinho Rodrigues*
Ditadura e ditabranda
Ditaduras não caem, fingem cair. Seus dirigentes
se tornam proprietários de empresas estatais após a falsa queda, continuam
poderosos e privilegiados como magnatas. Bens públicos, no regime caído da URSS,
eram desfrutados como se fossem propriedade dos dirigentes. Luxuosas dachas
deram lugar a uma anedota: um dirigente da URSS levou a mãe para uma delas. A
velha perguntou: “meu filho, com tanto luxo você não teme uma revolução
comunista?” A falsa mudança foi uma formalidade pela qual a posse (usar e gozar)
virou propriedade (usar, gozar e dispor).
Ditaduras e o Estado
Ditaduras expandem o Estado e o estamento burocrático tornando-se resilientes. Tomam o Leviatã, criam lealdades em uma trama de interesses particulares defendidos em nome da democracia, da luta contra a desigualdade e nem escondem que são “mais iguais”, como vaticinou Georg Orwell (1903 – 1950), na obra A revolução dos bichos. Militares, empresários clientes, intelectuais, artistas e jornalistas se aliam e sustentam ditaduras longevas.
Revoluções são patrimonialistas, não
distinguem bens públicos do patrimônio dos seus dirigentes, que acumulam
fortunas no exterior e multiplicam patrimônio sem prestação de serviço. Nem
precisam guardar as aparências, como fazem os hipócritas, que pagam tributo à
virtude: escarnecem, ostentam a iniquidade, desprezam o Direito, a moral e o
povo. O poder corrompe e o poder absoluto corrompe de modo absoluto, observou
Lord Acton (1834 – 1902).
Ditadura: uma dominação resiliente
Ditabranda cai. As ditaduras têm muitas formas: baseiam-se no culto à personalidade do líder, em partidos organicamente constituídos, na força militar, no estamento burocrático, nas lealdades regadas a privilégios e na corrupção. Ditadura, diversamente da ditabranda, é longeva, como a Cubana.
A ditadura do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista), além de ter sido uma ditadura partidária, tinha um líder populista. Só caiu quando o Exército Vermelho tomou Berlim. Na Itália o fascismo só caiu com a invasão dos aliados. No leste europeu as ditaduras eram a expressão da dominação soviética, portanto estrangeira. Caíram desde fora.
Na Venezuela a prisão do ditador não afastou
os generais dos Carteis do narcotráfico, não desarmou milicias encarregadas da
brutal repressão. Prefeituras, Parlamento, Judiciário, forças armadas, milicias
e mídias continuam controlados. É ditadura longeva, permite aos ditadores ostentar,
sem nenhum rubor na face, corrupção e arbitrariedades. Ditabranda é de curta ou
média duração. Ambas usam de meios violentos, censuram, prendem ilegalmente,
mas Ditabranda aplica penas menores. Ditaduras condenam suas vítimas a mais de
vinte anos de prisão e não as absolve. Desprezam a reserva legal na área penal,
juiz natural, juiz imparcial e demais garantias democráticas.
Revolução: máscara de ditadura.
Ditaduras têm resiliência quando se apresentam
como revolução. Jacobinos implantaram o terror, degolaram milhares de pessoas e
ainda são admirados pelo discurso revolucionário. Revolução deveria ser uma
transformação profunda e rápida. Mas nunca definem uma meta que uma vez
atingida a encerre. Nunca chegam ao fim. Napoleão Bonaparte (1769 – 1821)
encerrou a Revolução Francesa dez anos após o seu início, porque ela não
cooptou militares, tropeçou na liderança personalista do grande general, sofreu
o desgaste que a violência produz e não soube trocar a fantasia.
A fugacidade da ditabranda
Ditabranda não é fugaz – embora mate, torture
e censure – porque não faz aliança com intelectuais e artistas, além de não compartilhar
a corrupção com empreiteiras, bancos, empresas de comunicação e lideranças
políticas, nem faz aliança internacional conveniente. Derrama sangue, censura,
tem práticas semelhantes às da ditadura. Mas não tem uma doutrina legitimadora
de tirania. Ditabranda é provisória e se opõe às ditaduras, mas o faz
constrangida. Estabelecia medidas provisórias de exceção.
Venezuela, Irã e Nepal
Venezuela e Irã são ditaduras com o nome de revolução. Dominam as forças políticas, matam, torturam, causam miséria, mas não caem apesar de protesto gigantescos. Desarmaram o povo. Acrescentaram ao receituário revolucionário a aliança com o narcotráfico: trocam o proletariado pelo lumpemproletariado representado pela bandidagem.
Irã e Venezuela fizeram aliança com o
narcotráfico e com o terrorismo. Talvez só caiam com ação estrangeira. Recebem
apoio externo e têm da imprensa, que silencia sobre os seus crimes. A ditadura
do Nepal caiu. O povo foi às ruas. Os militares não mataram nem prenderam em
escala suficiente para salvar o regime. Faltou a fachada jurídica de defesa da
democracia e da soberania. Na Venezuela o Tribunal Supremo de Justiça (TST)
prende opositores, restringe censura, decreta inelegibilidade, frauda eleições
e esconde a lama sob segredo de justiça. No Irã o Conselho Supremo do Irã
também age assim.

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