domingo, 11 de janeiro de 2026

ESCÓLIO LITERÁRIO - Mais um Adágio Poético (APMC)

 

MAIS UM ADÁGIO POÉTICO
Ana Paula de Medeiros Ribeiro Caratti*

 

A velhice nada mais significa do que deixar de sofrer pelo passado. (STEFAN SWEIG, intectual/escritor austríaco. Viena, 28.11.1881; Petrópolis-RJ, 22.02.1942).

 

A leitura de A Lira dos Oitent’Anos, de Vianney Mesquita, publicada pela Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, ontem, dia 9 de janeiro de 2026, remeteu-me à obra Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, não apenas pelas palavras semelhantes, mas também pelo conteúdo. 

A Lira de Manoel Antônio Álvares de Azevedo é um livro repleto de poemas escritos no auge da efêmera juventude do Poeta. Os escritos mostram-se pulsantes, excessivos, sendo cantos de urgência, febre e vertigem.

[São Paulo, 12.09.1831; Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852. Faleceu aos 21 anos do chamado “Mal do Século” - tuberculose.] 


A Lira de Vianney, a seu turno, desenha-se, linha a linha, como um adágio: suave, meditativo e profundo. Expressa-nos o ocaso da existência humana, a velhice que se prolonga em notas longas, conscientes e reconciliadas com o tempo. O que em Álvares de Azevedo é ímpeto e dilaceração, em Vianney Mesquita torna-se pausa, lucidez e aceitação. 

Vianney Mesquita entoa uma melodia serena, consciente e reconciliada com o implacável tempo. 

Ele não reclama, não se ressente, pelo contrário, mostra uma aceitação lúcida do limite humano. O “Fulano” que completa oitenta anos não está em guerra com o mundo nem consigo mesmo; está “no frontispício da vida”, metáfora que sugere não o fim, mas a contemplação da obra já erguida. A velhice, para ele, não é ruína, é portal. 

Enquanto a Lira dos Vinte Anos flerta com a morte como fascínio, A Lira dos Oitent’Anos a acolhe como verdade biótica, natural e inescapável. Não há rebeldia, nem delírio de imortalidade. 

O sujeito poético está “alforriado dos mil desenganos”: liberto das ilusões que aprisionam os mais jovens na fantasia do eterno, do sucesso ilimitado, da permanência impossível. Há, nesse ponto, uma crítica delicada, mas firme, aos “milhões de sicranos” que ainda cogitam na imortalidade simbólica, seja por nome, fama ou acúmulo. 

O Escritor palmaciano canta a sabedoria de existir plenamente num corpo que já conhece seus limites. 

As duas Liras, portanto, se completam como estações da mesma travessia humana. Ambas dizem, cada uma ao seu modo, a mesma verdade essencial: viver é estar em trânsito. A diferença é que, em Vianney, já não há medo do destino, há reconciliação com ele. 

A Lira dos Oitent’Anos não aparenta cantar o fim. É adágio de uma sinfonia chamada vida que só o tempo longo permite compor. Quando o homem aceita que a sua vida não é composta de notas de ilusões, mas de sentido e experiência, ele canta, aos oitenta anos.


A LIRA DE OITENT’ANOS
[Vianney Mesquita]
 
Completou Fulano oitenta anos,
Dormindo bem e fazendo exercício.
Da vida está, pois, no frontispício,
Ainda a conceder ensejo aos planos.
 
Alforriado dos mil desenganos,
Sem cogitar, porém, no vitalício,
Se entende do eterno não propício
Averso aos que do evo são ufanos.
 
Dele distintos são certos fulanos
Feitos milhões e milhões de sicranos
Os quais cogitam na imortalidade.
 
Com efeito, impende unir-se ao certo,
O humano transportando a ser referto
Do biótico fim como verdade.




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