Da Arte de Pensar
e do Vício de Usurpar
Valdester Cavalcante Pinto Junior*
A ênfase no diálogo, na humildade e na responsabilidade como condições sob as quais o conhecimento realmente floresce é especialmente pertinente. A crítica à apropriação versus a criação genuína restaura uma seriedade moral ao pensamento que muitas vezes é negligenciada. Mark Lewin — Seattle Children’s.
Num instante raro de plenitude, quando alguém encontra repouso em sua essência, descobre com surpresa: oferecer seus haveres lhe rende mais do que simplesmente guardá-los. Há, nesse gesto, uma liberdade fina e esclarecida, muito diversa da avareza disfarçada de prudência, consistente na liberdade de agir sem se tornar servo do acumulado.
O saber, quando confinado ao cofre de uma pessoa, perde vitalidade, enquanto, ao ser partilhado, o conhecimento ganha mundo. Ele deixa de ser ornamento privado e passa a cumprir função mais nobre: circular, provocar, iluminar. Nada há de mais estéril do que o discernimento mantido apenas para inflar o ego de seu detentor — prática bem comum entre aqueles a confundirem silêncio com profundidade e posse com mérito.
Convém lembrar, contudo, a ideia de o saber, raramente, se conformar ingênuo. Ele se enreda com interesses, vaidades e jogos de força. Não se expressa raro o caso de espíritos estreitos, carentes de rigor, e ainda mais faltos de imaginação, se apropriarem do pensamento alheio com a desenvoltura de quem rouba uma vela acesa e a chama de sol. Transformam o conhecimento em mercadoria, enquanto transmudam inteligência em truque de feira. Não iluminam: ofuscam.
Contra esse comércio de ideias usadas, impõe-se a evidência de o conhecimento somente florescer no diálogo. Usurpar o pensamento do outro é negar-lhe a condição humana e reduzir o aprendizado a um mecanismo automático, desprovido de ética e de espírito. Ensinar e aprender são condutas a exigirem humildade — virtude pouco estimada pelos preferentes do aplauso fácil no lugar da reflexão honesta, isto é, como se diz comumente, os apreciadores dos holofotes.
A apropriação indevida revela ainda um vício mais profundo: a incapacidade de criar. Quem não gera ideias costuma viver de empréstimos, e os dependentes desses suprimentos, raramente, os devolvem com gratidão. O espírito verdadeiramente fecundo não teme oferecer aquilo por si produzido, pois — ele sabe — a inteligência cresce quando se exercita, não ao se trancafiar. Só o vazio precisa roubar, pois a abundância, ao contrario sensu, distribui.
Pensar de modo autêntico solicita gosto pelo risco e uma saudável desconfiança do rebanho. Repetir algo já expresso é confortável; compreender, porém, dá trabalho. Por isso, muitos preferem a máscara da erudição em detrimento do esforço da reflexão. A doação do saber não é fraqueza — é luxo. Apenas quem tem em excesso é capaz de dar sem medo.
Existe, ainda, quem age por um querer incessante, sempre faminto, nunca satisfeito. Deseja não por amor ao conhecimento, mas por carência; não para compreender, mas para exibir. Esses, com efeito, permanecem presos ao ciclo de possuir, mostrar e competir, como se o valor do pensamento estivesse no aplauso provocado e não na verdade revelada.
Há, contudo, alternativa mais elegante: suspender esse intento bruto e contemplar. Compartilhar o saber com lucidez e compaixão não empobrece, porém eleva. Enquanto a usurpação alimenta rivalidades mesquinhas, a partilha esclarecida aproxima os espíritos e suaviza os costumes, e isto jamais parece pouco.
Assim,
resta uma escolha simples, conquanto nem sempre popular: tratar o saber feito
instrumento de vaidade ou como força de esclarecimento. No primeiro caso, ele
se torna simulacro, ruído, ornamento vazio. No outro, converte-se em potência
viva, habilitada a libertar o pensamento, refinar a convivência e — quem diria
— tornar os seres humanos um pouco menos injustos e mais sensatos. Convenhamos,
tal já seria um progresso notável...

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