O MARUJO
Altino Farias*
Moreno claro, corpanzil avantajado, gordo tipo
socado. Olhos apertados, parecia sem pescoço por conta de uma manta de gordura
que o envolvia. Cabelos pretos, escorridos e ralos, desciam até o meio da
testa. Se o visual impressionava, seu sorriso fácil e franco cuidava de
dissipar qualquer erro de avaliação.
Calorento
e bonachão, costumava descansar nos começos de tarde numa espreguiçadeira
gentilmente posta na calçada do bar pelo proprietário do mesmo, onde ele tirava
uns cochilos alheio ao calor, ao barulho e às brincadeiras da turma que
frequentava a casa.

Nosso amigo bonachão era o mais agraciado
pelos sorrisos e olhares dúbios da encantadora moça. Isso porque era o único a
ali estar todos os dias que Deus deu. Muitas vezes só ele e ela, como se
cúmplices fossem. Com o tempo, a ideia de que a garota estava a fim dele foi se
consolidando. Ao comentar suas suspeitas com a turma, encorajaram-no a partir
para cima dela e resolver a parada: “Tá na cara que ela tá na tua!”,
disseram-lhe. Ah, essa turma!
Certa tarde, uma sombra boa, uma brisa fresca,
e lá vem ela. Sem mais ninguém como testemunha, nosso garanhão deu o bote
fatal. Ela esgueirou-se, reagiu, dissimulou e se saiu da mesma forma que sempre
agira: sedutora, ingênua... Sempre dúbia, deixando nosso amigo a ver navios.
Tarde seguinte, bar lotado, turma reunida na
calçada. Quase três horas e lá vem ela mais uma vez. Sorriso discreto, roupinha
simples, na mesma simpatia enigmática de sempre. Ao cruzar caminho com o
garanhão, que descansava no sossego de sua espreguiçadeira, recolhido à sua
insignificância, ela o cumprimentou:
– Olá, marujo.
– Marujo? Marujo por que? – quis saber ele,
surpreso com o apelido inesperado.
– Porque entrou na onda! – respondeu ela, sem
alterar o passo, nem se importar com as gargalhadas da turma.
COMENTÁRIO:
Genial, Dr. Altino!
Além da graça e do
charme narrativo, pegou todo mundo até o fim. Eu, por exemplo, pensava que era
uma "moça", era, porém uma moça mesmo. Admito o epíteto de marujo,
entrei, também, na onda.
Puxa, nessa idade,
com problemas de D.N.A.!
Parabéns.
(D.N.A. = data de nascimento antiga)
(D.N.A. = data de nascimento antiga)
Vianney Mesquita
Genial, Dr. Altino!
ResponderExcluirAlém da graça e do charme narrativo, pegou todo mundo até o fim. Eu, por exemplo, pensava que era uma "moça", era, porém uma moça mesmo. Admito o epíteto de marujo, entrei, também, na onda.
Puxa, nessa idade, com problemas de D.N.A.!
Parabéns.
(D.N.A. = data de nascimento antiga)
Vianney Mesquita