AS COISAS DO MUNDO
E AS COISAS DE DEUS
João Pedro Gurgel*
Certa
vez, fui a um evento evangélico bastante curioso. Nessa época, eu não era
católico, era budista. Fui atraído ao “culto” por saber que estaria lá uma
garota que me interessava. E, claro, também pela curiosidade sobre a coisa.
Em
chegando lá, vi uma cena grotesca. Uma quadra de esportes. Sob o palco improvisado havia
uma jovem amarrada com uma corda, sendo puxada por um rapaz musculoso, guiados pela
voz de uma pregadora.
A
jovem deveria correr até uma imagem santa, enquanto o rapaz a puxava. Aos
berros, a pregadora perguntou o nome do rapaz. Ele disse. Ela negou, e gritou:
“Você não é fulano, você é o mundo, as coisas do mundo, não é as coisas de
Deus”. Em seguida, sobraram desaforos para os roqueiros, os artistas, para toda
sorte de gente “do mundo”.
Eu
saí. Nem mesmo uma paixão juvenil pôde segurar meu ímpeto de refutar cada ato
daquela pregação. Ora, que história é essa? Coisas do mundo e coisas de Deus?

Muitas
vezes as religiões se enclausuram em seu isolamento celeste (faço o mea culpa e falo dos católicos também).
Não se inclinam para entender o próximo, porque a crendice de que o canal com
Deus foi estabelecido resolve tudo.
Ironicamente,
são bons juízes, capazes de dizer com precisão cirúrgica o que são coisas de
Deus e o que não são. E os pobres? E os doentes? E os viciados? E os enfermos
mentais? São do mundo ou são de Deus?
Não
sei. Talvez seja o nosso mistério. Somos de Deus, mas estamos no mundo. Somos
do mundo, mas estamos em Deus. E agora?
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