sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Filha de Peixe (WI)



Filha de peixe peixinho é
Wilson Ibiapina*


Pois não é que descubro que uma colega de redação é bisneta de dois ilustres brasileiros: o cearense Gustavo Barroso e o carioca Roquete Pinto.

Cláudia é filha de Vera Barroso, jornalista que se notabilizou apresentando programas culturais na TV Educativa do Rio e na TV Brasil, abordando temas sobre literatura, teatro cinema e história.

O pai de Cláudia é o escritor Cláudio Bojunga, carioca que conheci através de Luís Edgar de Andrade, amigo comum. Cláudio foi editorialista do Jornal do Brasil, editor da Veja, dirigiu o telejornalismo da TVE, depois de trabalhar como correspondente internacional. É dele o texto do filme Os Anos JK, de Silvio Tendler.

Mais importante, ele é neto de Edgard Roquete Pinto, médico legista que acompanhou o marechal Rondon em suas excursões pelo interior do Brasil. Roquete Pinto foi professor, antropólogo, etnólogo, e escritor membro da Academia Brasileira de Letras. Ficou famoso como precursor da radiodifusão no Brasil.

Em 1923 ele convenceu a Academia Brasileiras de Ciências a adquirir a primeira emissora de rádio que os americanos montaram no Rio, em 1922, durante as comemorações do primeiro centenário da independência do País. Ele queria uma emissora educativa, como é até hoje a Rádio MEC. Segundo Roquete Pinto, "o rádio é o jornal de quem não sabe ler, é o mestre de quem não pode ir à escola, é o divertimento gratuito do pobre".

O outro bisavô da minha amiga Cláudia é Gustavo Adolfo Guilherme Dodt da Cunha Barroso. Ele foi advogado, professor, contista, folclorista, cronista, romancista e exímio desenhista. Aos 23 anos escreveu seu primeiro livro.

Com o pseudônimo de João do Norte, ele escreveu Terra de Sol, um ensaio sobre a natureza e os costumes do sertão cearense. Além dos muitos artigos, crônicas, contos, desenhos e caricaturas que deixou em jornais e revistas de Fortaleza e do Rio, Gustavo Barroso deixou 128 livros sobre literatura, economia, poesia, folclore, ficção, biografias, política, memórias, críticas e ensaios que assinava como João do Norte, Nautilus, Claudio França e Jotanne.

A bisneta Claudia, como se vê, tem berço. Uma jovem jornalista com um futuro garantido no cenário nacional.  Pensei até em perguntar sua idade, mas lembrei de uma frase do bisavô Gustavo Barroso: “Às damas e aos poetas não se pergunta a idade. A mocidade das damas está na beleza que apresentam: a mocidade dos poetas está nos versos que fazem”.

Gustavo Barroso fez o desenho da primeira sede do Liceu do Ceará, construída em 1894, na Praça dos Voluntários. Hoje, o Liceu, com mais de 150 anos, está na praça que leva o nome do ex-liceista, que também é autor da letra do hino de Fortaleza.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

ARTIGO - Iracema (VA)

IRACEMA,
UMA JOVEM SENHORA
DE 150 ANOS
Vicente Alencar*

“Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ele tem seu pensamento”.

A grande Dama brejeira, cearense, a expressão maior do indigenismo em nosso Estado, como símbolo da destreza, amor e beleza, sempre foi a menina dos olhos de Alencar.

O chefe potiguara é valente e audaz Irapuã é manhoso e traiçoeiro como o acauã. Antes que chegues à floresta, cairás; e teu irmão, da outra banda, cairá contigo”.

É lindo, é maravilhoso sentir José de Alencar ao descobrir, escrever, louvar e apresentar, a todos nós, a sua Iracema, “a virgem dos lábios de mel”.

Na verdade, ele escreveu um belo poema épico, descrevendo nossa história, nossas belezas bem tropicais, os primeiros passos dos colonizadores lusitanos, a maneira de ser de nossos silvícolas, o seu “habitat”, com uma constituição deveras diferente da do homem branco.

Ele olhava o mundo como aqueles que viram o desabrochar da América. O continente e o país, descobertos há pouco mais de 300 anos, mas, ainda, plenamente desconhecido de tudo e de todos. E extrapola no raciocínio, mostra seu espírito, cria sobre uma estrutura romanesca, colocando o romantismo aberto e bem explicado para todos nós. Dá-nos uma lição de vida, o que poderia parecer impossível para outro filho desta terra.

A narrativa épica mostra ao Brasil e ao mundo um momento extraordinário. Era vivido o ano de 1865, ou seja, há  150 anos, onde ele explica, com simplicidade, e muito amor, a terra que se trata “de uma lenda sobre a origem do Ceará”, afirmando que “é narrada nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passava no céu, argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares”.

José de Alencar nos colocou frente a frente com algumas passagens, das mais importantes, que poderíamos reunir em três focos: 1) a fuga da jangada, cenário e tripulantes; 2) a evocação de Iracema; 3) o aparecimento do Guerreiro Branco.

Todos nós ou, pelo menos, a grande maioria dos cearenses, temos orgulho de Iracema, agora completando 150 anos. Uma jovem e bela Senhora, na caminhada através dos séculos e milênios que caminhará, pois, sempre ganhará estudos e pesquisas, notas e observações de todos aqueles que se debruçam ou o farão sobre a Literatura cearense.

Nosso maior escritor estava realmente bafejado pela inteligência e pela sorte, quando colocou no papel tudo aquilo que já havia pensado, projetado e destinado aos anos que viriam depois, para que nossos jovens, nossa gente, pudesse conhecer um pouco da história, juntando silvícolas e brancos.

O cenário, os tripulantes, a fuga com a jangada, as cenas mirabolantes que foram vividas, vendo-se o Guerreiro Branco, o filho de Iracema, Moacir, e o seu cão, todos eles juntos, um quadro primitivo, nostálgico, protagonizando uma história que, através dos anos, se movimenta, tem vida, mostra que a sina errante do cearense não foi criada em vão.

A história palpita, age, mostra vida, mesmo deixando para trás uma linda saga de amor de uma corajosa virgem, sepultada ao lado da palmeira. Tudo o que foi escrito é vida, é emoção e amor, os traços finos, uma delicadeza que até parecia estranha, uma beleza diferente e o mel adocicando suas palavras.

A imagem de uma mulher, até então tida como inexistente, porém saltitante, rápida, com um porte tão esguio que lembrava o talhe da palmeira, sem esquecer os cabelos pretos como a asa da graúna.

Feliz Iracema, feliz mulher divina, que nos envolve e nos emociona, mesmo passados 150 anos. Estás aniversariando, estás festiva, estás feliz, viva e agigantando-te no nosso raciocínio, no nosso pensamento, nos dando uma dimensão maior, aberta, de tudo aquilo que foi vivido ontem, está sendo vivido hoje e continuará amanhã.

*Vicente Alencar
Jornalista, radialista, administrador, poeta, 
criador do Movimento Cultural Terça-Feira em Prosa e Verso, há 16 anos, 
e dos jornais Café Literário e Correio Cearense. 
Vice-Presidente Nacional da Sociedade de Cultura Latina do Brasil. 
Presidente da Sociedade Cearense de Geografia e História, 
da União Brasileira de Trovadores-UBT Fortaleza, 
do Instituto Cearense de Cultura Portuguesa. 
Secretário Geral da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo.

ARTIGO - Cultura Formal e Autodidaxia (VM)


Rápidas Notações à Excepcional
Caligrafia de Aíla Sampaio
Vianney Mesquita*


Sê ávido por saber e saberás. [ISÓCRATES, retórico ateniense - 436 – 338 a. C ].


Liminarmente, me remeto ao título destas notas e, sem conceder ao leitor o lance de me repreender por uma aplicação defeituosa, cumpre proceder a uma referência ao entendimento polissêmico do vocábulo. De procedência grega, kalligraphia, as, tem o senso de boas letras, texto de qualidade, com elocução inventiva e estilo agradável e correto, em vez de meramente “letra bonita”, graficamente perfeita, como nos célebres Sete Cadernos de caligrafia vertical, por Francisco Furtado Mendes Vianna, Edições Melhoramentos, vigentes do começo do século XX até, salvante engano, os anos de 1970.

Reafirmo, constantemente, como bordão de um redondilho maior, e repito, qual num estribilho de ária religiosa, a noção de que só deve conduzir a palma aquele que a conquistou – Palmam qui meruit ferat – conforme a divisa da nossa Arcádia Nova Palmaciana.  Já se exprimia, no meu tempo de estudante secundarista, quando pratiquei caractere cursivo à Francisco Vianna, a conceição de o saber não se denotar por via de pressão osmótica, menos adentrar o raciocínio sob a mera comparência física, do pretendente ao conhecimento, a eventos de natureza cultural, científica e artística, ou onde quer que haja estesia em qualquer das seis artes.

Nas mais das vezes, a participação é descabida e a conquista sobra ética e deontologicamente defesa, lograda por meio de valimentos pessoais e importância socioeconômica do interessado, própria da óptica patrimonialista ainda vigente no Brasil desde a Colonização, a fim de aportar a silogeus e a circunstâncias prestigiosas especiais, desprovido do exigível atestado de valor.

Impende, em primeiro lugar, no decurso da normalidade existencial, a pessoa cumprir os curricula das escolas, acompanhá-los didaticamente, submetendo-se às avaliações ordinárias determinadas pelos organismos oficiais, a fim de auferir os conceitos acadêmicos (convém atentar para a noção de que acadêmico não é palavra unívoca, significativa apenas de ambiência universitária) – quer em estabelecimentos propedêuticos, secundários ou de formação superior - suficientes para se achegar a novos níveis de instrução formal, no estrito acompanhamento do estado d’arte dos conceitos que demanda receber.

É cediço, entretanto, o fato de muitas pessoas jamais terem experimentado a contingência de uma escola formal. Bastaram-se, entretanto, no exercício diuturno do autodidatismo, estudando sem orientação docente e desprovidos de estabelecimentos acadêmicos efetivos, de sorte a granjearem destaque absoluto na sociedade, em vários campos, como ocorreu, verbi gratia, com o nosso Machado de Assis e o escritor lusitano José Saramago, exemplos oferecidos, de caso pensado, para não sair do terreno das letras.  

Em razão, entretanto, de incontáveis conhecimentos transferidos pelas ciências e técnicas deixarem labilmente de viger, rendidos por outros mais proveitosos (muita vez, enganosamente) aos seres humanos, parece ideal adotar a instrução continuada, sob aperfeiçoamento perene, em persecução às circunstâncias d’arte e aos estados da questão, no concerto de programas stricto e lato sensu nas universidades e institutos de pesquisa, com vistas a conservar a atualização constante, para compensar as perdas, nomeadamente aquelas forçadas pela massificação, via indústria cultural, tão execrada por Theodor Wiesengrund Adorno e Marx Horkheimer, os maiores expoentes da Escola de Frankfurt, em suas principais vertentes de exame.

O expediente da autodidaxia, porém, é o aconselhável, desde que o consulente logre enxergar a axiologia do assunto sob exame, por meio de um suporte informacional - adotando-o, por consultar-lhe os interesses, ou o abandonando, porque nele não divisa nenhum proveito. Em todas as situações, aliás, é o meio recomendado, pois até o currículo escolar dos programas ordinários de ensino em todos os graus jamais alcança cobrir inteiramente o espectro de conhecimentos, com nuanças e peculiaridades, de modo a serem estritamente necessárias reflexões ancilares com o escopo de se aproximar, quanto mais melhor, da informação da qual se intenta dispor.

Quem não exercita o estudo regular, tampouco se adestra na leitura nem estimula a curiosice diletante e, por cima, ainda se arvora em ocupar lugares de mulheres e homens apercebidos de obtenções intelectuais de peso, se comporta indignamente e, não raro, está sujeito a incorrer em vexames, quando suceder, por exemplo, de ser necessário demonstrar o status de que é formalmente portador.

Esta reflexão, procedida repetidas vezes, libelo aos sodalícios recipiendários de congregados dessa marca, não cabe, no que de negativo, nas medidas de muitos literatos cearenses, alguns dos quais ainda de fora das academias e sociedades literárias, científicas e artísticas do Ceará.

É o caso, e.g., da escritora Aíla Maria Leite Sampaio, que alberga estas notas, pajem de invejável cultura formal em escolas de excelente padrão e partidária do preparo auxiliar por via da diuturna autodidaxia, sendo, ipso facto e por enorme merecimento, imortal titular da Cadeira 21 da Academia Cearense da Língua Portuguesa, competente operadora do batente professoral universitário, transitada pelos melhores programas acadêmicos em sentidos largo e estreito.

A Escritora caririense, autora de Desesperadamente Nua (1987) e Amálgama (2001), é contista da melhor felpa – casta bem difícil de operar, notadamente no que diz respeito à originalidade e às tramas rápidas - cronista de alteado valor, poetisa de veio distinto e fino lavor, original, ao ponto de alguém, como eu, que priva dos seus escritos reconhecê-la até num texto não assinado, tal exprime o seu estro regular e agradável, sem as simplicidades indigentes da elocução, tampouco os voos exagerados dos poetas albatrozes das estâncias cifradas e ilegíveis.

Da sua produção constante (não há escritor sem produto), ressai o texto ensaístico, decerto pelo fato de que, tendo por ofício ministrar conteúdos de Letras e teores de redação em Língua Portuguesa, necessita de incessante efetividade em relação aos feitos desses misteres, de modo a ter sido o ensaio literocientífico o gênero eleito para se adestrar à proporção do tempo.

Ocorreu de ser, então, este o jaez literário aproveitado para trazer ao lume sua Magnum opus, moto desenvolvido com esplendor n’Os Fantásticos Mistérios de Lygia, escrito básico da dissertação de mestrado, sustentada, suma cum laude, na Universidade Federal do Ceará. Publicado pela Expressão Gráfica e Editora – e acerca do qual pretendo ainda oportunamente fazer glosa – nele Aíla Sampaio perlustra a obra de Lygia Fagundes Telles, mormente no vigor dos motivos fantásticos que emolduram parte da produção da escritora e jurista paulistana, hoje com 92 anos (19 de abril de 1923).

A Autora, que também assina De Olhos Entreabertos (2012) e cujo patrono na Academia Cearense da Língua Portuguesa é o gramático José Marques da Cruz, tem produção multímoda, como já adiantei, e, conquanto tenha elegido o ensaio para tornear, pratica versos brancos maravilhosos e a crônica e o conto e o poema, num estilo alegre e faustoso sob o prisma de emprego da língua, sem descer ao vulgo nem se dissipar nos páramos do inexprimível, onde costuma se perder o leitor.

Seu produto de prima qualidade, de poetisa feliz, é exibido, sempre com novidades, suas e de outros autores, no blog http://literail.blogspot.com.br

Sem dúvida, será providência salutar o consulente lhe experimentar o acesso e comprovar a estesia dos expedientes informáticos emoldurando a magnificência dos seus escritos.



COMENTÁRIO:

Grande Vianney! Grata pela leitura!

Aíla Sampaio.


ARTIGO - A Malhação do Judas (RMR)


A MALHAÇÃO DO JUDAS
Rui Martinho Rodrigues*


A malhação do Judas denota a dinâmica de uma catarse presente na sociedade. A necessidade de odiar, de encontrar alguém em quem descarregar as insatisfações, dirigida ao boneco de pano, havido Judas, é menos perniciosa do que o linchamento. Uma mulher foi linchada, no litoral paulista, um exemplo entre tantos outros. Houve protestos louváveis, justos e oportunos.

O linchamento moral, porém, é praticado sem nenhum protesto. O pretexto é a condição de corrupta da pessoa linchada, analogamente aos linchamentos físicos, que apresentam como desculpa o fato do linchado ser ladrão ou estuprador.

O Brasil tem, na vida pública, o linchamento moral como prática recorrente. Não faltam defensores da violência assim praticada, vista como “ira santa”, “indignação cidadã”, “execração pública”. O eufemismo, porém, cede lugar ao protesto indignado quando existe afinidade ideológica com a pessoa execrada. Paulo Maluf, Collor, Delfim Neto e tantos outros deram plantão como Judas. Collor precisou sair do Brasil, porque não podia andar nas ruas de nenhuma cidade.

A “Geni” de plantão hoje é Eduardo Cunha. Pensando a respeito da escalação do Judas do momento, surgem indagações inevitáveis. Ele era presidente da Câmara quando recebeu pixuleco do petrolão? Não. Era presidente do partido? Não. Era presidente da República? Não. Era ministro de Minas e Energia a quem a Petrobras está subordinada? Não. Era presidente do Conselho Administrativo da Petrobras? Não. Era Chefe da Casa Civil? Não. Era presidente da Petrobras? Não. Nomeou o presidente da Petrobras? Não. Qual a importância dele? Era, ao tempo dos crimes que praticou no petrolão, um deputado havido como do “baixo clero”, de importância secundaríssima.

Conforme as informações obtidas em sede de colaboração premiada de réus da Lava-Jato, Eduardo Cunha integrou a organização criminosa que abalou a grande petroleira estatal. Cometeu crime, sim. Mas seria o chefe da organização? Não. Um deputadozinho do baixo clero não seria o capo de todos os capos. Seria integrante da cúpula da organização criminosa? Não. Desimportante, ao tempo dos crimes, não era cúpula. Teve papel decisivo na compra superfaturada da “ruivinha”, a refinaria comprada no EUA, assim chamada por ser enferrujada? Não.

O deputado só se tornou importante quando chegamos a um parlamentarismo de fato, causado pela falência política do Executivo. Tornou-se persona non grata ao Executivo muito depois dos crimes, por motivos alheios aos referidos delitos. A guerra entre ele e a Presidente da República deveu-se a disputa pela presidência da Câmara e a divergência no campo da moralidade sexual, quando o senhor Cunha passou a brandir bandeiras conservadoras.

Será esse o grave crime em que Macunaíma perdoa ladrões, mas não tolera a moral conservadora? 

Para parte dos linchadores, sim. Outros, porém, precisam de uma "Geni" como manobra para tirar o foco dos chefes da organização criminosa que devastou a Petrobras, os fundos de pensão e o Tesouro Nacional, hoje com um déficit de 120 bilhões de reais. Assim, um ladrãozinho pé de chinelo tornou-se o centro das atenções e o Brasil esqueceu o capo e sua malta.


domingo, 3 de janeiro de 2016

NOTA ACADÊMICA - Census ad Lustrum

CENSUS AD LUSTRUM
  
Em seu aniversário de cinco anos, que ocorrerá no dia 04 de maio vindouro, a ACLJ terá feito uma grande revisão nas suas rotinas institucionais, de modo que a partir de então ela será dita “refundada”. Estatuto e Regimento, feita a necessária reforma, passarão a ser observados com mais exatidão e com rigor. 

Na reunião marcada para o próximo dia 16 de janeiro, o terceiro sábado do mês, se iniciarão as medidas preparatórias para a referida refundação, marcada pela expressão latina ab census ad lustrum. Em 20 de fevereiro, 19 de março, e 16 de abril, os acadêmicos deverão se reencontrar  com o mesmo fim. 

O processo refundante, composto de recenseamento e lustração, estará concluído na noite de 04 de maio vindouro, data da solenidade do quinto aniversário da nossa instituição.

Até lá, todos os titulares das 40 Cadeiras da ACLJ terão renovado o seu voto acadêmico, comprometendo-se nesse ato a acatar e seguir também as novas diretrizes da entidade.

Na Roma Antiga se fazia um Census ad Lustrum a cada cinco anos, para a renovação administrativa da urbe e purificação espiritual de seus cidadãos, de 566 aC, sob o Rei Sérvio, até 74 dC, no reinado de Vespasiano, portanto durante 640 anos.


Todo o povo romano se reunia no Campo de Marte, centro da cidade-estado, enquanto um censor contava a população e contabilizava os seus haveres,  para ao final sacrificar animais em preito votivo às suas divindades, visando a depuração moral dos espíritos e augurando a manutenção das glórias de Roma pelo próximo quinquênio.
  

Na pauta da Assembleia Geral que promoveremos na noite do aniversário da confraria consta o lançamento da Revista da ACLJ, publicação em formato livresco registrando, inclusive fotograficamente, toda a história da confraria durante a sua primeira fase, de exatamente cinco anos, é trará uma coletânea de artigos publicados neste Blog.

Na mesma solenidade tomarão posse, já para a ACLJ refundada, o jornalista Paulo César Norões, proposto e eleito para a sucessão do próprio pai, Edilmar Norões, na Cadeira de nº 3, e a Profa. Luciara Frota, por seu turno aclamada para a Cadeira de nº 37, que vagou mostis causa de Paulo Maria de Aragão.

ARTIGO - A Cultura do Não (AS)

A CULTURA DO “NÃO”
Arnaldo Santos*


A função pública derivada do poder conferido àqueles que o exercem, seja esse delegado diretamente pelo povo, através do voto, ou por aqueles nomeados pelos eleitos para os vários cargos nas estruturas dos governos em seus três níveis, ou ainda por aqueles que ingressam através de concursos para as várias carreiras de Estado, sofreu nos últimos tempos profundas alterações, e até inversão do seu significado.

A postura adotada por uma grande parcela dos agentes públicos, pelo desvio deliberado de função, ou por simples desídia, ou ainda pela incapacidade de compreender a nobreza e a responsabilidade da função que exerce, foi de tal ordem significada que vimos erodir o verdadeiro sentido do "servir", que significa "trabalhar em favor de alguém, de uma instituição, ou de uma causa".

Hoje, o que predomina no setor público (com as exceções que confirmam a regra),  é a cultura do “não”. Do “negar”, do não “realizar”, do “não atender”, em substituição ao servir. Podemos observar quão grave e nefasto é o resultado do exercício desse poder de dizer “não”, nas mais comezinhas ações, desde os que faltam aos plantões nos serviços essenciais, como o professor que não dá aula, o médico que falta ao plantão, ao policial que se deixa corromper, e o segurança que deixa a escola ou o posto de saúde desguarnecido.

O paradoxo é que a função principiológica do serviço público e dos seus agentes é, ou deveria ser, sempre em favor do coletivo, e para todos os estratos sociais. Até mesmo quando o ato a ser praticado venha a ser a simples liberação de um pagamento a uma pequena, média, ou grande empresa privada que prestou um determinado serviço, seja uma Prefeitura Municipal, ou um Governo de Estado, quando o agente responsável diz não ao pagamento, por razões muita vez injustificáveis.

Em maior ou menor grau, isso afeta todo o coletivo que se vincula àquela empresa, desde os seus empregados, que eventualmente deixam de receber seus salários e sofrem todas as implicações resultantes daquele “não”, dado pelo exercício do poder pelo poder, se estendendo e afetando toda a cadeia que move a empresa que teve seu pagamento adiado.

É a cultura do “não podemos atender hoje”, ou “volte na próxima semana”, ou “só daqui a três meses". “Infelizmente não será possível”, “o diretor está em reunião, que vai se prolongar por todo o dia”. “Não será possível fazer o pagamento hoje, e nem essa semana”. “Embora o seu processo esteja concluído e a documentação correta e assinada pela empresa, está faltando o carimbo do chefe do setor que autoriza o pagamento, e ele entrou de férias; só volta no final do mês”.

O leitor certamente já vivenciou essa realidade muita vez. Essa prática cotidiana que se observa no setor público é um traço da falta de compromisso por parte de um significativo contingente dos agentes públicos, seja nas grandes estatais ou nas pequenas prefeituras. Essa distorção, além dos imensuráveis prejuízos materiais que causa à população, no limite podemos afirmar que é o escancarar da mais larga porta para a corrupção.

Em bom português: Criam-se dificuldades para vender facilidades. Os exemplos comezinhos aqui referidos são emblemáticos da grande corrupção internacionalizada, que viceja no Brasil, dando origem a “mensalões”  e “lava jatos”, revelando o atraso histórico em que nos encontramos enquanto sociedade, e um estado organizado sob a égide carcomida do patrimonialismo, e das relações incestuosas entre o público e o privado, que remonta às sesmarias.

Essa doída e vergonhosa realidade revela que os governos e a representação política no Congresso Nacional, ao longo dos quase dois séculos de história da República, falharam. Igualmente disseram “não” ao povo brasileiro. Mas também é preciso dizer que o Poder Judiciário, que detém todos os poderes constitucionais para coibir essas anomalias desde as origens, e que nos envergonha a todos, também falhou. Fez o mesmo que os demais agentes públicos. Também disse não ao papel restaurador que lhe cabia, punindo todos os crimes, que foram se acumulando, deformando a elite política e a sociedade como um todo.

Não tivesse o Judiciário dito “não”, quando deixou de imprimir o esperado efeito pedagógico a suas decisões, teria impedido que outros crimes fossem praticados de forma cumulativa, como ocorreu. Mais do que admitir, é preciso que se debite ao Judiciário grande parcela de responsabilidade pela corrupção endêmica em nossa sociedade, quando ele não coibiu essas práticas e punido severamente na forma de lei os malfeitores, seja por omissão ou por conivência, ao longo da história.

Também é preciso dizer que o próprio Judiciário foi contaminado pela corrupção, em todas as suas instâncias. A imprensa, sempre muito “combativa” e atenta aos vícios dos Poderes da República, (Executivo e Legislativo, notadamente do segundo), se omitiu historicamente em denunciar a corrupção de magistrados, deixando-os livres para continuar lenientes com desvios de conduta, dentro e fora do Poder que eles integram.

Essa ação de covardia e omissão da imprensa, ante o Poder Judiciário, foi e continua sendo tão deletéria à democracia quanto os desvios cometidos pelos demais agentes públicos. A imprensa também disse não.

O rigor que hoje observamos na ação do juiz Sérgio Moro, na diligência do Ministério Público e da Polícia Federal, e a mudança de postura que se observa nas reações do STF, embora estejam a indicar que temos essas instituições cumprindo minimamente o seu papel, também não é menos verdade que esse exercício de cumprimento do seu dever institucional já é tardio. 

A negação de direitos aos jurisdicionados no Brasil é histórica, sem que tenhamos observado ainda, mesmo nos tempos atuais, qualquer gesto de indignação por parte dos Presidentes de Tribunais, que administram a Justiça, para mudar essa vergonhosa realidade. Esse talvez seja o mais grave de todos os “nãos” já referidos. Mas, como diz o dito popular, “antes tarde do que nunca!”.



sábado, 2 de janeiro de 2016

ARTIGO - Assim, Assim (RV)

ASSIM, ASSIM, ASSIM
Reginaldo Vasconcelos*

Convivendo com a juventude de Copacabana no início dos anos 70 assisti pessoalmente ao advento da gíria “dê repente”, que anos depois apareceria como um terrível vício das comunicações orais em todo o Território Nacional, cacoete do qual já nos livramos.

Na sua gênese, a expressão idiomática carioca se aplicava apenas a responder a alguma coisa de forma imprecisa, correspondendo a aplicar um “talvez”, de maneira modernosa.

– Vai à festa amanhã? – alguém perguntava.

– Dê repente... – o outro respondia, aventando com uma possibilidade.

Mas com o tempo o “dê repente” penetrou em todas as frases – dê repente isso, dê repente aquilo – inclusive tomando valor afirmativo, e não mais somente condicional e hipotético.

– Vai à festa amanhã? – alguém perguntava então.

– Dê repente! – o outro respondia, agora em confirmação cifrada, como quem dizia antigamente: “Só se for agora!”.

Depois do “dê repente” veio a praga do “tipo assim”, que neste caso eu não sei de onde saiu. O “tipo assim” demorou pouco no repertório popular, mas se mantém fragmentado – “tipo” e “assim” – com seus usos específicos.

“Tipo”, na linguagem dos jovens, funciona como uma fita gomada para emendar suas frases toscas. Não tem acepção específica. “Eu vou viajar, tipo três horas”  aqui a significar um número aproximado.  Mas pode também ser usada de força solta, como no exemplo a seguir, retirado da Internet: “Daí, a mãe dele brigou com ele, e tipo, ela gritou tão alto que eu me assustei”.

Mas a praga do “assim” é bem pior, mais generalizada, uma muleta verbal intolerável de que lançam mão os falantes de todas as idades e de todos os níveis culturais.

“Assim”, simplesmente, pespegado no meio das frases, sem qualquer necessidade; o “então” tornado “então assim...”; e os porquês, por seu turno, “porque, assim,”. Eu comprei uma roupa, e comprei maquiagem... assim – diz uma moça entrevistada em uma externa da TV. Mais antipático ainda no belo sotaque carioca, em que a pronúncia da palavra é “ashim”. 



COMENTÁRIO:

Engana-se, dr. Reginaldo, ao dizer que o "de repente" se acabou. Ainda não! Os mais insuportáveis de todos esses cacoetes, hoje, em todos os quadrantes de fala, são " a partir" e o uso "obrigatório" de "presente", "presença" e "impacto". Note isso. Já quase deixo de revisar textos acadêmicos por não mais suportar tanta bobice. E as pessoas pensam que estão "aggiornadas", com usar essas besteiras, as quais vêm de São Paulo e do Rio de Janeiro. Quosque tandem?

Vianney Mesquita

ARTIGO - A Lei Sou Eu! (HE)


A LEI SOU EU!
Humberto Ellery*


L’État c’est moi” 
(Luís XIV – Y Saint-Germain-en-Laye,  1638 – Versalhes,1715)
              

A Presidente Dilma Rousseff alterou a lei que regulamenta o “Livro dos Heróis da Pátria”, para incluir o nome de Leonel de Moura Brizola. A Lei exigia, para a concessão da honraria, que o homenageado já tivesse 50 anos de falecido, (Brizola faleceu em 2004), justamente para que o distanciamento temporal evitasse a contaminação das paixões políticas na escolha do homenageado.

Atropelar as leis a seu bel-prazer não é estranho na vida pregressa de Dilma, é mais corriqueiro do que deveria, mas daí a considerar “Herói da Pátria” um político com uma biografia tão polêmica (para dizer o mínimo, e ser respeitoso com o defunto: de mortuis nihil nisi bonum), aí é “meio muito”, é "um pouco demais".

O tal herói nunca explicou direito porque Fidel Castro o chamava de “ratón”, ou “ratoncito”, nem o que fez com os milhões de dólares que o tirano lhe enviou para fazer “La Revolucion Brasileña”.

O Rio de Janeiro até hoje sofre com os traficantes aterrorizando a Cidade Maravilhosa, fortalecidos que foram pela desastrosa política de Brizola, quando governou o Estado (em duas oportunidades) : “A polícia não sobe o morro!”.

O jornalista Flávio Tavares, militante de esquerda, relatou, em detalhes, um diálogo dele com o seu aliado, Neiva Moreira (todos exilados no Uruguay), sobre uma lista de pessoas que deveriam ir para o “paredón” quando a revolução de Brizola triunfasse. Sua atitude foi de apenas retirar da relação o Ministro da Justiça do Presidente Castello Branco, o gaúcho Mem de Sá, que era seu amigo; os outros poderiam ser fuzilados.

Os seus “Clubes dos Onze”, células “revolucionárias” disseminadas em vários Estados do País, tinham listas semelhantes de pessoas condenadas ao “paredón”.  Esse político, que nem sequer os próprios filhos suportavam, agora é um “Herói da Pátria”. Eis outra grave pedalada contra a História.

Bebeto Ellery, O Indignado. 



NOTA DO EDITOR:

A indignação do articulista é compreensível, e a sua manifestação é legítima expressão da cidadania. Todavia, vale sempre lembrar que na democracia a caneta do poder muda de mãos regularmente.

Sua tinta é indelével perante a memória histórica, mas ela escreve sobre o palimpsesto jurídico, que se pode sempre raspar e reescrever, ab-rogando e revertendo, no futuro, os absurdos cometidos, quando melhor se fizer luz.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

MENSAGEM DE ANO NOVO (AS)

MINHA MENSAGEM 
DE ANO NOVO
Arnaldo Santos*


O término de um ano e o início de um novo fazem um corte na linha do tempo e nos trazem a fantástica sensação de renovação da vida, com novas atitudes e a incorporação de novos valores em cada um de nós.

Diante dos nossos olhos, sem que nada pudéssemos fazer, vimos, em 2015, o fogo que se irrompeu a partir das centelhas do embrutecimento da humanidade, queimar vidas inocentes, cuja memória nos remete aos escombros da insensatez dos atentados terroristas, as guerras ainda em curso, a violência urbana, e ao drama humano dos refugiados, que tentando uma nova perspectiva de vida, nos ricos países da Europa, muitos pereceram nas águas geladas do Mediterrâneo.

Aos que sobreviveram à travessia dos mares revoltos, as sociedades ditas “modernas e civilizadas" lhes recepcionaram com centenas de quilômetros de cercas elétricas e soldados bem armados, numa clara demonstração de rejeição e desprezo pelo ser humano. (O mundo é "globalizado", mas as pessoas, além de serem expulsas de suas próprias nações, são impedidas de habitar em outras).

Como nos ensina o Papa Francisco, convido todos a que, em 2016, valorizemos mais as pessoas, pois elas transbordam de virtudes, as quais, por egoísmo, às vezes nos recusamos a reconhecer. Quanto aos defeitos, os nossos principalmente e os dos outros, devem merecer toda a nossa tolerância e compaixão.

Adotemos, a partir de agora, e que seja uma constante em nossas ações, gestos mais simples e uma vida mais sóbria, livre da opulência e da aparência. Procuremos "SER", pois só assim vamos poder nos libertar da doença do "TER" que tanto nos oprime, nos consome e faz erodir os valores mais sublimes como a solidariedade, o respeito e a tolerância para com os outros, especialmente para com aqueles que formam as minorias. (Do contrário, o ano novo já se iniciará caduco).

São esses os sentimentos que desejo que cultivemos em 2016. "CUIDAR", que essa palavra tão simples, tão singela, e riquíssima em significados, seja a concepção de vida para todos nós.