ORTODOXIA E DEMOCRACIA
Rui Martinho Rodrigues*
O Renascimento coincidiu com o desmoronamento
da escolástica, que causou uma orfandade paradigmática. Houve então uma
explosão de tendências as mais diversas, desde de místicos como Nostradamus
(1503 – 1566) até cientistas como Galileu (1564 – 1642). A pós-modernidade, com
o relativismo, invocando equivocadamente as físicas relativista e quântica, deslumbrada
com o perspectivismo do sujeito cognoscente, como se a objetividade fosse
impossível, destruiu todas as referências, valendo-se do relativismo cultural,
cognitivo e axiológico.

A desorientação e a anomia assim cultivadas encontram
no hedonismo uma forma de escapismo. Consumidores de drogas ilícitas financiam
o crime, mas fazem discurso moralista no campo político e social. O sujo
radicaliza a cobrança moral contra o outro. A nova ortodoxia paradoxal
reivindica tolerância para os transgressores da lei e dos valores tradicionais,
mas é intolerante com quem não se rende aos “novos gestores da moral”. O valor
do outro é preconceito ou fobia.

Progressivamente eliminávamos os preconceitos. Já não existem igrejas só
para pretos, que já não são barrados no Itamaraty ou na oficialidade da
Marinha. A miscigenação generalizada mitigou a discriminação. A intolerância
“politicamente correta” é vontade de potência e ressentimento (Nietzsche (1844
– 1900); e de parentar virtude (Maquiavel 1469 – 1527). Relativismo cultural e
cognitivo produziram o paradoxo da ortodoxia seletivamente permissiva, do
puritanismo devasso e dos pseudodemocratas agressivos e intolerantes. Os mais
letrados são os mais desorientados, vítimas dos sofismas de pensadores, em
geral de conduta desabonadora (Paul Johnson, “Os intelectuais”).
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