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domingo, 23 de agosto de 2020

CRÔNICA - Todo Menino é Cheiroso (RV)

TODO MENINO É CHEIROSO

Reginaldo Vasconcelos*


Fábio Nogueira foi meu colega de trabalho. Pertencia à casta dos funcionários fundadores do Banco do Estado, um dos cardeais da empresa, especialmente nos meandros do crédito rural e industrial. 

Não sorria jamais, e, assim mesmo, na juventude, fora do corpo de redatores de humor dos programas cômicos da televisão no Ceará, autor de blagues do Renato Aragão, de roteiros de "Praxedinho e Anicetinha", uma das primeiras comédias de situação do teleteatro cearense.

Ele descendia da família que venceu os índios paiacus, de Pacajus, e conquistou as suas terras, para si e para uma santa da Igreja. Era valente e irritadiço, não obstante dono de tiradas havidas com um senso de humor privilegiado.

Bebia bem, e um dia foi embriagado dar aula aos novos gerentes do Banco, marcada para um sábado. Gostava de mim, fazíamos farras juntos no meu Karmann Ghia, que ele gabava como “um carrinho diferente”. Tínhamos intimidade, ele tolerava o meu conselho de mais jovem.

Nesse dia, ao chegarmos à calçada, eu lhe recomendei que evitasse beber antes das aulas aos gerentes, que todos haviam notado que bebera, que isso não ficava bem para o elevado conceito profissional que conquistara. Sério ele ouviu, e discretamente agradeceu.

Nessa aula ele denunciou que os fiscais de crédito rural das agências do sertão costumavam não realizar as vistorias que lhes eram designadas. Que colocariam o automóvel sob um cepo e fariam o pneu girar no ar, para cobrar a quilometragem nas diárias... mas, ficavam em casa e forjavam os relatórios.

Em sua análise, geralmente eram jovens funcionários que exerciam essa função, certamente recém-casados, normalmente com um bebezinho em casa – “e todo menino é cheiroso!” – de modo que eles preferiam ficar cheirando os filhos a meterem-se nas fazendas – assim ele advertia os futuros gerentes, no sentido de que marcassem colado os que iriam comandar.

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O Ayrtão, meu pai, era um bom contador de histórias. Como tal, um grande observar do mundo e dos homens. Os fatos mais comezinhos que presenciasse, ou mesmo que ouvisse contar, nos seus detalhes mais facetos – e os tipos burlescos que cruzassem o seu caminho – todos eles entravam para sempre no seu particular anedotário.

Das muitas histórias que ele gostava de contar estava aquela de um mecânico bêbado e imundo, trazendo pela mão um filho pequeno, tão sujo quanto o pai, os quais entraram no bonde de que o narrador era passageiro, ainda na sua juventude.


A dupla sentou-se, e o pai – talvez notando os olhares críticos e os gestos de repulsa pelo pouco asseio que ostentavam (era um tempo em que só se saía de casa muito limpo e alinhado) – a espaços de tempo o pai cheirava o pescoço do menino e vociferava: “Ô menino cheirooooso!!!!”. Daí a pouco, cheirava de novo e repetia: “Mas ô menino cheirooooso!!!”.
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 Já pai dos dois primeiros filhos, eu aos três anos, Ayrtão me levava consigo às suas viagens à fazenda, a quatrocentos quilômetros de estrada de barro, no meio de uma seca tenebrosa.

Dois anos depois um inverno forte fez arrombar o açude do Orós, e nós dois estávamos lá na fazenda, sem assistência feminina, envolvidos naquelas urgências da ruptura da represa, a que fomos assistir por toda uma noite e madrugada.

Na tarde do dia seguinte tomamos um avião DC-3 na direção da Capital, entre políticos e engenheiros que haviam acompanhado aquele evento, ambos cansados e famintos, sujos de barro até a alma, eu só de calção e descalço, que em algum ponto da aventura perdera os chinelos.

Na chegada noturna na cidade meu jovem pai foi repreendido pela minha mãe e pela mãe dele – “Olha o menino, imundo no meio do povo, dentro daquele avião!” – e eu não sei se me acharam cheiroso, mas, de que me cheiraram, eu me lembro. 


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Dou toda razão ao Fábio Nogueira, ao mecânico bêbado, a minha mãe e minha avó que, naquela noite, ainda sujo, me cheiraram. Sim, todo menino é cheiroso, e eu que já cheirei duas filhas e dois netos que hoje já recendem a gente grande, resta ainda a última neta, que ainda é um botão de flor. 


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