OS DOIS BRASIS
Rui Matinho Rodrigues*
Jacques Lambert (1901 – 1991), na obra “Os Dois Brasis”, escrita
entre Vargas e Kubitschek, sob a égide do desenvolvimentismo, destacou a
dualidade da nossa formação histórica e cultural como um desafio ao nosso
desenvolvimento, pelos erros do desencontro dos brasis.
Roger Bastide (1898 – 1974), na obra “Brasil, Terra de Contrastes”,
assinalou a diversidade do meio natural e dos aspectos sociais, econômicos e
culturais. Registrou, na educação, as diferenças entre os diversos níveis e
regiões; e a descontinuidade das ações do Estado. Euclides Rodrigues Pimenta da
Cunha (1866 – 1909), na obra “Os Sertões”, fala do sertanejo como um tipo
distinto do brasileiro do litoral.

Há um certo flerte da revolução dos costumes com o niilismo e até
com o solipsismo induzido pelo relativismo cognitivo e axiológico. A
contradição entre o pensamento coletivista e a hipertrofia do individualismo é
notória. A libertação dos liames sociais da organização familial se fez em nome
do combate ao patriarcalismo. A crítica aos padrões sociais, havidos como
opressivos, representados pela imposição de padrões culturais como os papéis sociais,
inclusive nos aspectos identitários, animados pelo multiculturalismo
diferencialista, exacerbou antagonismos, fragilizou solidariedades, levou ao
eremitério, aos guetos, ao esgarçamento do tecido social e à anomia. As
consequências desagradáveis e onerosas do hedonismo foi o que restou no deserto
de valores imposto pela crítica radical dos costumes.
Os adeptos do progresso, entendido como uma ordem imaginada por
intelectuais geniais, superior ao ordenamento espontâneo de uma experiência
milenar, sentiram-se fortes por convencerem os letrados, cosmopolitas e
“esclarecidos” da cientificidade de suas ideias. Uma estranha cientificidade. Pretende
mais do que descrever a realidade. Quer prescrever o dever ser. Invoca valores
tradicionais, como solidariedade e justiça, mas contesta a ética das tradições.
Não abandona suas teorias quando elas fracassam, esquivando-se do compromisso
com a falseabilidade do racionalismo crítico (Karl Raymond Popper, 1902 –
1994).

Um Brasil não conhece o outro. A divulgação de uma reunião do
ministério, havida como capaz de implodir o Governo, recebeu expressiva
aprovação do outro Brasil. Elites fazem leis que os estrangeiros aprovam e o
outro Brasil padece. Os reis filósofos de Platão (428/427 – 348/347) ou os
intelectuais ungidos de Thomas Sowell (1930 – vivo) não conhecem os governados
de John Locke (1632 – 1704), que lhes outorgam o poder.
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