A REVOLTA DAS ELITES
Rui Martinho Rodrigues*
Ortega y Gasset (1883 – 1955), em sua obra “A Revolta das Massas”,
contemplando o mundo a partir da Europa, entre as duas guerras mundiais,
observou que as conquistas liberais do Século XIX haviam produzido liberdades,
garantias individuais, um crescente bem-estar material e uma tendência, nas
gerações nascidas após as conquistas aludidas, para desvalorizar os benefícios
citados, pensando exclusivamente em gozar as vantagens laboriosamente
construídas.
O filósofo espanhol foi perspicaz, chegou a vaticinar o advento da
União Europeia. Valores passam por transformações históricas. Viu uma tendência
para o que poderíamos considerar futilidade. Hoje, porém, as massas assumem
grande protagonismo político. As redes sociais estão saturadas de manifestações
políticas.

As manifestações aludidas são, muitas vezes, críticas ácidas,
vazadas em linguagem deselegante, contendo informações falsas e raciocínios
falaciosos. É esta a razão da revolta das elites intelectuais em face do
ativismo das massas travestidas de internautas? Algumas pessoas letradas e
inteligentes, formadores de opinião como professores e outros profissionais,
todavia, praticam as mesmas condutas dos ativistas populares na internet. A
própria história da ciência é um cemitério de erros. Equívocos não são
exclusividade dos simplórios. Agressividade também não. A quantidade e a
frequência de tais variam, mas a diferença quantitativa não é de natureza
ontológica, não modificam o que a coisa é.
A política não pertence ao campo da
técnica, por isso nivela por baixo eruditos e apedeutas. Intelectuais erram e
têm mais dificuldade de reconhecer e corrigir os próprios erros, resistindo
poderosamente a tal reconhecimento por ter argumentos para defendê-los. É a
incomunicabilidade dos paradigmas, conforme Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996) e
o obstáculo epistemológico a que se refere Gaston Bachelard (1884 – 1962).
A pele de cordeiro não consegue cobrir o rabo de lobo daqueles que
defendiam o ativismo popular. Quando as massas assumem o protagonismo e a
criticidade que os intelectuais tanto estimulavam, logo causam horror. É a
revolta das elites dizendo: manifeste-se, busque o seu “emponderamento”, desde
que seja do modo como nós queremos, como nós ditamos, porque você é um idiota a
quem a internet não deveria entregar uma tribuna. O mundo transparente desmoralizou
as vestais, os vaqueiros da boiada cidadã (robôs de partidos), bem como os seus
ventríloquos, e causando a revolta das elites.
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