sexta-feira, 13 de abril de 2012

ACLJ LAMENTA A PERDA DE ITAMAR FILGUEIRAS


A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, representada pelo acadêmico Aluísio Gurgel do Amaral júnior, se fez presente ao velório do professor de português Itamar Filgueiras.

Itamar era membro da Academia Cearense de Letras, considerado uma verdadeira legenda no ensino de português em nosso estado. Morreu aos 66 anos de idade na quinta-feira, último dia 05 abril, após passar por uma cirurgia, em decorrência de um aneurisma da aorta abdominal.  

O corpo foi velado na Funerária Ethernus, no bairro da Aldeota, e, a pedido do próprio professor, vergava a bata com que ele dava aulas, e tendo no bolso as canetas que habitualmente utilizava. O corpo foi cremado na segunda-feira (09/04), em cerimônia reservada a familiares.

Segundo Aluísio Gurgel, a sentinela ao corpo do ilustre professor e literato, titular da Cadeira de nº 5 da ACL, deu ensejo ao encontro ocasional de grandes luminares das letras e do magistério no ceará, que entre inúmeros alunos e ex-alunos lamentavam a irreparável perda, enquanto rememoravam marcantes passagens de suas vidas junto ao mestre.

«Ele era referência no ensino da língua portuguesa em todo o território nacional», declarou o Deputado Heitor Ferrer. O momento de dor foi mitigado pela confraternização de tantos amigos e discípulos. «Itamar agora é luz e brilha na eternidade», sentencia Aluísio Gurgel.  

domingo, 8 de abril de 2012

ACADÊMICOS NA TV

A televisão cearense reprisou neste domingo, 08 de abril, matérias recentes com dois acadêmicos da ACLJ, o engenheiro Cássio Borges, que é Membro Honorário, e o cineasta Rosenberg Cariry, titular da Cadeira de nº 27.

A TV Assembleia exibiu novamente uma conferência sobre os recursos hídricos no Nordeste, que o Dr. Cássio Borges proferiu, com grande brilhantismo e erudição, no final do mês passado, em audiência pública promovida pela Deputada Eliane Novais no dia Internacional da Água (29/03). Aliás, a mesma exposição ele já fizera em outros estados da Federação.


Já o programa Memória Viva, da TV O Povo, com Rosenberg Cariry, entrevistado polo jornalista Ruy Lima, foi também reprisado neste domingo. O cineasta fala de sua vida, de sua carreira, e pontifica sobre o passado, o presente e o futuro do cinema nacional. Fala também da recente viagem que fez pelo interior cearense com o dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, com quem filmou um documentário. 


sábado, 7 de abril de 2012

SOBRE O BIG BROTHER BRASIL


O que a sociedade brasileira está discutindo, a propósito do programa Big Brother Brasil, é a moralidade dela mesma. Nós, e de certa forma o ocidente todo, nos tornamos uma sociedade amoral e hedonista. A dansinha da garrafa, por exemplo, há alguns anos, era estimulada por certos pais, que se divertiam vendo filhas, ainda criança, praticando a coreografia sensual. As drogas alucinógenas, por outro lado, reinam em todo o ocidente.

A explicação desse fenômeno é muito simples: o rescaldo de três guerras mundiais, duas quentes e uma fria, inflou a propaganda, dos dois lados, sob a bandeira da libertação, da ampla liberdade, ao longo do século XX. Em consequência, tornamo-nos uma sociedade hedonista e sem moral, na qual “é proibido proibir". Ou seja, o avanço da democracia levou à vulgarização e ao alargamento do conceito. Nesse processo, qualquer “autoridade” foi confundida com “autoritarismo”.

A psicologia e a pedagogia, formas de conhecimento extremamente inexatos e nebulosos, prenhes de ideologia, difundiram a ideia ridiculamente falsa segundo a qual o diálogo é a única e infalível forma de resolver todos os problemas enfrentados por educadores. Isso afastaria toda e qualquer forma de disciplinamento, agora estigmatizado como "violência", "desrespeito", ou ação "deformadora e traumatizante do educando".

Pais, clérigos e professores, ansiosos por mostrarem-se modernos e esclarecidos (de fato seriam "pós-modernos"), movidos pelo comodismo, uma vez que enfrentar rebeldia de filho é desgastante e trabalhoso, aderiram sofregamente aos modismos do "politicamente correto". A par disso, os aludidos educadores cometeram suicídio moral, adotando condutas que fariam corar até o "frade de pedra" da serra de Uruburetema.

Desmoralizados ou neutralizados os tradicionais gestores da moral, a onda pós-moderna entregou a missão de educar aos artistas, intelectuais e ativistas políticos, que se empenham em demolir todas as referências morais. Alegam que tais referências "neurotizam", contrariam a "natureza humana", não encontram fundamento em "verdades científicas", invocando ainda o "relativismo" ético e gnosiológico.

Assim, o teocentrismo foi substituído pelo antropocentrismo, para uns; para outros, pelo cosmocentrismo (a matéria cósmica, com supostas "leis naturais", no centro de tudo). Ora, quando o homem "é a medida de todas as coisas", nos termos da filosofia sofista, temos o fim dos limites pedagógicos.

Historicamente, isso não deu certo na civilização grega, nem na romana. Artistas e intelectuais, que nunca em tempo algum foram cultores dos bons costumes, agora como arautos da “nova moral”, não podem criticar o BBB – salvo quando tenham interesse político em implantar o controle dos meios de comunicação, nos termos da "vontade de potência" denunciado por Nietzsche. Então, o que temos de fato é um projeto de ditadura dos "politicamente corretos".

Esses adeptos do relativismo frouxo, tanto no campo moral quanto epistemológico (teoria do conhecimento), não podem reclamar do BBB, como de resto, não podem reclamar de nada. Para eles, não seria o homem a "medida de todas as coisas", consagrando a arbitrariedade e a irresponsabilidade?

Os novos gestores da moral não sabem como conciliar o relativismo radical com a afirmação das suas próprias verdades. Quando nenhum conhecimento merece crédito, quando nenhum valor moral tem valor em si mesmo, o relativismo moral e cognitivo também perde o status de verdade, já que tal não existe. Os alegados efeitos deletérios das medidas disciplinadoras, "produzindo neuroses e traumas", também são afirmações mortas pela doença do relativismo radical.

A alegação é de que a educação contraria a natureza, já que estaria em franca contradição com as "pulsões de vida", a que Freud referiu. Isso, porém, não seria relativo? Quando se diz que certas condutas havidas como imorais pela moral tradicional contrariam a natureza, não mais ouviremos que o homem não pertence à natureza? Que não existe "natureza humana"? Que o homem é inteiramente "construído" historicamente?

O que se conclui é que quem está corrompida é a sociedade, não apenas a TV. Médicos fazem intervenções desnecessárias, advogados chafurdam na lama do crime, juntamente com policiais e demais agentes da lei; clérigos se envolvem em crimes sexuais; estudantes praticam corrupção no seio dos seus movimentos políticos e fraude nos trabalhos escolares.

A expansão do conceito de "bem público" ou do "interesse público", submetendo-nos todos ao controle do Leviatã (Estado hipertrofiado), não será a solução. Os agentes do Estado também estão corrompidos. Veja-se o caso das drogas alucinógenas: a repressão é inteiramente falha, apesar do comércio de drogas, como qualquer outro comércio, ser necessariamente público, do conhecimento de todos. O nome disso é "corrupção generalizada".

Esses "novos gestores da moral", não obstante se declarem relativistas, defendem violentamente dogmas pétreos, em nome dos quais querem regulamentar as relações entre pais e filhos, com a famigerada "lei da palmada"; querem controlar o que nós comemos, proibindo o consumo de frituras; querem nos proibir de ter meios de defesa, alegando que armas são perigosas para quem as tem (isso não é relativo?), declarando-nos incapazes de tomar decisões, de exercermos a guarda de armas e de utilizá-las criteriosamente.

Dizem-se "politicamente corretos", mas estão muito longe da coerência. Talvez se pautem pela frase atribuída ao Assis Chateaubriand, segunda a qual "a coerência é um atributo dos imbecis". E nos levam a recitar esta outra sentença, do meu homônimo Rui Barbosa: "De tanto ver triunfarem as nulidades (...) o homem sente vergonha de ser honesto" (e de ser coerente). De minha parte, ando me sentindo um imbecil.


Por Rui Martinho Rodrigues 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

BARES, AMIGOS E TIRA-GOSTOS - Crônica

A vida é passageira. Muito chata em alguns momentos, noutros nem tanto. Já imaginaram vocês o quanto seria absolutamente chata se não fosse finita?

Nesta madrugada de céu cinzento e chão molhado, acordei um tanto reflexivo, pensando na vida. Revi, como num instantâneo, o que acumulara até então. Naturalmente que não revelei muita coisa, além de filhos, dívidas e as amizades que fiz.

Recordei o doce período da infância para me certificar de que das amizades construídas naquele início de passeio, poucas perduraram. A maioria se perdeu nos becos e esquinas desta sofrível caminhada.

Cheguei à conclusão de que amigos, confiáveis ou não, fazemos nas mesas de bares, em torno de copos e tira-gostos. O trabalho, a que muitos conferem a dignidade da vida humana, para mim é apenas um atributo que nos garante a sobrevivência neste mundo cão em que nos digladiamos, tendo como pano de fundo a “livre” concorrência.

Portanto, minha história de vida – rica ou não – resume-se a um movimento contínuo por entre bares, na companhia de amigos e tira-gostos. Voltei ao tempo em que, ainda menino e seguindo a sombra de meu pai, saía nas manhãs de domingo para apanhar os chamados jornais do sul – O Globo, JB, Estadão e Folha – na banca do Almeida, na Praça do Ferreira e depois esticar até o bar do Sá Filho, o Flórida.

Todos falavam ao mesmo tempo, quanta confusão! Impressionava-me como todos se entendiam naquela babel de palavras. Lá, além do primeiro copo de cerveja, me foi revelada a delícia que era o seu fígado acebolado. Até hoje me trás água na boca só de lembrar...

Agora, cercado de outras responsabilidades, preencho as manhãs de domingo com idas ao São Sebastião para acompanhar a gestora do lar em suas compras. Entanto, para não perder a viagem, sento com amigos no restaurante “5 Estrelas” – tocado por cinco agitadas senhoras – para atualizar as fofocas e comer um assado de panela. O melhor assado de panela da cidade...

Às sextas-feiras, vou ao Dallas, ambiente burguês de cozinha internacional, que, se por um lado não é grande coisa, por não oferecer um tira-gosto exclusivo, por outro é imenso, pela corriola que lá se reúne. Amigos de interesses diversos, mas que de uma hora para a outra se travestem de economistas, sociólogos ou cientistas políticos para, num estalar de dedos, apresentarem soluções para todos os problemas do Brasil...

Uma vez por mês vou ao restaurante do Alfredo, lá pras bandas da estrada do fio. Noitada boa, papo animado regado a bons vinhos e charutos, tendo como pivô o prato da casa: o pombo cheio. Como diria o Macário Batista, é iguaria para se comer rezando. Mas cuidado jornalista, nunca peça as fêmeas, indigestas para os homens, e que costumam engordar em demasia as mulheres...

De repente, chama-me a atenção o despertador barulhento. É hora de largar a vida e retornar à batalha diária pela sobrevivência...

Por Dorian Sampaio Filho

segunda-feira, 2 de abril de 2012

NUDEZ REPUBLICANA

Segundo a famosa fábula de Andersen, o rei desfilava nu, imaginando estar usando roupas de um deslumbrante tecido especial que somente as pessoas inteligentes poderiam enxergar – segundo o falso tecelão que o vendeu ao rei, por uma quantia milionária.  

Obviamente, o próprio rei não via a ficta roupa, mas não podia admitir isso. Se o fizesse se confessaria idiota, pois todos acreditavam que apenas os mais argutos poderiam ver o tecido mágico. Os áulicos da corte, na mesma linha, elogiavam as vestes imaginárias do monarca, pois precisavam fingir que as estavam apreciando.

Do mesmo modo, todo o povo do reino notava a nudez do rei, mas cada súdito em particular fingia perceber os belos trajes reais, e os aplaudia, pois ninguém queria se revelar um parvo, já que de fato não os podia ver. Até que uma criança, na sua pureza infantil, gritou: “O rei está nu!”. E só assim se rompeu o véu da farsa.

Na vida brasileira há sempre reis republicanos despidos de sua vestimenta moral, todos sabem e comentam, mas ninguém faz nada, porque não aproveita a ninguém afrontar os poderosos. Em regra, para participar do poder é preciso pactuar com essa nudez da ética, ou pelo menos silenciar sobre ela, pois os que tentam rasgar o véu ao final são massacrados.

Por exemplo, todo mundo sabe que cada mandato eletivo tem um preço em dinheiro, cotado em dólares ou euros, e que os vencimentos de um parlamentar, por todo o mandato, nem de longe podem compensar esse valor.

Então, exceto fenômenos como o índio Juruna e o palhaço Tirifica, que se candidatam pela bizarrice notória e que o povo elege para protestar, obviamente todo eleito tem financiadores, entre empreiteiras e partidos políticos, os quais vão lhe cobrar favores econômicos que dependam do cargo assumido.

De repente alguém cai em desgraça na mídia, é filmando recebendo recursos, é gravado prometendo favores, e tudo se afigura como uma grande exceção à regra, tudo parece uma grande novidade.

Que bandido! Que ladrão! Todos o criticam, todos o execram, inclusive colegas de partido passam a apontar-lhe os dedos sujos. Cabe perguntar: “E cadê os outros?”, como indagava o macaco Sócrates. Eu respondo: os outros se misturam à turba para apedrejar a “Geni” da vez, para que pareçam inocentes.

A Presidente, então, sob o clamor do povo, toma da vassoura e faz a sua faxina tópica, coisa que não podia fazer antes para não descumprir acordos, não perverter o sistema político, não perder a governabilidade, não abalar o castelo de cartas que esconde a nudez republicana.

A Polícia Federal é enfim acionada, os Tribunais de Contas abrem sindicâncias, os grandes pretórios judiciais são provocados, e tudo fica no umbral burocrático, até que novo escândalo seja deflagrado pela imprensa, para novamente servir algum sangue fresco ao populacho.

É também consabido que as contratações de empresas privadas para execução de obras públicas são a grande fonte do caixa dois eleitoral, em todo o país e em todas as esferas. Seja por meio de falsas concorrências ou de sua dispensa emergencial premeditada, a corrupção grassa, e como move recursos não contabilizados, essa prática tanto engorda campanhas políticas como gera enriquecimento ilícito.

Assim, exatamente como na fábula de Andersen, o rei vive nu entre nós, mas ninguém quer, nem pode, se rebelar contra os esquemas amorais. Até que a imprensa, assim como o menino da fábula, de vez em quanto diz e demonstra que uma determinada nádega política está exposta, que uma certa genitália real está hirta e ativa contra o interesse público. Então, e só então, com um novo segredo de polichinelo escancarado, a população do país se escandaliza e revolta.

Ora bolas, só os idiotas não sabem que existem pactos entre as empreiteiras dos governos, que estabelecem entre si um confortável sistema de alternância de contratos, o que de fato já constitui uma verdadeira “ética de mercado” – e ninguém se espante com isso, que o crime organizado vive de uma rígida ética própria.

Moral da história: o esquartejamento de meia dúzia de inditosos bodes expiatórios pontualmente flagrados pela mídia e demonizados pelo povo vai saciar a hipocrisia geral, mas não vai mudar essa cultura secular, muito bem acomodada no país. Infelizmente, nem mesmo a bem intencionada Presidente Dilma vai conseguir vestir a nudez republicana, antes que se faça uma improvável reforma política radical. 

Postado por Reginaldo Vasconcelos 

sexta-feira, 30 de março de 2012

NOTA ACADÊMICA - ACLP

Aconteceu nesta quinta-feira, dia 29 de março, no Palácio da Luz, a posse da nova Diretoria da Academia Cearense da Língua Portuguesa, eleita para o biênio 2012-2014.

A composição da nova Diretoria da Academia Cearense da Língua Portuguesa está assim constituída:

Presidente: Vicente Alencar;
1º Vice: Révia Herculano;
2º Vice: Regina Barros Leal;
1º Secretário: José Alves Fernandes;
2º Secretário: Myrson Melo Lima;
1º Tesoureiro: Giselda Medeiros;
2º Tesoureiro: Aíla Sampaio;
Diretor de Comunicação: Ítalo Gurgel.

O 1º Secretário da nova Diretoria da entidade congênere, o Prof. José Alves Fernandes, é também Titular Emérito da Cadeira de nº 39 da ACLJ, que tem como patrono o saudoso publicitário Tarcísio Tavares.

Informa Vicente Alencar

O RATTO E O QUEIJO DE CEM CONTOS Crônica


Tratam-se carinhosamente por Rattos: Ratto Pai, Ratta Mãe, Ratta Filha e Ratto Filho. Rattinho e Rattinha são diminutivos inevitáveis. É assim porque fazem ratices como, por exemplo, abrir parcialmente potes de requeijão sem retirar completamente o lacre, deixar farelos de pão na mesa, ou comer o último pedaço de pudim e guardar a forma vazia na geladeira como se ainda contivesse alguma coisa. Além de todos gostarem de queijos, claro. O “T” dobrado é para diferenciar dos roedores comuns.

Pois bem, naquele dia, Ratto Pai foi ao centro da cidade desbloquear o cartão magnético de sua conta bancária, que, de uma hora para outra, negava-se a realizar saques e depósitos. Restabelecidas a funções do cartão, fez uma retirada de cem reais para atestar que estava tudo certo. A operação foi realizada com sucesso! Na sequencia, aproveitou a viagem e passou num tradicional comércio especializado em queijos da terra, onde comprou uma peça de quilo e meio de coalho, pagando a despesa com a nota de cem, que pouco tempo passou no bolso de sua camisa.

Chegando em casa à noite, fez um balanço dos gastos do dia, dando por falta de certa quantia. Refez as contas, fez de novo. O saldo não fechava com o que deveria ser. Depois de muito pelejar com a calculadora, percebeu que lhe faltava o troco do queijo, algo em torno de setenta e cinco reais. Primeiro ficou chateado com o prejuízo, mas, depois, resolveu curtir a situação.

Assim, quando a Ratta Mãe chegou do trabalho, deparou-se com uma cena inusitada: o Ratto Pai estava sentado solenemente à cabeceira da mesa da sala de jantar, com uma garrafa da melhor cachaça posta à sua frente. Acompanhavam dois pequenos cálices de cristal, talheres finos, azeite de boa qualidade, prato de porcelana onde repousavam cubinhos de queijo e guardanapos de linho. Tudo isso sobre uma delicada toalha e com uma música suave ao fundo.

“Mas quediabeisso, Rattinho?”, quis saber a esposa, curiosa e já rindo da marmota. “Mulher, é precioso muita pompa e circunstância para degustar um queijo coalho de cem contos!”, respondeu ele, explicando em seguida, tim-tim por tim-tim, o que ocorrera naquele dia. Como havia um segundo lugar posto à mesa, ela resolveu lhe fazer companhia naquela ratice, e saborear, também, o tal “queijo de cem contos”. Dizem que estava uma delícia!




Por Altino Farias

quinta-feira, 29 de março de 2012

HOTEL SEIS ESTRELAS – Crônica

Viajar sempre fez a alegria dos meus dias. Em férias pelas ruas do Aracati, ou nos sítios de Tururu, minha infância foi um prazer só. Adolescente, contava os dias para a chegada  do carnaval em Salvador ou da partida do trem rumo à exposição do Crato.

As viagens, no entanto, mudam de significado com o avançar da idade. Quando adulto, o que antes era pura aventura, agora  significa aprendizado. O grande barato fica por conta do ineditismo do lugar visitado. Sua música, gastronomia, história e, enfim, a sua gente.
 
Mas, curioso mesmo é o viajar dos idosos. Com a experiência que acumularam na vida, juntam numa combinação sábia a aventura e o conhecimento a um novo fator agora marcante: a hospedagem. De detalhe do passado, o hotel passa a ser essencial nos planos de viagem da chamada terceira idade.

Talvez por não ter atingido a idade do saber dos idosos, ou, quem sabe, por ainda considerar que o hotel se faz necessário apenas para guardar os pertences, não trago na lembrança os lugares em que me hospedei. Mas como a exceção é que faz a regra, lembro de  um hotel sim-senhor!

Certa vez, chegamos boquinha da noite – eu e amigos de imprensa – no longínquo “reino” do Dr. Eunício Oliveira, Lavras da Mangabeira, para observarmos uma reunião política.

Não tínhamos onde ficar. Procuramos abrigo de porta em porta, como se fossemos reis magos, sem estrela guia, perdidos nos sertões do Cariri. Lá pras tantas, uma santa alma nos acolheu. Fomos alojados nos fundos de seu estabelecimento, sob uma latada de maracujá e na vizinhança de um galo despertador e de suas companheiras.

Redes armadas e atadas a um mourão central do caramanchão, que permitia que a mexida de um se propagasse para os outros, nos deitamos para jogar conversa fora até sermos vencidos pela embriaguez do sono.

Fazia uma noite belíssima naquele verão sertanejo. A luz da lua passava por entre as ramagens do maracujazeiro; o céu era um salpicado de estrelas... Acordamos madrugadinha com o insistente bom dia do senhor galo.

De volta pra casa, o interrogatório de praxe:
- A viagem foi boa?
- Surpreendentemente ótima. Amor, você sabia que em Lavras da Mangabeira tem um hotel de pra mais de cinco estrelas? 

Por Dorian Sampaio Filho  

segunda-feira, 26 de março de 2012

NOTAS ACADÊMICAS

Vicente Alencar
O jornalista Ítalo Gurgel, presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa, dará posse à nova Diretoria eleita, na quinta-feira, dia 29 de março, a partir das 19:30h, no Palácio da Luz, Rua do Rosário, 01, sede da Academia Cearense de Letras. O novo presidente será o jornalista Vicente Alencar.


O jornalista Ossian Lima, que integra a crônica política do Estado do Ceará, editou em Curitiba, no ano passado, através da Estúdio Protexto, uma obra de fôlego, que tem recebido os elogios de todos aqueles que tiveram oportunidade de conhecê-la. Trata-se do LIVRO MUNDIAL DOS PROVÉRBIOS POPULARES, em que, numa exaustiva pesquisa, mostra o cotidiano verbal através do mundo.

O presidente da Academia Cearense de Letras, Pedro Henrique Saraiva Leão, médico e poeta, depois de muito tentar, conseguiu a verba necessária à restauração do quadro de Raimundo Cela, que se encontra no auditório do Palácio da Luz. A tela mostra a emoção causada pela redenção dos escravos, no Ceará, em 1884, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea. É a principal obra do acervo da ACL.



sábado, 24 de março de 2012

CHICO ANYSIO DESCANSOU


Informaram que morreu o Chico Anysio. Ecoou entre a Serra Gaucha e a Ibiapaba, a Serra do Mar e as Alterosas, a Chapada do Araripe e o Pico da Neblina, entre a Mantiqueira e a Serra dos Órgãos, principalmente entre a Serra da Aratanha e a de Maranguape, pelo Maciço de Baturité, um lamento lacrimoso. Chico Anysio morreu!

Ao contrário, penso que Chico Anysio descansou. Ele realizou os doze trabalhos de Hércules ao longo da vida e da carreira, desde a meninice até os 80 anos de idade. Criou e incorporou mais de 200 personagens, completos e distintos, produziu mais uns tantos filhos nos seis casamentos, publicou muitos livros, brilhou no teatro, no rádio, na televisão e no cinema. Estava idoso, doente, encontrara na sua Malga a mulher definitiva. Chico Anysio descansou.

É certo que ele não queria parar, que a família o queria ainda muito, que a Nação queria mais. Mas ele cansara, sofria, estava em paz com a consciência. Chico era uma pessoa comum: mau gestor de finanças, ex-marido caloroso, afetuoso pai, amigo prestimoso. Dava asas à Rede Globo em altos níveis de audiência, a Globo lhe cortava as asas para que não subisse mais que ela. Ele batia na empresa, fazia desabafos. Ela perdoava e abafava.

Mas, como profissional, Chico Anísio era um gênio. Um Miguelangelo, um Leonardo da Vinci, um Van Gogh, um Beethoven, um Mosart, não  mereceriam dele reverência especial. Era um deles, um gênio criativo, na comedida e bastante dimensão. Não apelava para o mau gosto, não transbordava, não sonegava nem excedia. Era gênio por que era, não porque queiramos por bairrismo.

A acadêmica Karla Karenina, que trabalhou com ele na TV, convidou-o para ser Membro Honorário da nossa Academia. Ele concordou, íamos ao Rio lhe entregar o diploma, iam conosco os acadêmicos Djalma Pinto e Cândido Albuquerque. Então seu filho André Lucas nos comunicou que a doença se agravara e ele voltara a se internar, de modo que a nossa homenagem se tornou nuncupativa.
 
Lavivá, Chico Anysio! Antes de te prantear, te agradecemos.

Por Reginaldo Vasconcelos        

sexta-feira, 23 de março de 2012

PORQUE SIM!

Embora de utilização comum no nosso dia-a-dia, a expressão “por que não?”, como resposta a um convite, é de uma descortesia acachapante. Ela externa a absoluta falta de argumentos negativos, mas não representa um argumento positivo válido, indicando apenas que o indivíduo se deixa levar pela proposta, mas com mínimo compromisso.


Why not?
 “Vamos tomar umas?”, pergunta um amigo a outro. “Por que não?”, responde o interlocutor. Ele não exprime a vontade de dividir a mesa com outro, nem o prazer de tomar uma bebida para relaxar, nem tampouco a gostosura de passar horas num tremendo papo furado com a corriola do boteco. Exprime apenas um vazio, uma falta de alternativas, quase uma omissão de interesse.

Ao invés do negativismo entrevisto do “por que não?”, o ideal é seu oposto: o “porque sim!”. Embora não seja habitualmente mencionado expressamente, ele fica subtendido, e sempre se acompanha de fundamentados argumentos. O “porque sim!” é autêntico por natureza, positivo, ativo, contundente.

Então agora chegamos ao ponto. “Vamos formar um grupo e fundar uma nova academia literária no Ceará?”, propôs alguém. “Por que não?”, respondeu outro. Fatalmente esse grupo, partindo dessa postura passiva, não vai conseguir grande sucesso, constituindo mais uma agremiação estéril e sem ideias. Sua duração esta fadada a ser efêmera.

Muito diferente, portanto, de alguém que respondeu: “Vamos, porque sim! Qual o critério que adotaremos para formar o primeiro grupo? Quais atividades culturais e sociais a entidade pretende desenvolver? Como será seu custeio? Quais responsabilidades me cabem como membro efetivo?”. Colocando, cada um, questões que vão sendo objetos de reflexão do grupo todo, chega-se a propostas consensuais que satisfaçam o ideal acadêmico.

Desse modo, na base do “porque sim!”, foi que se concebeu o ideal da nossa Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, com meia dúzia de sonhadores reunidos numa certa “Tenda Árabe”, ora às noites de sexta, ora às tardes de sábado. E é essa postura positiva e participativa que deve nortear o comportamento de todos os membros dessa casa, que em breve completa seu primeiro ano de atividades. Como fundadores, então, a responsabilidade é dobrada.

Vamos todos, pois, ser agentes do “porque sim!”, participando e nos integrando de forma efetiva às atividades da ACLJ, valorizando-a e consolidando seus fundamentos. Fazendo isso, estaremos prestigiando a nós mesmos e prestando um bom serviço à cultura do Estado. Vamos deixar o “por que não?” para aquele cidadão que ia “sem lenço e sem documento”, sem “nada nos bolsos ou nas mãos”, como cantou nos anos 60 o compositor Caetano Veloso.

Por Altino Farias - Secretário-Geral da ACLJ

ÁREA "Q" - Cinema

Estreia em circuito nacional, no próximo mês de maio, uma nova peça cinematográfica, coproduzida por Brasil e Estados Unidos.

História filmada no Ceará, tem como tema de fundo da trama ficcional os fenômenos ufológicos verificados em Quixeramobim e Quixadá.

O filme se chama “Área Q”, o diretor é o carioca Gerson Sanginitto, residente em Los Angeles, e tem como ator principal o americano Isaiah Washington, o magnífico galã negro que se tem destacado em seriados de TV.

Antes de seu lançamento oficial o filme concorrerá no Festival de Cinema Transcendental, em Brasília, de 26 a 29 de março, organizado pela produtora cearense Estação da Luz, especializada em filmes que tratam da fenomenologia espiritualista.


No elenco do filme figura a poetisa e atriz Karla Karenina, titular da Cadeira de nº 24 da ACLJ, cujo Patrono Perpétuo é o insigne Costa Matos. 

Na imagem, a atriz posa com um grupo de acadêmicos, Reginaldo Vasconcelos, Dorian Sampaio, Adriano Jorge, Antonino Carvalho, Arnaldo Santos e Altino Farias. 

Na mesa do Parque Recreio, os acadêmicos prestigiam as marcas de uísque James King e Hilander, da destilaria escocesa Hamish Robertson.

Trata-se da última destilaria escocesa ainda administrada pela família fundadora, que dias antes enviara um representante da Escócia ao Ceará e convidara membros da ACLJ para uma degustação de seus produtos. 

É uma indústria tradicionalíssima, que para manter a qualidade nunca investiu em propaganda. 

quarta-feira, 21 de março de 2012

ADÍSIA SÁ, EM BUSCA DE IRACEMA

Romance de José de Alencar, de 1865, acaba de ganhar releitura, com traços atuais da história do Ceará, no novo livro “Em busca de Iracema”, escrito pela jornalista e professora Adísia Sá, que é membro honorário da ACLJ. A notícia teve  destaque no Jornal O Estado de hoje.

Na obra, que será lançada amanhã (22), um descendente de Iracema e de Martim Soares Moreno refaz o trajeto percorrido pelos ancestrais, ainda nos tempos da colonização do Ceará.

Tudo é ficção, como na publicação de José de Alencar, mas a escritora acrescenta nomes reais de políticos, jornalistas, arquitetos, escritores e mulheres da sociedade. “Se propõe a ser ficção e ao mesmo tempo histórico. Coloco a realidade dentro da ficção e a ficção dentro da realidade”, afirma.

Adísia Sá cria o personagem Moacir, pertencente à 16a geração de Iracema e Martim. O advogado bem sucedido mora no Rio de Janeiro e, depois de ler sobre o Ceará, resolve conhecer a terra dos ancestrais. Em Ipu, ele se casa com Helena, natural da terra.

O caminho até Fortaleza passa por Ibiapaba, Acaraú, Viçosa do Ceará, Camocim, Meruoca, Mundaú, Trairi e Maranguape. A viagem se passa entre os recentes anos de 1960 e 1964 e relembra as origens do Ceará, por meio do diário de Soares Moreno. “Para cada um desses locais, cito um trecho da obra de José de Alencar”.

A narrativa tem a leveza e a objetividade do texto jornalístico, oferecendo entretenimento e aprendizado ao mesmo tempo. O livro é reflexo da sensibilidade pessoal da autora e de seu envolvimento emocional com a gente do Ceará. “Tive a ideia de escrever a obra a partir da leitura dos textos, sobre o assunto, da escritora alemã Ingrid Schwamborn, a quem faço a dedicação”.

Outros motivos que levaram Adísia Sá a reconstituir as trilhas de Iracema são analisados pelo psiquiatra Cleto Pontes, no ensaio “Em busca do eterno retorno”, que complementa a obra, deixando no ar questões inquietantes que cercam o poder da ficção e os enigmas criados pelos jogos do imaginário.

Adísia Sá, além da ficção, escreve sobre filosofia e jornalismo. “Em busca de Iracema” é a 16ª obra e levou menos de um mês para ficar pronta. O livro, com 171 páginas, tem o selo da editora Armazém da Cultura.

domingo, 18 de março de 2012

CHUVA - Crônica

Chuva para o nordestino é dádiva que cai do céu. Hoje, nem tanto... As primeiras chuvas que caíram em Fortaleza me trouxeram lembranças da festa que era o inverno na minha infância.

Lembrei o capinzal que separava a velha Gentilândia do longínquo Jardim América, com seus currais de bois ao redor, cheio de burras e jumentas soltas, para mil e uma serventias.
Lembrei a lagoa na qual fazíamos desfilar barquinhos por nós fabricados com as raízes de madeira leve, tão comuns na redondeza. 
Lembrei o campinho onde batíamos as peladas diárias, para no final da tarde, lama até o pescoço, levarmos as merecidas palmadas maternas.

Inverno era tempo de fartura. Do milho verde vendido de porta em porta e do feijão novinho debulhado em casa. Saudade da brincadeira do triângulo, com seu furo certeiro na areia molhada, e da temporada de bila.

No jogo de bila eu era mestre: destreza e pontaria para acertar o buraco; esperteza para comandar rápido as vantagens de ser o “último a beber”, de pedir “palmo troço, peço tudo e não dou nada”.

Tanto nas disputas do triângulo como no jogo de bila, as apostas eram pagas com a moeda em voga: carteiras de cigarro, dobradas que nem dinheiro. As da fábrica Araken valiam mais por serem mais raras. As de cigarro americano, então, valiam como se dólar verdadeiramente fossem.

Invariavelmente, todas essas pelejas terminavam em burburinho ou confusão. No entanto, nada tão violento que prejudicasse o companheirismo e a amizade reinantes entre a meninada. É daquele tempo a ideia atribuída ao memorável Virgílio Távora de que o inverno era o melhor governador do Ceará. Hoje, a história é outra. A festa virou tragédia...

Os buracos se fizeram crateras que se multiplicaram, enquanto governantes de esferas diversas discutem a responsabilidade para detê-los. O lixo acumulado devido à ação não cidadã de todos nós, concorreu para que o caos se instalasse.

Dorian Sampaio - Cadeira nº 23 da ACLJ

A ENJOADINHA - Crônica


A viagem continuou, apesar das náuseas e vômitos. Cada solavanco da camionete por aquela trilha esburacada produzia nela uma revolução: a vista escurecia, a cabeça doía, o estômago embrulhava, a saliva inundava sua boca. Mal estar? Que nada, ela queria era morrer!

A cada curva, a cada lombada, renovavam-se as esperanças dela de encontrar trecho melhorzinho, mas o que se via eram estradas precárias a ponto de fazer mula empacar e espantalho se assustar.

Nessa época, e já se vão longos anos, a única orientação nas estradas se dava através de mapas nem sempre precisos, por isso o próximo povoado, onde se poderia socorrer a enjoadinha a bordo da Rural, era uma grande interrogação. Voltar, nem pensar. Nem havia para onde. O jeito era seguir em frente, fugindo do anoitecer, quando o que já estava ruim poderia ficar bem pior.

Para completar o quadro de desolação, estava quente, muito quente. Quente ao ponto de confundir as ideias do mais resistente dos super-heróis dos quadrinhos. E a cada lufada de vento quente, subia aquele poeirão. Um suspiro, um gole d’água e... Mais um solavanco. Nem recostar a cabeça podia a coitada. Quando conseguia falar dizia somente: “Ainda tá longe, papai?”. Dava era pena de responder.

Chegaram ao próximo lugarejo já à noitinha. Procuraram uma estalagem para passar a noite, porém, sem sucesso. Findaram por dormir de favor numa casa de família, todos apinhados na sala.

No ambiente reinava um cheiro forte de urina e fezes de animal, pernilongos em profusão e mais alguma coisa que incomodava, provocando coceira e vermelhidão na pele. Eram pulgas, descobriu-se depois.


Um barulho vindo de um clube, bar, cabaré ou coisa semelhante, incomodou até tarde. Naquela noite ninguém dormiu, além da nossa doce enjoadinha, que, enfim, pode ter um descanso merecido de tanta chacoalhada.



Logo cedo, o chefe da família cutucou todo mundo e pegou a estrada novamente. Queria ir embora daquele lugar pulguento, onde não arriscara nem tomar a água. Ainda bem que o pior passara no dia anterior. Graças!


Com a aproximação da cidade destino, grande centro urbano, as estradas melhoraram substancialmente, e a camionete agora deslizava de modo suave sobre um pavimento mais regular, que permitia ao veículo desenvolver maior velocidade ainda, com conforto considerável. E nossa menininha, antes tão enjoadinha, agora sorria e brincava com os irmãos sob o olhar atento da mãe. Distraída, nem perguntava mais: “Ainda tá longe, papai?”

Altino Farias - Cadeira nº 16 da ACLJ