AS COISAS
LOISAS
Aluisio Gurgel*
RUMO
Sua decisão guia sua vida.
DUAS LEMBRANÇAS
Uma mulher só lembra de duas coisas: o bem que ela lhe fez e o mal
que você fez a ela.
NÃO POSSO FAZER VOCÊ ME AMAR
Mike Reid lia um jornal e encontrou a notícia de um homem embriagado que havia disparado contra o automóvel de sua companheira.
Levado à Justiça, o homem teria sido questionado pelo juiz sobre o que aprendera com aquele episódio.
Sua resposta, segundo a recordação de Reid, foi essencialmente esta:
“Aprendi, meritíssimo, que não se pode fazer uma mulher amar alguém se ela não
o ama.”
DUAS FACES
Em entrevista ao Los Angeles Times, em 2014, Bonnie Raitt explicou que a canção “I Can’t Make You Love Me” a havia tocado profundamente porque conhecia os dois lados daquela experiência: amar sem ser correspondida e não conseguir corresponder ao amor de outra pessoa.
SIGNIFICADO PROFUNDO
A canção não trata da conquista amorosa. Trata da aceitação dolorosa da impossibilidade de conquistar o amor de alguém.
O personagem compreende que pode oferecer presença, ternura, dedicação e intimidade, mas nada disto é capaz de produzir, por imposição, um sentimento que não existe. A ausência de revolta comove.
Não há acusação, nem exigência ou sentimento de vingança. Há
somente a consciência de um limite intransponível da vontade humana.
Eu não posso fazer você me amar
I Can’t
Make You Love Me
Aqui na escuridão, neste momentos finais
Here in the dark, in
these final hours
Repousarei meu coração e sentirei a força
I will lay down my
heart and I'll feel the power
Mas você não sentirá, não, você não vai sentir
But you won't, no,
you won't
Porque não posso te fazer me amar se você não quer
'Cause I can't make
you love me if you don't
O AMOR QUE NÃO SE PODE EXIGIR
Há uma forma de sofrimento que não nasce da ausência, mas da presença insuficiente. A pessoa está ali, ao alcance dos olhos e das mãos, mas não ao alcance do coração. E talvez essa seja uma das experiências mais difíceis da condição humana: descobrir que a vontade, tão poderosa para transformar o mundo exterior, é absolutamente impotente diante de determinados movimentos da alma alheia.
Podemos atravessar oceanos, construir cidades, modificar destinos e superar adversidades extraordinárias. Mas não podemos ordenar a um coração que ame. O amor não se submete à autoridade, não nasce da argumentação e não se constitui por sentença. Pode-se conquistar a companhia. Não se pode decretar a reciprocidade.
Quando, finalmente, compreendermos isso, talvez descubramos que a última expressão do amor não seja insistir em possuí-lo, mas reconhecer a liberdade de quem não pode oferecê-lo. Porque existe uma diferença imensa entre perder alguém e pretender que alguém se perca de si mesmo para não nos perder.
Talvez amar verdadeiramente seja, em última instância, compreender
que nem mesmo o amor nos confere o direito de sermos amados. A grandeza de tudo
se resume àquele ínfimo infinito momento em que o desejo encontra a liberdade
do outro e, embora sofra, finalmente a reconheça.
COMENTÁRIO
Esse texto de Aluísio trata do amor não correspondido, tema da canção “I Can’t Make You Love Me” (Eu não posso fazer você me amar), da compositora americana Bonnie Raitt.
Verificando o roteiro da palestra que escrevi, intitulada “Paixão, Amor e Sexo – Desde Sempre e Atualmente”, nota-se uma clara distinção entre esses três momentos das relações socioafetivas.
Certamente Bonnie Raitt e Aluísio abordam a condição passional, em que se experimenta um transe psicossomático de atração irracional por outra pessoa, que muitas vezes se frustra e converte em aversão, e, de outras vezes, se correspondida, se “calcifica” em amor sincero, e, mais raramente, se “petrifica” em amor eterno.
Caracterizam bem a paixão o saudoso compositor mineiro Vanderli Catarino, na sua canção “Românticos”, quando ele diz que os apaixonados “querem ser o outro, pensam que o outro é o paraíso” – e o poeta cearense Ricardo Guilherme, no sintético poema “Dilema”: “Se de mim me separo, me deparo com você. Se abro os braços, me espedaço em nós”.
Na ausência do objeto da paixão a pessoa tem várias reações desconfortáveis, características da ansiedade profunda, como dilatação das pupilas, crises de pranto, sonhos recorrentes, e até a sensação de apneia – a respiração dificultada.
Bem, quando o apaixonado não consegue que o objeto do seu encantamento corresponda à sua ânsia de conjunção física, de modo a realizar o seu impulso onírico, rechaçando o seu arrebatamento, ele se revolta por não conseguir ser “amado”, como a letra da canção denuncia, aliás, como, via de regra, o estro lírico e cancioneiro romântico reclamam.
Reginaldo Vasconcelos



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