domingo, 4 de janeiro de 2026

CRÔNICA - A Faina (RV)

 A FAINA
Reginaldo Vasconcelos*


O comboio ferroviário da vida já me levou à estação setuagésima, na longa trajetória da existência. Desta gare longínqua olho para trás e, até onde os olhos da alma alcançam, observo a dura faina dos meus avós, e, em seguida, os labores exaustivos dos meus pais – logo antes dos meus próprios esforços na senda dos meus dias, já uma soma de milhares. 

É verdade que não se conseguem lobrigar os vagões mais distantes na linha do tempo, mas é claro que o trem da família vem de imemoriais paragens, desde a muito pretérita pré-história, passando pela mítica antiguidade e pelo conflituoso medievo. Em passado mais próximo, vejo os avoengos cearense na lida dos gados, no amanho das roças, no arrosto das secas. 

As desposadas, as mães, as donas de casa de todos os tempos, após parturirem cada novo membro da prole, superadas as dores do parto, são escravas das lides culinárias das famílias, cativas das providências higiênicas das casas, linha de frente na precepção dos rebentos, na cura de suas febres, tosses e impetigos, e, ainda, no cuidado ingente com os mais longevos idosos dos seus clãs respectivos. 

Os maridos de muito antanho erguiam as vivendas, e iam à caça, e iam à pesca, e iam às armas quando necessário. Entre arrebóis mais recentes, entregam-se às lavras, às letras, aos números, às leis, aos trânsitos, aos pactos, às trocas – para os mesmos fins antigos de proverem as casas, as mulheres, os filhos, a honra própria e a dignidade das famílias. 

Estruturas da sociedade moderna alteraram as funções, convocando as mulheres para as lutas mundanas entre os homens, embora mantendo-as nas tarefas domésticas, impingindo-lhes direitos e somando os seus deveres. Os músculos dos homens ainda estão na estiva, nas tropas, nas armas, nos mares, nas guerras, embora abrindo espaço de honra ao heroico estrógeno feminino. 

Em suma, o meu preito retórico de admiração e gratidão é para os antigos, homens e mulheres da ascendência de nós todos, mergulhados hoje no breu do esquecimento absoluto, mas de cuja genética somos herdeiros necessários, e cujos esforços e sucessos propiciaram a nossa existência, vencendo pragas, pestes, fomes, fogos, medos, rusgas, e afinal triunfando, para que estejamos aqui contemplando a glória de Deus no firmamento.

   

Um comentário:

  1. Simplesmente verdadeiro! Escrita opulenta e diáfana, com o emprego dilatado e claro e lógico e mimoso da linguagem do autor. Parabéns, Presidente. Sou seu admirador por esse pretexto e por MUITOS OUTROS. Que língua, que escritor!
    Vianney Mesquita.

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