O RETROVISOR DA HISTÓRIA
E O DESCONFORTO SOCIAL
Reginaldo Vasconcelos*



Aliás, acaso dívidas
morais antigas se transmitissem a gerações futuras, os povos atuais não
poderiam ser amigos, pois quase todos tiveram conflitos sangrentos ou se escravizaram
entre si, em diferentes momentos da história universal, oportunidades em que
muitas etnias do passado se fundiram, para fundar cepas diversas.
Assim também é
despropositado querermos repristinar ódios políticos antigos, enxergando com os
olhos de hoje o que se deu em outro cenário histórico, em que os jovens
brasileiros mais conscienciosos e bravos não tinham alternativa ao ativismo
ideológico e atentaram contra o regime, e os militares, por seu turno, não
vislumbravam outra reação que não fosse o enfrentamento sangrento ao que na
época, e nas circunstâncias de então, lhes parecia ameaçar o bem comum.
Enfim, as linhas tortas
nas quais escreve o Arquiteto do Universo não podem ser questionadas depois que
a realidade se transmuta e a justeza dos resultados se impõe, sobre fatos consumados. A vida e a
literatura são repletas de casos de pessoas milionárias que somente reuniram
fortuna em razão de uma injusta e sofrida demissão do passado, de modo que o
gesto inamistoso daquele antigo patrão, tão maldito na época, se converteu em
uma benção no futuro.

Tudo se faz no país para
vitimizar os cidadãos, por isso ou por aquilo, de modo que cada um tenha sempre
algo a opor aos circunstantes: as cotas étnicas, a revogação da anistia, as “comissões
da verdade”, os pruridos morais que criminalizam qualquer referência à obvia variação
cromática da pele de alguém, criando um absurdo purismo de linguagem, em nome
de um descabido coitadismo.
Absurda a presunção
apriorística de que toda mulher é vítima do marido, até prova em contrário; de
que todo criminoso é vítima da sociedade ou do “sistema”; de que todo despossuído
tem direito de atacar aquilo que outros adquiriram legitimamente, com trabalho e esforço.
Equivocada a ideia de
que todo consumidor de droga ilícita é um doente, que contraiu a moléstia dos
amigos, de forma involuntária; de que um criminoso contumaz de dezessete anos e
onze meses de idade é inimputável – todos esses disparates modernos, de
pretensão republicana, mas que cada vez mais provocam desconforto social.
Tudo errado. Na
verdade, negros, indígenas e brancos brasileiros, e suas variações mestiças,
são iguais perante a lei, e não se podem distinguir por sua raça. Ponto e vírgula. Quem fugir
desse preceito deve ser penalizado. Ponto final. Não deveria a própria lei discriminá-los,
sob o pretexto de proteger os mais morenos, quando são somente os mais pobres, de
qualquer origem étnica, que requerem proteção.
Na verdade, jovens
brasileiros dos meados do século passado acreditaram em uma fórmula política
nova e se insurgiram contra a iniquidade social, como haviam feito os
republicanos contra a monarquia, mais atrás. Houve reação do poder constituído,
como era de se prever e, de parte a parte, a revolução produziu sangue, suor e
lágrimas, como soe acontecer.

*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ
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