HEGEMONIA, HOMOGENEIDADE
E IDENTIDADE IDEOLÓGICA
Rui Martinho Rodrigues*

Analisar tal percepção exige que se
considere o que sejam comunismo e esquerdismo; identidades; a importância de
Gramsci; o papel da Igreja, da tradição libertária dos pensadores clássicos;
além de considerar o significado e o alcance da tal hegemonia.
Em resumo, a hegemonia comunista enfrenta
uma dificuldade: poucos se dizem adeptos de tal linha política. Menos ainda
concordam entre si sobre o que seja tal coisa. Muitos, porém, se dizem
esquerdistas. As polifonias da pós-modernidade problematizam as identidades. A
vagueza do rótulo, porém, serve de abrigo para um amplo espectro político,
assim associado e hegemônico.


Popper aponta Platão, Hegel e Max como os
inimigos da sociedade aberta. Platão, ansioso por ser rei na República dos
filósofos, inventou o mito da caverna, desqualificando o senso comum,
reivindicando para os “esclarecidos” o monopólio do saber e das virtudes
cívicas, supostamente derivadas da Filosofia. Hegel, lacaio do autoritário rei
da Prússia, reforçou a tese segundo a qual “o Estado é o agente da História”
(sic), para aperfeiçoar o homem e a sociedade.
Marx reduziu a História ao conflito, satisfazendo as personalidades querelantes; centrou o conflito na luta pela mais valia (reduzindo o valor ao trabalho); reduziu ainda o conflito às classes. Tanto reducionismo é sedutor. Não é preciso estudar para explicar o mundo, indicar a alguém a quem odiar e oferecer a deliciosa oportunidade de se sentir sábio e virtuoso, além de ter em quem jogar todas as culpas. Nem Cervantes serviria melhor banquete aos quixotes do nosso tempo. Isso não se deve a Gramsci.

A
hegemonia ideológica se relaciona com a tradição libertária; pensadores clássicos;
e a Igreja.
O
pensamento libertário é sedutor. Promete emancipação. Declara a nossa racionalidade.
Lisonjeia. Promete superar o freudiano mal-estar na civilização. Infelicidade é
culpa dos limites opressivos. É o mundo em preto e branco. Tem mocinho e
bandido, vítima e algoz, identidades bem definidas, certezas, verdadeira
consciência e a promessa messiânica: emancipação. É bom ser mocinho, combater
vilões, ser “esclarecido”.
Quando oportuno, nega-se a existência da verdade (não
a “verdadeira consciência”), e da identidade (não a de “esclarecido”). É a
dialética, “senhora de costumes cognoscitivos fáceis”. Pulsão de vida e de
morte, passionalidade e outras coisinhas são desconsideradas. Alega-se que “o
homem é um animal político”. Não importa que a nossa sociabilidade seja forçada
pela necessidade.
Pensadores
clássicos muito citados, pouco lidos e menos compreendidos, ensejam pose de
sábio. Basta aludir a um renomado autor, alguns chavões e se obtém aplausos. Não
é Gramsci. Já havia sofistas entre os gregos, reduzindo tudo à retórica
relativista. Os helenos sucumbiram aos romanos. Aqueles viviam de retórica,
estes da solução de problemas. A conquista da hegemonia pelos libertários é a
vitória da deusa Bem-aventurança (Preguiça, para os desafetos), que prometia
colher sem plantar. É a derrota da deusa Virtude, que dizia: “você só vai
colher o que plantar”.
O
Vaticano e o clero influenciavam o Brasil. A maioria dos cardeais da cúria
metropolitana era italiana e francesa. Nestes países o partido comunista
crescia a cada eleição. A América Latina parecia a beira da revolução. A
corrida espacial favorecia a URSS. O Vaticano II veio para aderir aos vencedores.
O clero, anticomunista, tinha tendência fascista, celebrara um acordo com
Mussolini, apoiara a Ação Integralista Brasileira.
Comunofascistas
acham que o homem não se pertence, formam partidos orgânicos, adotam o culto à
personalidade dos líderes, são messiânicos, representam o bem contra o mal, são
disciplinados, têm um inimigo a quem odiar, são irmandades, fazem pose de
superioridade moral e intelectual, tratam o homem como animal de rebanho, dizem
que os fins justificam os meios (abrindo a caixa de Pandora), negam a escolha
livre e consciente. São iguais. A Igreja adota tudo isso.
A conversão dos integralistas ao “esquerdismo” confirma a unidade comunofascista.
O Vaticano II foi a passagem de uma coisa para o que parece ser outra.
O
cristianismo é teocêntrico. O marxismo é antropocêntrico e cosmocêntrico. A
dialética concilia. Confundiram fazer o bem com a luta por um mundo melhor
(isso é outra reflexão).
Gramsci
é obscuro. Burlava a censura dos carcereiros e do PCI. Pregava a “guerra de
trincheira” (reformismo?), sem repudiar a revolução. Ambiguidade dos astrólogos
é receita de sucesso. Todos podem se ver na obscuridade do texto.
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