domingo, 11 de janeiro de 2026

ESCÓLIO LITERÁRIO - Mais um Adágio Poético (APMC)

 

MAIS UM ADÁGIO POÉTICO
Ana Paula de Medeiros Ribeiro Caratti*

 

A velhice nada mais significa do que deixar de sofrer pelo passado. (STEFAN SWEIG, intectual/escritor austríaco. Viena, 28.11.1881; Petrópolis-RJ, 22.02.1942).

 

A leitura de A Lira dos Oitent’Anos, de Vianney Mesquita, publicada pela Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, ontem, dia 9 de janeiro de 2026, remeteu-me à obra Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, não apenas pelas palavras semelhantes, mas também pelo conteúdo. 

A Lira de Manoel Antônio Álvares de Azevedo é um livro repleto de poemas escritos no auge da efêmera juventude do Poeta. Os escritos mostram-se pulsantes, excessivos, sendo cantos de urgência, febre e vertigem.

[São Paulo, 12.09.1831; Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852. Faleceu aos 21 anos do chamado “Mal do Século” - tuberculose.] 


A Lira de Vianney, a seu turno, desenha-se, linha a linha, como um adágio: suave, meditativo e profundo. Expressa-nos o ocaso da existência humana, a velhice que se prolonga em notas longas, conscientes e reconciliadas com o tempo. O que em Álvares de Azevedo é ímpeto e dilaceração, em Vianney Mesquita torna-se pausa, lucidez e aceitação. 

Vianney Mesquita entoa uma melodia serena, consciente e reconciliada com o implacável tempo. 

Ele não reclama, não se ressente, pelo contrário, mostra uma aceitação lúcida do limite humano. O “Fulano” que completa oitenta anos não está em guerra com o mundo nem consigo mesmo; está “no frontispício da vida”, metáfora que sugere não o fim, mas a contemplação da obra já erguida. A velhice, para ele, não é ruína, é portal. 

Enquanto a Lira dos Vinte Anos flerta com a morte como fascínio, A Lira dos Oitent’Anos a acolhe como verdade biótica, natural e inescapável. Não há rebeldia, nem delírio de imortalidade. 

O sujeito poético está “alforriado dos mil desenganos”: liberto das ilusões que aprisionam os mais jovens na fantasia do eterno, do sucesso ilimitado, da permanência impossível. Há, nesse ponto, uma crítica delicada, mas firme, aos “milhões de sicranos” que ainda cogitam na imortalidade simbólica, seja por nome, fama ou acúmulo. 

O Escritor palmaciano canta a sabedoria de existir plenamente num corpo que já conhece seus limites. 

As duas Liras, portanto, se completam como estações da mesma travessia humana. Ambas dizem, cada uma ao seu modo, a mesma verdade essencial: viver é estar em trânsito. A diferença é que, em Vianney, já não há medo do destino, há reconciliação com ele. 

A Lira dos Oitent’Anos não aparenta cantar o fim. É adágio de uma sinfonia chamada vida que só o tempo longo permite compor. Quando o homem aceita que a sua vida não é composta de notas de ilusões, mas de sentido e experiência, ele canta, aos oitenta anos.


A LIRA DE OITENT’ANOS
[Vianney Mesquita]
 
Completou Fulano oitenta anos,
Dormindo bem e fazendo exercício.
Da vida está, pois, no frontispício,
Ainda a conceder ensejo aos planos.
 
Alforriado dos mil desenganos,
Sem cogitar, porém, no vitalício,
Se entende do eterno não propício
Averso aos que do evo são ufanos.
 
Dele distintos são certos fulanos
Feitos milhões e milhões de sicranos
Os quais cogitam na imortalidade.
 
Com efeito, impende unir-se ao certo,
O humano transportando a ser referto
Do biótico fim como verdade.




CRÔNICA - De Primeiro a Vila Barão de Camocim e Seus Habitantes (LR)

 De primeiro
A Vila Barão de Camocim
e seus habitantes

Luiz Rego*

 

De primeiro – como diria meu amigo Totonho Laprovitera, e digo aqui em sua homenagem – a cidade tinha outro ritmo, outro silêncio e outras fronteiras. Algumas não eram feitas de muros, mas de memória. A Vila Barão de Camocim era uma delas. 


Eu era criança e morava na Rua 24 de Maio, no centro de Fortaleza, num perímetro muito claro para mim: a própria 24 de Maio, a Rua Meton de Alencar, a Rua General Sampaio e a Rua Clarindo de Queiroz. Mais ou menos no meio da 24 de Maio, paralela à General Sampaio, havia uma vila, que parecia um mundo à parte  discreta, quase escondida: a Vila Barão de Camocim. 

A entrada que eu conhecia ficava pela Rua 24 de Maio, funcionando como um portão dos fundos. Ao cruzá-la, olhando logo à direita, destacava-se uma casa grande, imponente, luxuosa, pertencente ao então deputado Audízio Pinheiro. Ali, a sensação era de que morava alguém importante, e de fato morava. Tenho outras histórias envolvendo os Pinheiro, inclusive o senhor Sebastião Reis, nosso vizinho, e um famoso baile black tie, mas isso é assunto para outra lembrança. 

Seguindo ainda pelo lado direito da via interna da vila, mais ou menos no meio, ficava a casa de Nestor, conhecido entre nós como o nerd da época. Comentava-se, anos depois, que ele teria falecido numa viagem ao interior da Bahia. E, no fundo da vila, com a fachada voltada para a Rua General Sampaio, erguia-se a casa que dava nome a tudo aquilo: a casa do próprio Barão de Camocim.

 

Voltando à entrada pela Rua 24 de Maio e agora observando o lado esquerdo da via divisória, a primeira casa era a do senhor Zelito Pamplona, de sua esposa Olga (que, na minha cabeça de menino, eu confundia com Dona Olga Barroso, esposa do ex-governador Parsifal Barroso) e do filho do casal, Paulo, sempre muito gentil com a meninada da vizinhança. 

Mais adiante, quase no meio da vila, havia uma quadra de esportes, espaço democrático onde se jogava bola, se comemoravam aniversários e se armavam festas de São João. E, já no extremo esquerdo, também voltada para a Rua General Sampaio, ficava a casa de um coronel, cujo nome minha memória oscila entre Ézio ou Ellery. 

Foi nessa casa que residiu uma figura pequena, mas decisiva na minha infância: um fox paulistinha. 

Nunca soube o nome do cachorro, nem fiz esforço para saber. Para mim, ele era apenas “o fox”. Pequeno, ágil, nervoso e absolutamente convicto de sua missão: defender a vila – ou, pelo menos, morder meus calcanhares. 

Toda vez que eu entrava na Vila Barão de Camocim, quase sempre de bermuda ou calção, com os tornozelos expostos, o ritual se repetia. O fox surgia sem aviso, certeiro, atacava. Não latia. Não ameaçava. Mordia. E se retirava com a serenidade de quem cumpriu um dever. 

Com o tempo, aprendi a temê-lo, como se teme aquilo que não se consegue evitar. Ele passou a fazer parte da geografia emocional da vila, tão presente quanto as casas, a quadra ou os moradores. 

Anos depois, voltando da Praça Clóvis Beviláqua, que de primeiro ( ainda segundo Totonho Laprovitera), era a Praça da Bandeira, resolvi passar novamente pela vila. Naquele tempo, a praça tinha espelho d’água, morcegos pescando peixes ao entardecer e futebol improvisado sob os oitizeiros, perto do antigo Instituto José Frota. Lembro, inclusive, de ver ali meu colega Samuel, do Ginásio Sete de Setembro, marcar um belo gol de bicicleta. 

Ao atravessar a Rua General Sampaio, onde o movimento de ônibus sempre exigia cautela, notei algo diferente na casa do coronel. No jardim voltado para a rua, havia pessoas reunidas, algumas chorando. A curiosidade me puxou. 

Estiquei-me na ponta dos pés – os mesmos pés tantas vezes atacados – e vi, através da grade, uma caixa de sapatos no chão. Dentro dela, imóvel, estava o fox paulistinha. 

Sorri. Um sorriso silencioso, rápido, quase automático. Não por maldade consciente, mas por alívio infantil. A ameaça tinha terminado. 

Hoje, olhando para trás, entendo melhor. O cachorro nunca soube quem eu era, nem o medo que causava. Apenas cumpria seu instinto, defendendo um território que também era seu. 

De primeiro, talvez a gente não soubesse dar nome a essas coisas. Hoje sei: memória também morde. Mas, como o tempo, aprende a soltar. 

E espero, sinceramente, que o pequeno guardião da Vila Barão de Camocim tenha encontrado descanso – talvez até o mesmo que eu encontrei ao escrever estas linhas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

POEMA - A Lira dos Oitent'anos (VM)

 A LIRA DOS
OITENT’ANOS
Vianney Mesquita*
(Palmácia-CE, 1946)

 

Quem não for simpático aos vinte, nem forte aos trinta, tampouco rico aos quarenta e sábio aos cinquenta, jamais vai ser simpático nem forte nem rico nem sábio. 

(GEORGE HERBERT, sacerdote da Igreja da Inglaterra, poeta e orador. Montgomery – Gales - 3 de abril de 1543: Bemerton – Salisbúria-UK., 1º de março de 1633).







quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

ARTIGO - A Domesticação da Velhice (VCPJ)

 A DOMESTICAÇÃO
DA VELHICE
Valdester Cavalcante Pinto Júnior*

 

SENECTUDE
(Vianney Mesquita)
 
Puído, anoso, vetusto ou pristino
(Adjetivos da senilidade),
No instante zenital, do auge, pino,
Perfaz essências da ancianidade.
 
Quem desenvolve um conviver supino
Vai habitar, provecto, a antiguidade,
Decerto, há de o fazer porque, ladino,
Sabe arrostar a atualidade.
 
Há, porém, velhos brancos no cabelo
Cujas fases viveram a contrapelo
Da existência, sem método nem siso.
 
Afoitos, pois, defenestraram o zelo,
E expõem, agora, as neves do pelo,
Em conjunção com o verde do juízo...


Os velhos – essas personagens que sempre enxergamos à distância, como se pertencessem a outra espécie – nos impõem uma verdade insuportável: avançamos em direção a eles a cada segundo, neste instante irrecuperável. O escândalo, porém, não é a velhice em si, pois ela já se encontra devidamente regulamentada pelas convenções modernas. O que realmente incomoda – e humilha – é a dependência –absoluta do essencial: do copo d’água, do passo alheio, da autorização para continuar existindo... 

E aqui faço uma confissão que me alarma. É o caso dos idosos como se fossem somente um corpo cansado. Sonolentos, sedados, afastados da vida — não meramente pela velhice, mas inclusiva a química piedosa que os amansa e os domestica. O velho é empurrado para o canto da sala, onde não incomoda, não deseja, não opina. Está vivo, mas em estado de desculpa. 

Nós os observamos assim, com tristeza e uma perplexidade perturbadora. Isto porque não faz tanto tempo — não é um passado remoto nem mitológico — pois convivíamos com essas mesmas pessoas em sua plenitude brutal: donas de si, cheias de vontade, capazes de intervir no mundo comum e transformá-lo. Eram presença. Configuravam excesso. Hoje, o entorno lhes reserva o canto, esse espaço discreto onde a vida não atrapalha. Já não há como lhes dar ouvidos, porque lhes faltam forças. Não existem mais gestos, porque o corpo desistiu antes da alma. Quase não há vida — somente aquela concessão mínima que impede a decomposição imediata. É uma existência técnica, mantida por obrigação, como se a morte tivesse sido adiada, sem que a vida fosse consultada. 

E, então, ao contemplarmos essa vida indigna, o olhar retorna para dentro. Sem esforço algum, nos vemos um pouco adiante, ocupando a mesma moldura. O futuro não exige imaginação; ele só aguarda. A vida, entretanto, sempre tão eficiente em sua crueldade, talvez ainda nos reserve algo pior.

Hoje, o velho ao menos convive com o que lhe resta: a família. Observa filhos, netos, bisnetos — testemunha o mundo ir adiante sem ele. Há ainda um palco doméstico, mesmo que silencioso, conquanto humilhado. E nós, essa geração ainda não idosa, o que nos aguarda depois da vida? Não a casa cheia, não o rumor familiar, mas o confinamento técnico: a convivência exclusiva com outros velhos, todos portadores de limitações diversas, alinhados pela mesma falência. 

Talvez seja apenas isso que nos espere no final da existência: dividir o fim com semelhantes mutilados, sustentando uns aos outros numa sala de espera sem relógio, onde a vida já partiu — e o corpo, teimoso, insiste em ficar.



 

domingo, 4 de janeiro de 2026

CRÔNICA - A Faina (RV)

 A FAINA
Reginaldo Vasconcelos*


O comboio ferroviário da vida já me levou à estação setuagésima, na longa trajetória da existência. Desta gare longínqua olho para trás e, até onde os olhos da alma alcançam, observo a dura faina dos meus avós, e, em seguida, os labores exaustivos dos meus pais – logo antes dos meus próprios esforços na senda dos meus dias, já uma soma de milhares. 

É verdade que não se conseguem lobrigar os vagões mais distantes na linha do tempo, mas é claro que o trem da família vem de imemoriais paragens, desde a muito pretérita pré-história, passando pela mítica antiguidade e pelo conflituoso medievo. Em passado mais próximo, vejo os avoengos cearense na lida dos gados, no amanho das roças, no arrosto das secas. 

As desposadas, as mães, as donas de casa de todos os tempos, após parturirem cada novo membro da prole, superadas as dores do parto, são escravas das lides culinárias das famílias, cativas das providências higiênicas das casas, linha de frente na precepção dos rebentos, na cura de suas febres, tosses e impetigos, e, ainda, no cuidado ingente com os mais longevos idosos dos seus clãs respectivos. 

Os maridos de muito antanho erguiam as vivendas, e iam à caça, e iam à pesca, e iam às armas quando necessário. Entre arrebóis mais recentes, entregam-se às lavras, às letras, aos números, às leis, aos trânsitos, aos pactos, às trocas – para os mesmos fins antigos de proverem as casas, as mulheres, os filhos, a honra própria e a dignidade das famílias. 

Estruturas da sociedade moderna alteraram as funções, convocando as mulheres para as lutas mundanas entre os homens, embora mantendo-as nas tarefas domésticas, impingindo-lhes direitos e somando os seus deveres. Os músculos dos homens ainda estão na estiva, nas tropas, nas armas, nos mares, nas guerras, embora abrindo espaço de honra ao heroico estrógeno feminino. 

Em suma, o meu preito retórico de admiração e gratidão é para os antigos, homens e mulheres da ascendência de nós todos, mergulhados hoje no breu do esquecimento absoluto, mas de cuja genética somos herdeiros necessários, e cujos esforços e sucessos propiciaram a nossa existência, vencendo pragas, pestes, fomes, fogos, medos, rusgas, e afinal triunfando, para que estejamos aqui contemplando a glória de Deus no firmamento.

   

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

ARTIGO - O Pós-Natal (RMR)

O PÓS-NATAL
Rui Martinho Rodrigues*

 

O Natal 

As festas religiosas fazem parte dos ritos. Como tal lembram e reafirmam crenças, valores, costumes, identidades, congregam promovendo a coesão e contribuem para a transmissão da cultura. Os ritos, todavia, podem levar à banalização, podendo desviar o sentido e afastar dos objetivos citados. O Natal não é exceção no contexto da dinâmica dos fenômenos desta natureza. 

O debate 

O Natal, como festa da cristandade, suscita debates. O cristianismo é, entre outras coisas, uma relação pessoal entre criatura e Criador, mediada por Cristo, que promove a reconciliação entre ambos. Comer do fruto da ciência do bem e do mal, chamando a si o juízo moral, foi um rompimento com o Criador que orientava tal julgamento, causando a morte do homem, ao separá-lo de Deus (Gênesis capítulos 2 e 3).

O significado do paraíso 

O paraíso não era um lugar de ociosidade: o homem tinha o dever de “guardar e cultivar o jardim (Gênesis 2; 15). Paradisíaca era a condição de desfrutar da inocência por não formular juízo moral e, consequentemente, não ser responsabilizado, condição perdida quando o casal viu que estava nu (Gênesis 3; 7), isto é, o juízo moral que adquirira o atingiu. 

Olhando a própria nudez, exercitando o juízo moral proporcionado pelo fruto da ciência do bem e do mal, debatemos tudo, inclusive com argumentos equivocados. O Natal é criticado por vários motivos. (i) O consumismo, a secularização e banalização da grande festa cristã ensejam discussões. (ii) A festa pagã romana, que festeja o aniversário do sol invencível, foi oficializada por decreto do imperador Aureliano, em 274 d. C. pretextando facilitar a conversão dos pagãos, enquanto tentava salvar, pacificar e fortalecer o Império Romano, também é motivo de críticas. 

O sincretismo e o aniversário 

O sincretismo foi facilmente promovido, alegando que Cristo é a luz do mundo, tal qual o sol invencível dos cultos animistas. Outra festa do paganismo romano, a saturnália, de meados de dezembro, quando havia troca de presentes e banquetes, costumes que foram incorporados à festa cristã. 

Outro debate guarda relação com o fato de que (iii) o Natal é uma festa de aniversário, uma vez que na bíblia só temos o registro de dois aniversários, de Faraó e de Herodes, ambos ímpios. 

Tais festas, mundanas e associadas a assassinatos, são encontradas respectivamente em Gênesis 40; 20-22; e em Marcos 6; 21-28. Alguns (iv) alegam que a árvore de Natal teria origem no animismo dos pagãos germânicos, que evocavam fertilidade e vida cultuando o arvoredo. Sucede, todavia, que o tempo modificou o sentido da festa que já não lembra o deus sol nem a saturnália ou o culto animista às árvores. 

O Natal e o dia seguinte 

O Natal lembra Cristo e o seu significado. Congrega, promove a identidade cristã, reafirma valores e crenças. Mas a banalização, o desvio de objetivos, com a secularização e o mundanismo que pode levar, sim, ao consumismo e aos prazeres antropocêntricos rondam todas as práticas repetidas. A transmissão da doutrina, da crença e – para o cristianismo secularizado – a transmissão da herança cultural só serão efetivas se no dia seguinte não for esquecido o seu significado. 

O Natal passou. Ainda guardamos o espírito natalino? Lutamos por alcançar a condição de nova criatura, sepultada simbolicamente nas águas, após a morte do velho homem, nascendo de novo, também simbolicamente, ao emergir? Não se trata de uma transformação súbita, ocorrida no momento da decisão de aceitar a Cristo como Senhor, aceitando o senhorio dele sobre a sua própria vida. 

É um processo que perdura por toda a vida na terra. A nova criatura, que deixa de ser porca para ser ovelha de Cristo, não tem na lama o seu habitat natural, mas se suja. O sacrifício de Cristo foi para nos isentar de tal sujeira. Não representa, porém, um salvo-conduto para a prática de toda sorte de iniquidade, conforme lemos na Carta de Paulo aos Gálatas: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. Não devemos proceder como o tolo, que o livro de Provérbios 26; 11 assim descreve: “Como o cão volta ao seu vômito, assim o tolo repete a sua insensatez”. 

Antinomia aparente 

Então estamos de volta ao legalismo, deixando para trás o evangelho? Não. Só aparentemente o fato de que não devemos agir como o tolo, que a semelhança do cão volta ao próprio vômito lembra a volta ao legalismo. A boa nova, que é o significado da palavra evangelho, é a boa notícia da substituição da justiça retributiva pela equidade. Sim, quando Cristo assumiu, no nosso lugar, chamando a si as consequências das nossas iniquidades. Ele estava afastando de nós a justiça que premia e castiga em retribuição às obras, segundo o padrão retributivo, substituindo-a pela justiça proporcional às nossas capacidades, nos termos da equidade. 

Incapazes de cumprir a lei, fomos beneficiados pela retribuição que recaiu sobre o Messias ao invés de recair sobre nós, nos dando vida, que é reconciliação com o nosso Criador. O contrário disso é a morte espiritual, entendida como separação de Deus. Não tendo méritos para tanto, o prêmio nos foi dado do modo como é descrito na Carta aos Efésios 2; 8-9: “Pois pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. 

Buscando os limites do significado do citado excerto da Carta aos Efésios, indagamos qual é o alcance da anistia concedida por meio da fé? Lemos em Tiago 2; 19 a resposta: “Você crê que existe Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem e estremecem”! Então a crença salvadora é aquela que confia na direção de Deus, renunciando à ciência do bem e do mal, para voltar a seguir a direção do Criador, vomitando o fruto proibido.

Tal crença deve ser confirmada por meio de decisão, concretizada pelo esforço de ser nova criatura, nos termos propostos em Mateus 11; 28-30: 

Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vós. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrarão descanso para a alma. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

O excerto transcrito afasta o legalismo intolerante da justiça retributiva, que não temos capacidade de satisfazer. Não promete ausência de jugo e de fardo, não estabelece a licenciosidade. Promete jugo suave e fardo leve da equidade consubstanciada no arrependimento de que somos capazes. Assim sendo se harmoniza com a exigência da equidade. 

A guisa de conclusão 

O Natal, comemorado em espírito e em verdade, não é página virada no dia seguinte. É a continuidade de decisão de vomitar o fruto da ciência do bem e do mal; é a crença no jugo suave e no fardo leve que é a aceitação do Messias como Salvador, dando a Ele o Senhorio sobre as nossas vidas.


 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

CRÔNICA - O Peru Que Faltou ao Natal (SQC)

O peru que
faltou ao Natal
Sávio Queiroz Costa* 

Na casa de minha avó – uma das mulheres mais espetaculares que conheci – a cozinha era comandada pela Maria, e peru de Natal não era exatamente um prato. Era uma instituição. 

Começava a existir muito antes de dezembro, meio abstrato, meio promessa, e ia ganhando corpo, peso e importância, à medida que o ano se cansava de si mesmo.

Na época não se comprava peru gordo. O nosso peru se criava, a Maria engordava, abatia, tratava. Era uma ave com biografia. 

Nós, os netos, participávamos desse processo com o entusiasmo inconsequente de quem ainda não compreende muito bem a relação entre afeto e sacrifício.

Íamos ao quintal observá-lo crescer, comentar suas formas, comparar seu tamanho com o do ano anterior – que, naturalmente, sempre fora maior, mais bonito e mais saboroso, segundo os adultos. 

O peru engordava, como se tivesse consciência do seu destino glorioso. Recebia milho, restos de cozinha, frutas maduras demais para a fruteira – uma generosidade alimentar que hoje só se concede a animais de estimação. 

Crescia firme, convicto, até começar a demonstrar sinais claros de que já não cabia em si. Chegou um momento em que o peru deixou de andar. Passou a se deslocar. 

Arrastava as ancas pelo galinheiro com uma dignidade pesada, como um velho coronel aposentado, vítima da sua prosperidade. Observá-lo era, ao mesmo tempo, engraçado e um pouco constrangedor – como rir de alguém que já não consegue amarrar os próprios sapatos. 

Dois ou três dias antes do Natal, o inesperado aconteceu: o peru faleceu. Assim, de repente. Sem aviso. 

Houve silêncio no quintal. Depois, especulações. Concluiu-se, com a autoridade médica típica das famílias, que a causa mortis fora uma espécie de cirrose alimentar. Comeu demais, viveu demais, foi feliz demais. O peru morreu de excessos. 

O problema é que morreu fora de época. E, sem ensaio geral, não se come o peru morto. Instalou-se, então, um drama doméstico. Natal sem peru era quase uma heresia, um erro teológico. 

Minha avó, prática como só ela sabia ser quando a poesia falhava, resolveu a questão com um gesto moderno e definitivo: mandou comprar um peru de granja. Foi o primeiro peru de supermercado na história da família. 

Veio embalado, limpo, pálido. Não tinha passado, não tinha galinheiro, não tinha nome. Não o vimos crescer, nunca lhe demos milho, nunca o julgamos gordo demais. Era um peru sem culpa, sem memória, sem passado.


Imagem: Maren Caruso/Getty Images

Foi à mesa, cumpriu sua função, serviu a todos, nos  alimentou. Mas algo estava errado. Comia-se, mastigava-se, elogiava-se por educação – e sentia-se falta de alguma coisa que não estava exatamente no tempero. Faltava a história. 

Desde então desconfio das soluções práticas demais. Elas resolvem o problema, mas levam embora o assunto. E uma ceia sem assunto é apenas comida.

O peru do quintal morreu cedo, é verdade. Mas deixou lembrança. O do supermercado sobreviveu ao Natal – mas foi esquecido antes da sobremesa.