sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Soneto Decassílabo Português – VM

 NATALÍCIO DIGNIFICANTE

(* 25.01.1946)

 

A juventude na provecta idade constitui o anseio impotente de um coração que intenta romper os tecidos atrofiados, para dar pulos em pleno ar (CAMILO CASTELO BRANCO, escritor de todos os gêneros. Mártires - Lisboa, 16.03.1825; Vila Nova de Famalicão, 01.06.1890).


Vianney Mesquita
(Jovem Chrónos) 

No dia vinte e cinco de janeiro,
Na Vila de Palmeiras pastoril,
Para as hostes do esplêndido Brasil,
Assomou, ágil, este cristão parceiro.
 
De obras portentosas altaneiro,
Mesmo criança, adulto ou juvenil.
Impôs seriedade ao seu perfil...
Coeso, triunfante e cavalheiro.
 
Periodista de escol, lente de ofício,
Gestor excelso, habita o frontispício
De vida exemplar, tersa e maneira.
 
Eis que medra aos oitenta outro renovo
Do extraordinário Árcade Novo
Paulo Tadeu Sampaio de Oliveira.
 

(Palmácia (antiga Palmeiras), 25 de janeiro de 2026)



PATRANHA POÉTICA - Palmácia - Paris (VM)

 PALMÁCIA – PARIS
Vianney Mesquita*  



Tudo o que é difícil sai do que é fácil. Tudo o que é grande do que é pequeno. (LAO-TSÉ)

 

As centrais macrometropolitanas
Diversamente da ínclita Palmácia,
Sob a perspectiva da acurácia
Concertam as grandezas soberanas.
 
Árduas conurbações periurbanas –
Como uma vera e terrena galáxia –
Contudo sob o prisma da eficácia,
Distam pouco das urbes serranas.
 
Ao comparar Nossa Terra a Paris,
Notória é a distinção só por um tris
De nada abona, pois, fazer escarcéu.
 
Eis por que tal pretexto a razão diz
Conceder à História este matiz:
Torre da Lua igual à Torre Eiffel!


 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

ARTIGO - Irã, Venezuela e Nepal (RMR)

 IRÃ, VENEZUELA E NEPAL
Rui Martinho Rodrigues*

 

Ditadura e ditabranda 

Ditaduras não caem, fingem cair. Seus dirigentes se tornam proprietários de empresas estatais após a falsa queda, continuam poderosos e privilegiados como magnatas. Bens públicos, no regime caído da URSS, eram desfrutados como se fossem propriedade dos dirigentes. Luxuosas dachas deram lugar a uma anedota: um dirigente da URSS levou a mãe para uma delas. A velha perguntou: “meu filho, com tanto luxo você não teme uma revolução comunista?” A falsa mudança foi uma formalidade pela qual a posse (usar e gozar) virou propriedade (usar, gozar e dispor).

 

Ditaduras e o Estado 

Ditaduras expandem o Estado e o estamento burocrático tornando-se resilientes. Tomam o Leviatã, criam lealdades em uma trama de interesses particulares defendidos em nome da democracia, da luta contra a desigualdade e nem escondem que são “mais iguais”, como vaticinou Georg Orwell (1903 – 1950), na obra A revolução dos bichos. Militares, empresários clientes, intelectuais, artistas e jornalistas se aliam e sustentam ditaduras longevas. 

Revoluções são patrimonialistas, não distinguem bens públicos do patrimônio dos seus dirigentes, que acumulam fortunas no exterior e multiplicam patrimônio sem prestação de serviço. Nem precisam guardar as aparências, como fazem os hipócritas, que pagam tributo à virtude: escarnecem, ostentam a iniquidade, desprezam o Direito, a moral e o povo. O poder corrompe e o poder absoluto corrompe de modo absoluto, observou Lord Acton (1834 – 1902).

 

Ditadura: uma dominação resiliente 

Ditabranda cai. As ditaduras têm muitas formas: baseiam-se no culto à personalidade do líder, em partidos organicamente constituídos, na força militar, no estamento burocrático, nas lealdades regadas a privilégios e na corrupção. Ditadura, diversamente da ditabranda, é longeva, como a Cubana. 

A ditadura do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista), além de ter sido uma ditadura partidária, tinha um líder populista. Só caiu quando o Exército Vermelho tomou Berlim. Na Itália o fascismo só caiu com a invasão dos aliados. No leste europeu as ditaduras eram a expressão da dominação soviética, portanto estrangeira. Caíram desde fora. 

Na Venezuela a prisão do ditador não afastou os generais dos Carteis do narcotráfico, não desarmou milicias encarregadas da brutal repressão. Prefeituras, Parlamento, Judiciário, forças armadas, milicias e mídias continuam controlados. É ditadura longeva, permite aos ditadores ostentar, sem nenhum rubor na face, corrupção e arbitrariedades. Ditabranda é de curta ou média duração. Ambas usam de meios violentos, censuram, prendem ilegalmente, mas Ditabranda aplica penas menores. Ditaduras condenam suas vítimas a mais de vinte anos de prisão e não as absolve. Desprezam a reserva legal na área penal, juiz natural, juiz imparcial e demais garantias democráticas.

 

Revolução: máscara de ditadura. 

Ditaduras têm resiliência quando se apresentam como revolução. Jacobinos implantaram o terror, degolaram milhares de pessoas e ainda são admirados pelo discurso revolucionário. Revolução deveria ser uma transformação profunda e rápida. Mas nunca definem uma meta que uma vez atingida a encerre. Nunca chegam ao fim. Napoleão Bonaparte (1769 – 1821) encerrou a Revolução Francesa dez anos após o seu início, porque ela não cooptou militares, tropeçou na liderança personalista do grande general, sofreu o desgaste que a violência produz e não soube trocar a fantasia.

 

A fugacidade da ditabranda 

Ditabranda não é fugaz – embora mate, torture e censure – porque não faz aliança com intelectuais e artistas, além de não compartilhar a corrupção com empreiteiras, bancos, empresas de comunicação e lideranças políticas, nem faz aliança internacional conveniente. Derrama sangue, censura, tem práticas semelhantes às da ditadura. Mas não tem uma doutrina legitimadora de tirania. Ditabranda é provisória e se opõe às ditaduras, mas o faz constrangida. Estabelecia medidas provisórias de exceção.

 

Venezuela, Irã e Nepal 

Venezuela e Irã são ditaduras com o nome de revolução. Dominam as forças políticas, matam, torturam, causam miséria, mas não caem apesar de protesto gigantescos. Desarmaram o povo. Acrescentaram ao receituário revolucionário a aliança com o narcotráfico: trocam o proletariado pelo lumpemproletariado representado pela bandidagem. 

Irã e Venezuela fizeram aliança com o narcotráfico e com o terrorismo. Talvez só caiam com ação estrangeira. Recebem apoio externo e têm da imprensa, que silencia sobre os seus crimes. A ditadura do Nepal caiu. O povo foi às ruas. Os militares não mataram nem prenderam em escala suficiente para salvar o regime. Faltou a fachada jurídica de defesa da democracia e da soberania. Na Venezuela o Tribunal Supremo de Justiça (TST) prende opositores, restringe censura, decreta inelegibilidade, frauda eleições e esconde a lama sob segredo de justiça. No Irã o Conselho Supremo do Irã também age assim.

ARTIGO - FCPC Quase Cinquentana (VM)

FCPC 
QUASE CINQUENTONA
Vianney Mesquita*

 

Todo o contingente acadêmico da Universidade Federal do Ceará – estudantes, funcionários, docentes e demais colaboradores – perpassa um momento de rara felicidade e alçada gratidão, com o transcurso, em 2026, de 49 anos de instituída a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura – FCPC. 

Cuida-se, sem dúvida, de uma excepcional página da história acadêmica do Estado do Ceará, que nos presenteia com esse registro e a ocorrente e efetiva tarefa institucional de auxiliar, com propósito social e denodo científico, o desenvolvimento do País. 

A FCPC, fundada em 21 de janeiro de 1977, é credenciada pelos Ministérios da Educação e da Ciência Tecnologia, constituída como entidade privada e sem objetivo de lucro, facilitando e viabilizando no decurso de todo este período, sem qualquer intermitência, a efetivação de programas de ensino, pesquisa, extensão, cultura e inovação da UFC, atuando na gestão administrativa e financeiras dos mencionados projetos.

 


Na qualidade de docente da Universidade Federal do Ceará – hoje sob aposentadoria, porém com um contrato de Professor Voluntário – acompanho todo o progresso da nossa Fundação, ocorrente sem redução e tampouco estagnação, a começar do recuado 1977.  Por tal motivo, tenho condição de certificar seu crescimento desde que estabelecida sob o Reitorado do Prof. Pedro Teixeira Barroso, tendo como primeiro Secretário-Executivo o Prof. José Anchieta Esmeraldo Barreto, também ex-reitor, até hoje, quando está no quarto mandato o meu conterrâneo, de Palmácia-CE, o Prof. Francisco Antônio Guimarães, durante o reitorado do Prof. Luís Custódio Almeida da Silva, tendo como Vice-Presidente a Prof.a Maria de Jesus Sá Correia. 

O progresso há instantes expresso ocorreu e ainda sucede em razão do desmedido empenho e em decorrência do amplo conhecimento científico e tecnológico dos seus cooperadores, atualmente, cerca de 150 pessoas de comprovada competência, bem assim da atenção expressa à FCPC por todos os reitores da Universidade Federal do Ceará na transcorrência de quase cinquenta anos.

 

FCPC – Mão-Tenente da UFC 

Sob o prisma do auxílio acadêmico em todos os aspectos, a FCPC corresponde à mão direita da primeira universidade federal do Estado, principalmente no aspecto financeiro e sob o ponto de vista executivo dos projetos. Eis que, na sequência, em informações ligeiras, concedo relevo aos principais motivos para tal percepção, nos 49 anos de instituída a Entidade. 

Administração do dinheiro. A Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura gerencia convênios e contratos entre a UFC e academias externas oficiais e particulares, ensejando agilidade administrativa na feitura de pesquisas e execução de serviços. 

Inovação. Concede facilidades à transferência de tecnologia e à interação da Academia com a área produtiva, transmudando o conhecimento da ciência produzido nos laboratórios e outros âmbitos investigativos em soluções práticas para a Sociedade. 

Infraestrutura e Bolsas. A FCPC responde pela administração e o pagamento de bolsas de pesquisa e aquisição de equipamentos de primeira linha, beneficiando diretamente alunos e docentes. 

Concursos. Age como banca organizadora e base administrativa para processos de seleção e concursos públicos, incluindo as instituições ora manifestas – Universidade Federal do Cariri – UFCA, Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – Unilab – e IFCE – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, às quais, também, presta suporte de ordem legal. 

Parcerias em Pesquisas e Inovação. A FCPC possui ligações e funciona com entidades estaduais do Ceará e nacionais, por exemplo, com a Funceme – Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, em projetos de mapeamento e recursos hídricos; Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, em projetos de tecnologia, como monitoramento e água para aquicultura; e Abin – Agência Brasileira de Inteligência, por meio de editais de bolsas para pesquisadores da UFC no ano corrente. 

Parcerias Cultural e de Comunicação. Rádio Universitária FM, pertencente à FCPC e que, neste ano, completa 35 anos de fundação – projeto para difusão científica e cultural; e Cineteatro São Luiz. União para produzir conteúdos culturais, como, por exemplo, o podcast Sons do Ceará. 

Contratos com Outros Países. Intermediada pela Universidade Federal do Ceará – UFC, a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura ampara administrativamente o intercâmbio com institutos acadêmicos do estrangeiro, como a renomeada academia Indiana University (EUA), Universidade do Chile e Universidad de Cuenca (Equador). 

Após esses curtos informes, evidentemente, sem o propósito de cobrir 49 anos de denso e operoso trabalho de investigação científica e inovação, que ajudou a situar a Universidade Federal do Ceará entre as quinhentas maiores instituições universitárias do Mundo, o preclaro leitor é habilitado a saber que o enredo histórico da FCPC, neste passo apenas exemplificado com passagens ligeiras, é passível de preencher um verdadeiro tratado acerca dos proveitos científicos operados pela Instituição, no instante em que celebra orgulhosamente o ano vizinho do seu jubileu de cinquenta anos, verdadeiro esplendor para aqueles que, como eu, guardam a honra de ter a UFC como Alma Mater. 

Neste 21 de janeiro, dirijo parabéns ao magnífico Reitor da UFC, Professor Luís Custódio Almeida da Silva, e aos preceptores da FCPC – Professor Francisco Antônio Guimarães e Professora Maria de Jesus de Sá Correia, em nome dos quais devoto felicitações a todos os stakeholders da quase cinquentona corporação acadêmica, glória viva do Ceará e do Brasil.


ARTIGO - Da Arte de Pensar e do Vício de Usurpar (VCPJ)

 Da Arte de Pensar
e do Vício de Usurpar
Valdester Cavalcante Pinto Junior*

 

 

A ênfase no diálogo, na humildade e na responsabilidade como condições sob as quais o conhecimento realmente floresce é especialmente pertinente. A crítica à apropriação versus a criação genuína restaura uma seriedade moral ao pensamento que muitas vezes é negligenciada. Mark Lewin Seattle Children’s. 

 

Num instante raro de plenitude, quando alguém encontra repouso em sua essência, descobre com surpresa: oferecer seus haveres lhe rende mais do que simplesmente guardá-los. Há, nesse gesto, uma liberdade fina e esclarecida, muito diversa da avareza disfarçada de prudência, consistente na liberdade de agir sem se tornar servo do acumulado. 

O saber, quando confinado ao cofre de uma pessoa, perde vitalidade, enquanto, ao ser partilhado, o conhecimento ganha mundo. Ele deixa de ser ornamento privado e passa a cumprir função mais nobre: circular, provocar, iluminar. Nada há de mais estéril do que o discernimento mantido apenas para inflar o ego de seu detentor — prática bem comum entre aqueles a confundirem silêncio com profundidade e posse com mérito. 

Convém lembrar, contudo, a ideia de o saber, raramente, se conformar ingênuo. Ele se enreda com interesses, vaidades e jogos de força. Não se expressa raro o caso de espíritos estreitos, carentes de rigor, e ainda mais faltos de imaginação, se apropriarem do pensamento alheio com a desenvoltura de quem rouba uma vela acesa e a chama de sol. Transformam o conhecimento em mercadoria, enquanto transmudam inteligência em truque de feira. Não iluminam: ofuscam.

Contra esse comércio de ideias usadas, impõe-se a evidência de o conhecimento somente florescer no diálogo. Usurpar o pensamento do outro é negar-lhe a condição humana e reduzir o aprendizado a um mecanismo automático, desprovido de ética e de espírito. Ensinar e aprender são condutas a exigirem humildade — virtude pouco estimada pelos preferentes do aplauso fácil no lugar da reflexão honesta, isto é, como se diz comumente, os apreciadores dos holofotes. 

A apropriação indevida revela ainda um vício mais profundo: a incapacidade de criar. Quem não gera ideias costuma viver de empréstimos, e os dependentes desses suprimentos, raramente, os devolvem com gratidão. O espírito verdadeiramente fecundo não teme oferecer aquilo por si produzido, pois — ele sabe — a inteligência cresce quando se exercita, não ao se trancafiar. Só o vazio precisa roubar, pois a abundância, ao contrario sensu, distribui. 

Pensar de modo autêntico solicita gosto pelo risco e uma saudável desconfiança do rebanho. Repetir algo já expresso é confortável; compreender, porém, dá trabalho. Por isso, muitos preferem a máscara da erudição em detrimento do esforço da reflexão. A doação do saber não é fraqueza — é luxo. Apenas quem tem em excesso é capaz de dar sem medo. 

Existe, ainda, quem age por um querer incessante, sempre faminto, nunca satisfeito. Deseja não por amor ao conhecimento, mas por carência; não para compreender, mas para exibir. Esses, com efeito, permanecem presos ao ciclo de possuir, mostrar e competir, como se o valor do pensamento estivesse no aplauso provocado e não na verdade revelada. 

Há, contudo, alternativa mais elegante: suspender esse intento bruto e contemplar. Compartilhar o saber com lucidez e compaixão não empobrece, porém eleva. Enquanto a usurpação alimenta rivalidades mesquinhas, a partilha esclarecida aproxima os espíritos e suaviza os costumes, e isto jamais parece pouco. 

Assim, resta uma escolha simples, conquanto nem sempre popular: tratar o saber feito instrumento de vaidade ou como força de esclarecimento. No primeiro caso, ele se torna simulacro, ruído, ornamento vazio. No outro, converte-se em potência viva, habilitada a libertar o pensamento, refinar a convivência e — quem diria — tornar os seres humanos um pouco menos injustos e mais sensatos. Convenhamos, tal já seria um progresso notável...


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

LIVRO - De Khabarovski a Fortaleza (DS)

 DE KHABAROVSKI
A FORTALEZA
Dmitry Sidorenko

 (TRECHOS - 1º PARTE)



INFÂNCIA

A nossa avó vivia completamente à base da sua economia agrícola, comprando na loja somente os produtos básicos como chá, açúcar, sal e pão. No entanto, nas lojas estatais de produtos alimentares de Khabarovsk[1], onde vivia a nossa família, não havia carne. 

Na seção da loja em que estava escrito “Carne”, de costume estavam pendurados somente os ganchos vazios, bem lavados. Vendiam principalmente peixe congelado e latas de peixe e de milho, empilhados em forma de triângulos, ao longo das paredes. 

A maioria das famílias da cidade vivia a base das suas atividades agropastoris, exercidas fora da cidade, como, no caso da minha avó, na povoação Khor. 

Um dia os caçadores trouxeram para o povoado um pequeno ursinho do Himalaia, cuja gola branca era traço caraterístico dessa espécie. Na caçada fora abatida a mãe desse ursinho, e minha avó concordou em ficar com ele. A partir daí os dias na escola se tornaram mais prolongados, na ansiedade do encontro com o ursinho no final da semana.

Recebendo-nos com alegria o ursinho pulava, se levantava em pé contente, fazia sons que lembravam grunhidos. Segurando o animal pela pequena corda, corríamos excitados atrás do ursinho pela aleia, e os cachorros, furiosos, latindo, sufocados, acompanhavam-nos atrás das cercas das suas casas, sem poder provocar qualquer reação do ursinho, correndo conosco até o final da rua. À noite, sentado, com os seus olhinhos pretos brilhando, o ursinho, contente, saboreava o mel do vidro que lhe dávamos. 

Passados seis meses, o ursinho cresceu muito e deixou de reconhecer-nos, manifestando sinais de agressividade. Não nos deixava aproximar para alimentá-lo, berrando ameaçador, o que obrigou a minha avó a prendê-lo com uma corrente de aço a uma arvore de tronco maciço no jardim.

Mas um dia, berrando, ele rompeu a corrente com raiva e atacou a minha avó, que não sabia que ele estava solto e se protegeu com uma panela, mas ele ainda feriu com as suas garras negras o braço dela – que fugiu das garras do urso e correu para a saída. Chamou então um caçador que atirou no urso, quando aquele trepava na cerca do jardim para descer a rua. Assim, de forma trágica, terminou a história do ursinho, que, ao crescer, recebeu o chamado dos selvagens instintos naturais.

A minha avó tinha porcos, que gostávamos de alimentar, eu e meu irmão mais novo, Igor. Um dia, na madrugada, o ganido estridente de porco fez-nos acordar. Gritava o porco no galpão em que o madeireiro Gricha o veio abater. A avó nos acalmava em casa, enxugando com a mão calosa os nossos rostos chorosos, molhados de lágrimas, quando entrou Gricha, com uma caneca na mão cheia de sangue do porco, ainda quente, que lhe sujara toda a roupa. Bebendo, sentou-se à mesa para tomar vodca que a nossa avó lhe serviu, pelo trabalho realizado. 

Era alto, forte, com a cara redonda bem vermelha. Parecia para nós aquele “gigante canalha” dos contos de fadas mais pavoroso do mundo. Na realidade, esse “matador” chamado Gricha não era açougueiro profissional, e fazia esse serviço a pedido, mas trabalhava no conjunto industrial de madeira da povoação. (Continua)





[1] Khabarovsk era a segunda cidade mais importante, depois de Vladivostok, no Extremo Oriente da URSS.

 

ИЗ ХАБАРОВСКОГО
КРЕПОСТЬ
Дмитрий Сидоренко
(ОТРЫВКИ - ЧАСТЬ 1)

 ДЕТСТВО

Наша бабушка жила исключительно за счет своего сельскохозяйственного хозяйства, покупая в магазине только самые необходимые продукты, такие как чай, сахар, соль и хлеб. Однако в государственных продовольственных магазинах Хабаровска[1], где жила наша семья, мяса не было.

В отделе магазина, обозначенном как «Мясо», обычно висели только пустые, хорошо вымытые крючки. В основном там продавали замороженную рыбу, консервы из рыбы и кукурузы, сложенные треугольниками вдоль стен.

Большинство городских семей зарабатывали на жизнь сельским хозяйством и скотоводством за пределами города, как это было и в случае с моей бабушкой в​​деревне Хор.

Однажды охотники принесли в деревню маленького гималайского медвежонка, белый воротник которого был характерной чертой этого вида. Мать медвежонка погибла во время охоты, и моя бабушка согласилась оставить его себе. С тех пор школьные дни казались длиннее, наполненные ожиданием встречи с медвежонком в конце недели.

Радостно поприветствовав нас, маленький медвежонок подпрыгнул, радостно встал и издал звуки, похожие на хрюканье. Держа животное за маленькую веревочку, мы с волнением погнались за медвежонком по переулку, а разъяренные собаки, задыхаясь от лая, последовали за нами за заборы своих домов, не в силах спровоцировать медвежонка на какую-либо реакцию, и побежали с нами до конца улицы. Ночью, сидя с блестящими маленькими черными глазками, счастливый медвежонок наслаждался медом из баночки, которую мы ему дали.

Спустя шесть месяцев маленький медвежонок значительно подрос и перестал нас узнавать, проявляя признаки агрессии. Он не позволял нам подойти к нему, чтобы покормить, угрожающе крича, из-за чего моей бабушке пришлось привязать его стальной цепью к крепкому стволу дерева в саду.

Но однажды, воя, он в ярости сорвал цепь и напал на мою бабушку, которая не знала, что он на свободе, и прикрылась горшком, но он все равно ранил ей руку своими черными когтями – она вырвалась из лап медведя и побежала к выходу. Затем она позвала охотника, который застрелил медведя, когда тот перелезал через садовый забор, чтобы уйти по улице. Так трагически закончилась история маленького медведя, который, повзрослев, почувствовал зов своих диких природных инстинктов.

У моей бабушки были свиньи, которых мы с младшим братом Игорем с удовольствием кормили. Однажды рано утром нас разбудил пронзительный визг свиньи. Свинья визжала в сарае, куда лесоруб Грича пришел ее зарезать. Бабушка успокаивала нас дома, вытирая наши заплаканные лица мозолистой рукой, когда вошел Грича, неся кружку, полную еще теплой свиной крови, которая испачкала всю его одежду. Выпив немного, он сел за стол, чтобы выпить водки, которую бабушка угостила ему за проделанную работу.

Он был высоким, сильным, с круглым, ярко-красным лицом. Нам он показался самым ужасающим «негодяем-великаном» из сказок. В действительности этот «убийца» по имени Грича не был профессиональным мясником; он выполнял работу по заказу, но работал на лесопромышленном комплексе города. (Продолжение)

[1] Хабаровск был вторым по значимости городом после Владивостока на Дальнем Востоке СССР.


 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

ARTIGO - Essencial É Impor Prescrições (VM)

Essencial é
Impor Prescrições
(Para o causídico Dr. Reginaldo Vasconcelos)
Vianney Mesquita *

 

Onde há leis, tremer não deve quem as leis não infringe. (NICCOLÒ VITÓRIO ALFIERI, escritor e dramaturgo italiano. Asti, 16.01.1749; Florença, 08.10.1803).

Bem corriqueiro em distintas passagens do raciocínio resulta em este proceder a uma autocondução até argumentações bem assentes na razão, circunstância própria da via ingênita dos humanos – evidentemente – ao habitar espontaneamente seus juízos. 

Isto sucede quando da ocorrência de alguns episódios com os quais as pessoas se veem desobrigadas dos quefazeres profissionais, isentas de instantes sob recreação, imunes de momentos orantes, desembaraçadas da faina comum, abonadas, assim, do ror de determinações imprimido pela ordem vital. Destas, pela estrada natural do ser, quem reflete deslembra em muitos ensejos, transportando-as aos pensamentos. 

Nalgumas ocasiões, os devaneios assomam meio inocentes e quase tolos, enquanto, em distintas conjunturas, as reflexões afloram mais circunspectas, delas reclamando vigilância e solicitude. Sobrevêm, ainda, em não incomuns situações, algo exigente de complementares ponderações, como, exempli gratia, as meditações acerca da vida pós trânsito anímico, umas delas impondo crédito no futuro eternal depois do óbito, segundo acontece com os cristãos, certos da Eternidade, ao passo que outras entendem como termo a derradeira expiração. Morreu, eis que finda... 

Com efeito, temática a povoar o intelecto conforma-se na MORAL, um dos ideários – nem tanto alcançado na sua exata inteligência – exprimido na conjunção de regras e axiologias sociais, conduzidas culturalmente, orientadoras dos procederes, ao indicar tanto o correto como aquilo a remansar equívoco. 

Daí por que é exigível o dogma – o moto do soneto decassilábico português, neste passo oferecido ao renomeado leitor. Dogma, como de saber quase geral, fundamenta qualquer doutrinação, configura uma verdade incontroversa, que não consente discussão e há de ser admitida e perfilhada pelos que professam política, religião filosofia e muitos outros haveres do discernimento. É o caso das revelações de Deus na Igreja Católica Romana, norteadoras da e da Moral.

 Soneto Decassílabo Lusitano

DOGMA

(Vianney Mesquita)


Sem o DOGMA, a moral não passa de máximas e sentenças. Com ele, no entanto, torna-se preceito, obrigação e necessidade. [JOSEPH JOUBERT – ensaísta, moralista e professor de França. Montignac, 07. 05.1754; Villeneuve-sur-Yonne, 04.05.1824.

 

 

De doutrina abstida a convivência,
A lógica não vai vencer sentenças,
Tampouco evadir as malquerenças,
Ariscas ao teor da inteligência.
 
De vez serão sepultas as avenças,
Mesmo ajustadas pela consciência.
Conquanto se exprimam em aparência,
Do ser humano o mal sobra a expensas.
 
Necessidade inquestionável
O dogma se fixa inescusável
De um preceito sólido a igual.
 
Sob o arbítrio dogmático,
Dá-se o desfecho matemático
À axiologia da moral.
 

De tal modo, como expresso no primeiro quarteto, estando a convivência coibida de doutrina, as razões, não mandatórias nem dogmáticas, jamais vão vencer as máximas e os brocardos – aliás, mencionados na epígrafe de Joseph Joubert, intelectual francês de monta – tampouco as inimizades e antipatias, pois espantadiços e insociais ao que preside à inteligência. 

Na outra quadra do poema em arte maior, ora reproduzido, em assim acontecendo, desaparecerão de vez os acordos e concertos – as avenças – mesmo pretensamente ajustadas pelas consciências, e, embora se mostrem em aparências, o mal vai ficar a expensas do ser humano, sob a responsabilidade dele. 

De efeito, consoante referido no primeiro trístico do decassílabo lusitano, o dogma patenteia uma necessidade inconcussa, fixando-se inescusável, tal como se dá com um preceito sólido, dicção sinônima da ideação dogmática. 

Em assim sobrevindo, consoante divisado no secundário terceto do conjunto de pés de dez sílabas, ao capricho do arbítrio inflexível e sentencioso, tem curso o despacho exato aos valores humanos e humanitários da moral.